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Neurocientista sucesso no TikTok tem livro entre mais vendidos de Bienal

Ali Hazelwood é a neurocientista autora de "A Hipótese do Amor" - Divulgação
Ali Hazelwood é a neurocientista autora de 'A Hipótese do Amor' Imagem: Divulgação

De Universa, em São Paulo

17/07/2022 04h00

Um chick lit, romance de ficção com protagonistas femininas, escrito por uma neurocientista, ficou em primeiro lugar entre os mais vendidos da Editora Arqueiro na Bienal do Livro de São Paulo. "A Hipótese do Amor" é assinado por Ali Hazelwood, uma italiana de 33 anos que viveu no Japão e hoje mora nos Estados Unidos. Como mulher da ciência, ela traz sua experiência pessoal para a obra, criando personagens que, assim como ela, também são dessa área de pesquisa.

Ali recebeu Universa no hotel em que estava hospedada na capital paulista antes de participar de seu painel na Bienal do Livro. Animada, ela fala rápido como uma boa italiana, precisou de menos de 24 horas para se apaixonar pelo Brasil e diz que ver autoras mulheres com livros de romance no topo das listas dos mais vendidos do mundo a incentiva a correr atrás de seus sonhos. Leia a entrevista com ela a seguir.

UNIVERSA: Você é neurocientista, certo? Como os livros entraram na sua vida?
Ali Hazelwood: Eu sempre gostei de ficção científica e escrevia histórias sobre o gênero. E, claro, também era uma grande leitora de romances. Minha agente, que também escrevia ficção científica, viu uma história minha publicada em um site do gênero e me falou que tinha potencial para se tornar um livro. E foi assim que começou.

Como você se tornou cientista?
Sempre fui interessada no cérebro humano, na verdade, na relação que ele tem com o comportamento das pessoas. Por que algumas pessoas se comportam de uma maneira e outras não? Por que tem pessoas mais ansiosas ou mais animadas? Eu queria entender. Inicialmente eu estava mais interessada em psicologia e estatística e estatística biológica. Mas, no fim das contas, fiz a transição para a neurociência.

Qual é a sua avaliação sobre a quantidade de oportunidades para as mulheres no ramo da ciência?
Acho que está melhorando. As mulheres, principalmente as mulheres negras, são sub-representadas até em áreas onde somos maioria. É difícil ver uma mulher chegar ao topo e se tornar professora. Peguemos o ramo da psicologia, por exemplo, que é próximo à neurociência. Existem muitas estudantes, mas quando os cargos vão crescendo, ficando maiores e chegando ao administrativo, por exemplo, a maioria é ocupada por homens. Apesar das oportunidades estarem aumentando, ainda há algo que dificulta que as mulheres estejam em posição de poder. Espero que com o tempo fique mais fácil.

E no mercado literário? Na lista dos mais vendidos sempre há muitas mulheres.
Uma das coisas que amo é que existem várias mulheres que escrevem romances, ficções e histórias de amor que estão entre as mais vendidas. A Colleen Hoover, por exemplo, está sempre no topo dos mais vendidos do New York Times, que é uma autora que admiro muito. Vê-la nesse lugar, vendendo tantos livros, é inspirador. Me dá coragem e confiança de continuar indo atrás do que amo. São mulheres inspirando mulheres.

Acredita que sua história possa inspirar algumas jovens a buscar o ramo da ciência? Afinal, suas protagonistas quebram o estereótipo de que não é legal ser geek.
Espero que sim, mas não é para isso que escrevo. Minhas personagens são parte da minha experiência pessoal, é a minha realidade, o que sei. Inclusive, às vezes, fico preocupada quando falo que a faculdade pode ser estressante. Que isso possa desencorajar alguém a estudar [risos]. Mas, para mim, como mulher na ciência, é muito gratificante que isso torne possível alguém buscar a profissão.

Alguns acontecimentos da sua vida inspiraram a história, certo? Quais são eles?
Muitos deles. Por exemplo, na cena do piquenique de "A Hipótese do Amor" os estudantes sabem que o evento não é obrigatório, mas no fundo, é sim. É algo que tirei da minha vida. Nós também tínhamos piqueniques quando eu estudava e sabíamos que tínhamos de ir. Vários pequenos toques eu roubei da minha experiência e de alguns amigos.

Muita gente tem preconceito com esse tipo de romance, considerando-os menos inteligentes. E você é uma neurocientista que se dedica a isso. O que acha desse julgamento?
Sei que muita gente se comporta assim, mas eu não penso nessas pessoas. Romance é meu gênero preferido. Amo tanto ler quanto escrever. É algo que me dá muita alegria na vida. Tenho pena das pessoas que pensam assim, porque são elas que estão perdendo.

"A Hipótese do Amor" , de Ali Hazelwood,foi o livro da Editora Arqueiro mais vendido na Bienal do Livro em SP - Divulgação - Divulgação
"A Hipótese do Amor" , de Ali Hazelwood,foi o livro da Editora Arqueiro mais vendido na Bienal do Livro em SP
Imagem: Divulgação

Seu livro é um fenômeno no TikTok. Você acha que as redes sociais são importantes para incentivar a leitura hoje em dia?
Acho incrível, porque é algo que nós, autores, não temos controle. No TikTok, particularmente, as pessoas estão falando de livros de um jeito único e criativo. Amo ver as conversas tanto lá quanto no Instagram. Eu mesma já escolhi vários livros para ler por causa das redes sociais.

De que maneira você descobriu que seu livro havia viralizado na rede social?
Minha amiga Jen me mandou mensagem pergunntando se eu sabia que tinha um vídeo no TikTok falando do meu livro com mais de 2 milhões de visualizações. Eu não sabia que tinham conversas sobre livros nessa rede social na época. Não sabia nem o que significava direito. Mas fiquei feliz de ver pessoas lendo e amando. Até quem não amou e tirou um tempo para falar dele nos vídeos. As pessoas se esforçaram muito. Foi fantástico.

Você é italiana, já viveu no Japão e agora mora nos Estados Unidos. Como isso impacta a maneira como escreve?
Aparece em toques do livro. Por exemplo, a Olive é canadense e o visto dela está atrelado ao desempenho no curso. Quando eu estava na faculdade morria de medo de ir mal e perder meu visto. Eu teria que deixar meu curso e meu namorado para trás. Acho que os personagens têm um pouco disso, de não se sentirem tão em casa. E, claro, viajando você conhece pessoas e alguns detalhes sobre elas acabam ficando com você. E, como autora, os acrescento isso nos meus personagens.