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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

E quem cuida das cuidadoras e dos cuidadores de pessoas idosas?

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

12/04/2021 04h00

Lembro com muito carinho das cuidadoras e cuidadores que conheci. São pessoas comprometidas com o cuidar da pessoa idosa que necessita de alguma ajuda. Dedicam seu tempo de vida, seu tempo livre, sua vitalidade física e até o seu controle emocional para manter bem a pessoa que apresenta dificuldade para a locomoção, para pegar e manusear objetos ou para se lembrar daquilo que precisaria ser feito, como vestir-se ou preparar uma refeição.

Mas há lembranças que não são tão boas. Convivi profissionalmente com uma cuidadora que, ainda com os seus 42 anos, decidiu juntamente com a sua irmã, cuidarem de uma idosa. Ambas trabalhavam inicialmente como faxineiras nessa casa e foram nomeadas cuidadoras após dificuldades de relacionamento entre a paciente e as cuidadoras contratadas via empresa especializada.

Viraram cuidadoras formais sem uma formação específica. Cada uma fazia um turno de 24 horas, ou seja, trabalhavam dia sim, dia não. E, por mais que fossem alertadas dessa sobrecarga, um dia essa cuidadora terminou o expediente e se perdeu na rua, enquanto tentava voltar para sua casa.

Já a sua irmã escondeu a gravidez o quanto pôde, para não perder o emprego e conseguir honrar os boletos. Morreu meses depois do nascimento do bebê. Eu poderia citar outros exemplos. Mas a questão é: quem cuida das cuidadoras e dos cuidadores?

São as mulheres as pessoas mais envolvidas nessa atividade, seja informal —na condição de mãe, filha, nora ou irmã mais nova que cuida da pessoa mais velha—, ou de maneira formal, por indicações ou encaminhadas por empresas especializadas.

Desse último grupo, muitas começam a cuidar da pessoa idosa revezando-se em turnos e, depois, em troca de melhores salários, aceitam ficar mais horas ou dias consecutivos na residência da idosa ou do idoso. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde, havia mais de 2 milhões de pessoas idosas precisando de cuidadores e cuidadoras, sendo 20% de cuidadores contratados e 80% informais.

Existe uma construção social para que o cuidado seja praticado por um grupo específico de pessoas, porque até os ingênuos jogos infantis dos celulares para as crianças do gênero feminino já são interações sobre como se cuidar: joguinhos de maquiagem, de pintar as unhas ou de cuidar da casa.

O número de idosos e idosas dependentes pode estar aumentando a cada dia. Segundo a pesquisa ConVid - Pesquisa de Comportamentos, coordenada pelo Instituto de Comunicação e Informação da Fiocruz, entre os idosos que precisam de cuidadores, os negros são os menos auxiliados por cuidadores formais (10%), seguidos dos pardos (17,5%) e dos brancos (40%).

Isso quer dizer que famílias negras precisam se desdobrar mais entre buscar bons empregos, zelar pela manutenção das crianças nas escolas e cuidar dos mais velhos. E durante a pandemia, muitas das cuidadoras continuaram trabalhando, expondo-se diariamente a um risco maior de adoecimento pela covid-19 devido a rotina de deslocamento e lotação do transporte público.

A professora Helena Hirata escreveu um texto sobre esse assunto e apontou que grupos sociais, em diversas partes do mundo, acabam assumindo o papel de cuidar. Pode ser a mulher em razão da construção social ainda com marcas importantes do machismo, mas pode ser também o homem oriental que não conseguiu alcançar o status social esperado por parte da sociedade ou a pessoa imigrante que está em um país do continente europeu.

Dessa forma, cuidar de pessoas idosas é ganhar um protagonismo na execução desse papel social, mas que também é ocupacional. E a remuneração não é compatível com o tempo e as atividades que executam.

