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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fome volta a assolar a criança do passado e que hoje é uma pessoa idosa

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Imagem: iStock
Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

31/05/2021 04h00

Uma das maiores conquistas que o Brasil obteve foi não mais pertencer ao mapa da fome. Um acontecimento extraordinário, repleto de alegria, de vidas salvas e que permitiria futuros jovens, adultos e velhos mais saudáveis! Fruto de políticas e programas assertivos para uma situação que violava os direitos humanos.

Mudamos a forma de adoecer e de morrer depois que a fome deixou de assolar boa parte da nossa população. De lá para cá, pensando no processo de envelhecimento e nas pessoas idosas, a preocupação passou a ser com as doenças causadas pelo excesso ou pelo tipo de alimentação.

A preocupação com os mais velhos e mais velhas era agora com a inclusão de mais alimentos saudáveis e sobre como aproveitar o máximo deles e assim evitar o sobrepeso, a obesidade e as diversas doenças cardiovasculares.

Era também motivo de salutares trocas o aprendizado que todas e todos nós tínhamos com as pessoas idosas sobre como preparar e aproveitar também os mais diversos alimentos.

Era aprender como acrescentar um novo ingrediente que, ainda que básico, aguçava olfatos e paladares, ressaltando sabores e mantendo todas as boas qualidades nutricionais dos pratos consumidos regularmente por milhões de famílias no Brasil.

E, de repente, volta a fome.

A pandemia nos trouxe a fome e milhares de pessoas, incluindo as mais velhas, voltam a esse cenário desesperador por muitas já vivenciadas nas suas infâncias. São milhares de geladeiras vazias, às vezes, só com garrafas de água geladas acompanhadas de diversas vasilhas vazias e outras com um pouco mais de sal ou açúcar para temperar algum alimento.

Agora não importa qual seja esse alimento. Tem que chegar e, de alguma forma, render mais que o de costume. Ser um prato saboroso já não é prioridade. Tem que matar a fome. Simples assim.

Para as pessoas idosas um problema extremamente perigoso é o surgimento da síndrome da fragilidade, que envolve diversas vulnerabilidades biológicas, psicológicas e sociais. É caracterizada pela redução da capacidade do nosso organismo em lidar com fatores estressantes do cotidiano e que dificulta o bom equilíbrio das funções fisiológicas do nosso corpo.

Envolve a redução das nossas reservas de energias a partir dos desequilíbrios endocrinológicos, neuromusculares e imunológicos. Com essa baixa ingesta nutricional, o corpo começa a utilizar outras fontes de energia, como aquelas presentes nos músculos. Isso não é nada bom porque daí decorre um outro problema que é a sarcopenia, que podemos resumir na perda de massa muscular.

Quanto mais velha a pessoa, maiores são as chances de ocorrer a síndrome da fragilidade. Para saber se isso está ocorrendo, atente-se para os seguintes aspectos e o que vem ocorrendo nos últimos meses na vida de idosos e idosas:

  • Ocorreu perda importante de peso corporal?
  • Houve redução da velocidade habitual da forma de andar?
  • A força do aperto de mão ficou menor?
  • Há mais relatos de fadiga? (cansaço para realizar atividades que, comumente, não geravam essa queixa)
  • Há redução na capacidade de realizar atividade física?

Então a fome pode deixar a pessoa idosa mais magra e com menos músculo, certo? Sim, mas tem mais.

Isso tudo faz com que outros problemas surjam. Como o corpo começa a ser "consumido" para manter-se vivo, problemas como retração gengival dificultam o uso de prótese dentária e, consequentemente, a ingesta de qualquer alimento fica ainda mais complicada.

Além disso, não ocorre apenas a redução da força muscular de pernas e braços, há também dos músculos da mastigação e isso complica ainda mais o consumo daquilo que já é pouco. Com dificuldades de mastigação e deglutição, o risco dos alimentos irem para os pulmões aumenta e aí temos mais um grande problema respiratório instalado.

Para a mobilidade, tudo pode ficar ainda mais complicado. Com menos força nas pernas, o risco de tropeços e quedas só aumentam. Com receio de cair, muitas pessoas idosas ficam mais receosas e passam a restringir ainda mais os movimentos e, com isso, ficam menos ativas e mais sedentárias.

E com mais sedentarismo tudo que estava ruim só piora. Reduz ainda mais a força muscular, diminuem os reflexos, as amplitudes de movimentos das articulações e a realização de atividades do cotidiano ficam mais difíceis. Um cuidador com fome pode pouco contribuir nesse momento.

Mas há também o problema de estar mais tempo sozinha ou sozinho em tempos de pandemia. A falta de pessoas convivendo com idosas e idosos pode diminuir a vontade deles e delas em preparar comida. E, se há pessoas idosas com problemas de memória, falta alguém para supervisionar o quanto as refeições estão satisfazendo as suas necessidades.

Mediando uma mesa sobre saúde coletiva e atenção primária, conheci o médico Calebe Monteiro Borba, que presta assistência às etnias indígenas Tiriyós, Kaxuyanas e Sikuyanas das terras do Parque do Tumucumaque, no Pará.

Das diversas contribuições e saberes compartilhados, uma prática realizada por essas etnias chamou-me a atenção: os mais velhos e mais velhas dão prioridade aos mais jovens na hora de comer, pois são esses os que podem ainda caçar, pescar e plantar.

Entendo que essa filosofia de sobrevivência possa também estar nas áreas urbanas, uma vez que são muitas as pessoas descendentes dos povos indígenas e porque tal atitude não deixa de ser um instinto paterno e materno possível de quem ama filhos e filhas. Fingir estar saciado pode complicar ainda mais a fome que mata aos poucos nossos velhos e velhas em tempos de pandemia.

Talvez o dilema ou a desgraça de algumas pessoas idosas brasileiras seja ter vivido uma infância com fome e agora a sua velhice. Suas células sabem bem o que é isso, seu emocional ainda tem registrado os "gatilhos" sobre o quão duros foram aqueles primeiros anos de vida, com dor de fome, com a lembrança dos olhares de desespero de seus pais e da alegria momentânea de ver algum alimento sendo preparado no fogão.

A síndrome da fragilidade pode ser revertida se detectada precocemente. Mas essa reversão não depende apenas da pessoa idosa, da vontade da família ou da dedicação de cuidadoras. Alimentos adequados, espaços seguros para a prática de atividade física, serviços e profissionais de saúde e da assistência social prontos para o diagnóstico e o manejo desse problema são requisitos essenciais que municípios precisam oferecer.

Para reduzir os males da covid-19 e da síndrome da fragilidade, a prevenção é a melhor intervenção, ainda que estranho para um país que encontra e cria dificuldades para fazer isso e espera, infelizmente, o surgimento de mais doenças, complicações e mortes.

O círculo vicioso de violações dos direitos da pessoa idosa precisa ser interrompido urgentemente. E começa com mais comida decente no prato delas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL