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Taise Spolti

O amor está no ar (e no prato): como o relacionamento afeta nossos hábitos

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Taise Spolti

Formada em educação e em nutrição, Taise Spolti é ex-fisiculturista e participou do programa Masterchef, da Band. Em sua coluna, traz receitas que aliam ingredientes saudáveis à gastronomia, além de mostrar como a alimentação equilibrada, a prática de exercícios e outros bons hábitos são essenciais para trilhar o caminho da saúde e do bem-estar físico e mental.

Colunista do UOL

12/06/2022 04h00

Hoje é Dia dos Namorados, e sabemos que em cada cantinho deste país temos casais apaixonados aproveitando um dia juntos, com o tema do amor. O amor é para ser celebrado todos os dias, pertinho ou à distância, é o que nos move. Mas neste 12 de junho o sentimento tem um holofote a mais.

O jeito como encaramos nossos relacionamentos tem relação direta em como nos relacionamos com nós mesmos, e isso reflete em absolutamente tudo que fazemos —incluindo nosso bem-estar, saúde, sono e alimentação.

Ainda na nossa infância, o jeito que aprendemos a lidar com nossas emoções, criadas por estímulos externos, é o que determinará como lidamos com questões internas também, e isso será carregado conosco por toda a vida. Tudo que acontece ao nosso redor pode ou não afetar nossa vida, basta que deixemos determinadas coisas terem a importância que devem. E isso é individual, é sobre como aprendemos a lidar com nossas emoções, e cada pessoa determinará a importância e a potência que tais acontecimentos ou pessoas possuem.

Especificamente com relacionamentos íntimos, como de namorados, casados e parceiros, pessoas apaixonadas e se relacionam pelo amor e afeto, podemos perceber que o envolvimento afeta nossas escolhas em muitos momentos. E sabemos que a pessoa com quem escolhemos viver e nos relacionar tem o poder e a importância que deve ter em nossas vidas, pois entregamos essa confiança a ela. Assim, mantemos, enquanto juntos, essa relação de amor e parceria para a vida que se dá de forma tão forte, que o tempo e a distância já não são empecilhos para diminuir ou aumentar o amor. Amor não é só romance, é uma mistura de comportamentos, inclusive, conflitantes, que nos agregam em crescimento na busca da compaixão, confiança, cuidados, segurança, equilíbrio e paz.

No meio deste amontoado de informações que agregamos em um relacionamento vamos nos entregando ao que se chama 'nós'. E em muitos momentos esquecemos o que conhecemos como 'eu', e, assim, nesta entrega sentimental, misturamos sentimentos e emoções, com comportamentos atrelados a momentos, e resultamos de escolhas que nem sempre serão positivas para o nosso próprio bem. Complexo, mas fácil de entender na prática.

A menina que se apaixona e que por alguma educação primitiva (e que conseguiremos quebrar) encontra na mudança dos seus hábitos a adequação para encantar quem ama, seja na mudança do cabelo, nas roupas, na precoce busca pelo peso ideal. Outro exemplo: o homem que abandona alguns hábitos prévios ao casamento e que se aventura em uma alimentação livre, solta, pesada, rotineira. Ou que não come frutas por não ter sido ensinado a comer sem a ajuda da mãe. O casal recém-formado que, na rotina intensa das mudanças que a vida traz —com casa nova, primeiro filho, financiamentos—, encontra acalento nas promoções do delivery quase diariamente, ou na facilidade do macarrão instantâneo que cabe no bolso e não precisa de muitos preparos.

Os exemplos são uma lista longa. E aqui não cabe julgamento algum. Misturamos sentimentos e emoções a todo tempo em todos os relacionamentos que temos nesta vida, mas os mais íntimos, e nos casos amorosos, como casais apaixonados, levante a mão quem nunca deixou seu desejo de lado para realizar a vontade do amor de sua vida.

Na prática clínica, infelizmente uma das maiores reclamações é da mulher, mãe, casada, que vê sua dieta ir ralo abaixo diariamente devido à rotina penosa é dizer não ao bolo que o marido trouxe para casa, ou ao pedido de todos os componentes da família em mais uma noite de pizza. O amor, e nossos relacionamentos, tem sim grande e importante papel naquilo tudo que envolve nossas 24 horas do dia, diariamente, semanalmente, anualmente.

Outra questão é como andam nossos relacionamentos, ou seja, a que pé estamos na felicidade da união. Se brigamos ficamos tristes, e na tristeza, muitos procuram a 'cura' com a comida, ou no doce, no pedaço de chocolate, ou em qualquer que seja seu desejo.

Na felicidade e na alegria, comemoramos com nossos amados comendo, viajando, experimentando, e é exatamente isso que está acontecendo hoje, e pelos próximos dias. Não à toa essa é uma das épocas do ano de maior movimentação econômica.

Como perceber nossas emoções que podem interferir em nossos hábitos?

A primeira coisa que devemos fazer é perceber como reagimos às mudanças de humor, em como enfrentamos determinadas situações, ou como nos deixamos envolver com acontecimentos que não estão sob nosso controle. Aquilo que está em nós, podemos controlar, sentir, remanejar, solucionar e nos entendermos. Já o que não está sob nosso controle são todas as outras coisas externas, envolvendo pessoas ou situações.

É sobre as coisas externas que devemos nos atentar, pois, se não temos controle, é com o passar da vida que aprenderemos a dar importância que merecem, e sentiremos com maior ou menor potência determinadas emoções.

A tristeza e a alegria estarão presentes em qualquer relacionamento, e não encontramos solução para nenhum problema na alimentação, na comida. Muito pelo contrário, esta é uma espécie de fuga para a não solução dos problemas ou de não querer encarar a resolução de determinados sentimentos.


Em uma situação de tristeza, por uma briga no relacionamento, separação, decepção, seja o que for, tendemos a não querer encarar o sentimento que surge em nosso peito. Quando não aprendemos desde cedo a sentir, prestar atenção no sentimento, crescemos com a fuga certeira a qualquer momento de alternância do estado atual.

Na tristeza, o que fazemos é misturar raiva com impulsividade, terceirizando em muitos momentos aquela dor, ao invés de determinar a importância que daremos ao sentimento causado por uma outra pessoa, e de como aquilo afetará nossa vida naquele momento. Ao não sentir, e parece meio óbvio, não o solucionamos, e buscamos em outras fugas apagar aquilo como forma de esconder, deixar de lado, não pensar.

Geralmente, isso acontece com mudanças dos hábitos, das mais diversas formas, ou bebendo mais, comendo mais, largando uma dieta saudável, ou o inverso: realizando estratégias mais desafiantes em sua rotina para 'focar' em outra coisa, como dietas restritivas, idas mais frequentes à academia, enfim.

Seja na alegria ou na tristeza, os relacionamentos afetarão nossos hábitos de forma geral, nos exemplos que dei fica um pouco mais evidente, mas rotineiramente cada um saberá em qual ponto misturou o 'eu' com o 'nós', e em quais hábitos seus relacionamentos interferem ou não nas suas escolhas.

Um fato é que o amor é o combustível para nossas rotinas. Devemos aprender a colocá-lo em tudo que fazemos, e encarar as mudanças de humor como regra para o sentir, e sentir verdadeiramente, ao invés de fugir buscando soluções terceirizadas.

Ame e sinta, aprenda a sentir, na mudança de humor, sinta verdadeiramente, entenda seus sentimentos, se for alergia, deguste sua alegria, não estrague o sabor da sua felicidade com o grudento peso de uma fritura. Desejo que os dias de amor prevaleçam, não somente hoje ou neste mês dos apaixonados, mas em todos os outros dias, e que aprendamos a sentir sem receio, sem fugas.