Trata-se de uma ocupação que ainda busca pela sua transformação em profissão e, consequentemente, mais garantia de direitos. Enquanto o Senado aprovou o PL 11/2016, em maio de 2019, o presidente, em julho do mesmo ano, vetou, ou seja, foi contra quem cuida. Talvez paire aqui a cultura do nosso país em desvalorizar os muitos trabalhos manuais e as atividades do cuidar.

E quando as cuidadoras informais nunca tiveram uma relação de bons afetos com a pessoa idosa? O idoso foi o pai ausente, a idosa foi a mãe que bebia o dia todo e agredia seus filhos constantemente, ou foi a irmã rica que nunca quis se envolver com as irmãs que não usufruíram das mesmas condições de vida e, pelo contrário, ainda moravam no mesmo quintal dos seus pais?

Quando famílias pensaram em se organizar para cuidar das mais velhas e dos mais velhos? Quantas vezes a filha solteira (leia-se: que não quis se casar ou ter filhos) foi automaticamente nomeada a ser cuidadora principal? Quantas vezes familiares questionam se é ou foi vontade dessa mulher de cuidar do seu pai ou da sua mãe?

Muitos e muitas devem estar pensando que o mais importante é o amor que sentimos pelas pessoas idosas. Mas a pergunta que devolvo é: foi amor, foi um cuidado formal, foi um tempo da vida que foi compartilhado com essa pessoa, agora envelhecida, teve com o potencial cuidador ou cuidadora?

Será que todas as pessoas idosas investiram nas relações sociais para serem bem cuidadas por familiares ou amigos? E do outro lado, quais foram os valores construídos pelos familiares e amigos em relação à pessoa idosa? Havia amor e empatia envolvidos?

Ainda temos que pensar em como resolver a situação de quando uma pessoa idosa cuida da outra pessoa idosa. E quando ambas têm dificuldades nas suas atividades de vida diária? Um pode ter mobilidade e condições físicas boas, mas a memória muito comprometida e o outro ter grandes incapacidades físicas, como as decorrentes de um AVC, mas as funções cognitivas preservadas.

E aí fica complicado achar a solução. Com o aumento das ocorrências das doenças e agravos crônicos à saúde, tais "coincidências" poderão ocorrer cada vez mais. E se quem cuida é a mulher, observa-se o aumento da sua vulnerabilidade, seja por mais anos cuidando e não sendo cuidada, pelos valores insuficientes de pensões ou aposentadorias para as despesas diárias e pela baixa possibilidade de um nova conjugalidade (há muitas ex-esposas que voltam só para cuidar do ex).

É também difícil informar, conscientizar, mudar o comportamento de uma cuidadora para que ela passe a pensar mais em si. Existem iniciativas e ações buscando a melhora da sua saúde, em todos os aspectos, mas a determinação social desse papel é uma barreira difícil de ser ultrapassada.

A busca por profissionais de saúde só ocorre quando uma doença se instala. E isso denota um fracasso da prevenção de doenças e agravos ou da promoção de saúde. Quem pode ficar com a pessoa idosa para que a cuidadora saia para praticar atividade física, ir a um salão de beleza, passear, ler um livro, ver um filme ou ficar à toa, navegando pelas redes sociais, relaxando?

E como sair desse contexto socioeconômico que reforça mais uma luta para a sobrevivência e não para um crescimento pessoal ou profissional dessas cuidadoras?

É urgente discutirmos a vida de quem cuida e tirar o sobrepeso dessa atividade ocupacional, principalmente para quem atua na informalidade. É possível, se nada for realizado, que a pessoa idosa cuidada viva mais tempo que os cuidadores que morrerão precocemente.

Maior reconhecimento profissional, maior remuneração, facilidade para o acesso de formação, ou benefícios previdenciários para quem faz essa atividade na informalidade.

A presença de outros familiares, seja para a divisão das tarefas do cuidar ou até para a contratação de profissionais pode ser uma alternativa muito boa também.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL