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'Dor muito grande', diz mãe que não sabia que filho seria adotado em Israel

Regina da Silva, emocionada ao rever o filho pelo computador, quando ele estava com 23 anos - Cléo Francisco
Regina da Silva, emocionada ao rever o filho pelo computador, quando ele estava com 23 anos Imagem: Cléo Francisco

Cléo Francisco

Colaboração para Universa

16/05/2022 04h00

Há 10 anos, quando fazia parte de um grupo que reunia voluntários de várias regiões do Brasil que ajudavam pessoas a encontrarem suas famílias biológicas, me deparei com a história de Doron Levner. Nascido no Brasil e adotado por uma israelense, desde criança ele sabia que a mãe biológica era brasileira. O garoto cresceu em um lar cheio de amor, estudou e se tornou designer de interiores.

Mas, a partir dos 18 anos, o rapaz quis conhecer sua origem. A foto da genitora que havia chegado a ele, ainda na infância, foi postada na internet com as poucas informações que ele tinha. Os dados chegaram ao grupo e, após levantamento sobre possíveis endereços de Regina Lúcia da Silva, na capital paulista, fui checá-los. E, assim, cheguei a uma casa humilde, no Morro Doce, bairro da zona oeste. Regina, então com 43 anos, me atendeu. Disse-lhe que estava ali porque alguém a procurava. Foi então que ela começou a chorar e falou: "O Doron está me procurando".

Essa é a história do reencontro de Regina, trabalhadora em serviços gerais, e seu filho, Doron Levner, na época com 23 anos. O garoto havia ficado apenas três dias em seus braços após o nascimento, antes que sua patroa e uma conhecida dela chamada Regina decidissem que o garoto seria adotado e iria viver em Israel.

Dez anos depois do reencontro entre mãe e filho, Doron celebra o nascimento dos gêmeos Zoe e Imry, em 1º de abril em Iowa (EUA), frutos de sua união com o psicólogo Tomer Azarya. Uma mulher gestou os óvulos comprados (e depois fecundados com espermatozoides do casal) de outra. Os irmãos se juntam ao mais velho, Yanai, 3 anos, cuja concepção aconteceu da mesma forma. A seguir, cada um conta sua história.

'Disseram que eu veria meu filho no outro dia e isso nunca mais aconteceu'

"Eu trabalhava em casa de família em Bom Conselho, interior de Pernambuco. Engravidei do filho da patroa, que disse que o bebê não era dele. Tinha uns 19 anos, mas não sabia muita coisa. Saí dessa casa, voltei para a dos meus pais, mas não me aceitaram. Minha irmã arrumou um emprego no Recife, mas cedeu esse trabalho para mim. Só que não avisou que eu estava grávida e eu também não contei quando cheguei.

Quando a barriga ficou grande, a dona da casa perguntou a respeito. Confirmei que estava grávida e ela disse que iria falar com minha mãe para ficar com o bebê, enquanto eu continuava a trabalhar com ela. Mas minha mãe não queria saber de criança lá. Então a patroa sugeriu que ia procurar alguém para ficar com o bebê e eu continuar a trabalhar. Mal sabendo escrever meu nome, imaginava que a pessoa ficaria com o bebê, mas poderia ter contato com ele, visitá-lo.

Doron - Reprodução/ Domingão do Faustão/ TV Globo - Reprodução/ Domingão do Faustão/ TV Globo
Regina Lúcia da Silva reencontra o filho, Doron Levner, que foi levado para Israel ainda bebê
Imagem: Reprodução/ Domingão do Faustão/ TV Globo

Quando ela me levou para o hospital já tinha combinado com uma tal Regina, pessoa que ia cuidar dele. Eu não sabia nem para onde ele iria. O parto aconteceu, três dias depois tive alta e, quando saí, essa moça já estava esperando. Ela me disse: 'Vou levar. No outro dia trago para ele mamar'. Mas nunca mais vi meu filho.

Quase um mês depois me levaram para assinar um papel. Não sabia que estava indo para um juiz e que o documento era para o Doron viajar, nem que ele iria embora do Brasil. Quando voltei, minha patroa disse que eu iria ver a criança outro dia e isso nunca aconteceu.

Fiquei uns dois ou três meses nessa casa, mas desiludida, entristecida. Um dia, antes de ir embora de lá, peguei uma agenda e procurei o nome da mulher que tinha pego a criança e anotei o telefone. Guardei e vim para São Paulo. Um tempo depois de me ajeitar na cidade, liguei para essa pessoa. Ela atendeu e perguntei sobre meu bebê, que gostaria de saber onde ele estava, com quem. Foi quando soube que ele vivia em Israel e que o documento que assinei era para levá-lo para fora do Brasil.

Ela então disse que eu mandasse uma foto minha para ela, que mandaria outra do bebê. Me senti muito mal. Não sabia se iria encontrá-lo de novo, é uma dor muito grande saber que seu filho está longe. Mandei uma foto para ela e recebi fotos dele. Ela me falava como o Doron estava. Mas um tempo depois essa mulher teve câncer, faleceu e eu perdi o contato com meu filho.

Doron - Cléo Francisco - Cléo Francisco
Regina, Doron e Jean no primeiro Natal que passaram juntos
Imagem: Cléo Francisco

Em 2012, foi uma alegria muito grande ter notícias dele, como se meu filho tivesse nascido de novo. Meu caçula, o Jean, estava com 12 anos e o Doron ficou muito contente, animado por ter um irmãozinho.

Uma semana depois, nos vimos pela primeira vez por computador.

Quando eu o vi senti que era ele, parecia todo comigo. Nós fizemos exame de DNA, que deu positivo, mas já sabia que ele era meu filho. A emoção naquela hora foi tão grande, não sabia nem explicar. Parecia que não estava acontecendo comigo. Mas foi uma sensação muito boa.

No dia 23 de dezembro de 2012, fui encontrá-lo no 'Domingão do Faustão', na Globo. Ele não sabia que eu estaria lá, foi tudo combinado com a produção que o trouxe para o Brasil. Olha, estava tão nervosa, mas foi uma sensação maravilhosa, um presente de Deus, o melhor, naquele natal. Passei a noite de Natal com ele, que foi embora no dia 25 de dezembro.

Não existe presente maior que um filho, é tudo na vida da gente. Nossa relação é maravilhosa, a gente se comunica pelo Whatsapp. Tem três anos que ele veio aqui da última vez. Nessa última viagem, ele já entendia melhor o português. Doron se tornou um homem maravilhoso, responsável, trabalhador, decente. Me orgulho muito dele e do Jean. São dois homens maravilhosos na minha vida, se dão bem, se falam sempre. O Doron sempre manda presente de aniversário para ele.

Como mãe, nós sempre queremos o filho do lado, mas ele foi bem cuidado, teve bom estudo. Uma coisa boa e, ao mesmo tempo ruim, por causa do sofrimento. Mas deu tudo certo. A mãe adotiva cuidou dele superbem. Ele é estudado. Aqui teria sido bem mais difícil.

Tenho planos de conhecer Israel, meus netos e lá ele pode traduzir a história vivida pela mãe dele. Ela não devia saber dos detalhes dessa adoção porque mandava informações sobre ele, com fotos. Doron significa 'presente' em hebraico, e é isso o que ele é para mim e a mãe adotiva. E agora estou maravilhada de ser avó dessas três crianças." Regina Lúcia da Silva, mãe de Doron e de Jean

'Passei cinco anos tentando encontrar minha mãe biológica'

"Minha adoção nunca foi segredo em casa. Sempre soube e todos à minha volta também. Minha mãe pagou apenas o advogado quando me adotou e ela sempre foi muito legal comigo, tive uma infância feliz, com um monte de amigos. Filho único, sempre quis saber se tinha irmãos, além de conhecer minha mãe no Brasil. Tinha uma foto da Regina porque uma época havia conexão com uma outra senhora e ela sempre perguntava de mim.

Aos 18 anos, comecei a pensar no que fazer para retomar o contato perdido. Pesquisando encontrei um amigo em um grupo na internet e tudo começou. Foram mais ou menos uns cinco anos até encontrá-la.

A primeira vez que nos vimos foi pelo computador e foi muito estranho. Era como se aquela antiga foto estivesse ganhando vida, algo chocante, incrível.

Quando vim para o Brasil, em 2012, tinha a ideia de encontrá-la, mas não no palco. Foi um choque e não me lembro da maior parte daquele momento no programa de TV. Era 23 de dezembro e no dia seguinte fui à casa da Regina, onde passei a noite de Natal com ela e me levaram à igreja. Foi incrível. Não sou um judeu religioso. Foi diferente sentir a vibe desse feriado, o espírito de natal. Foi uma data muito especial para mim.

Também fiquei muito feliz por saber que tinha um irmão, é algo que sempre quis. Foi uma mudança enorme na minha vida, não tenho mais perguntas sobre minha origem. Sinto que completou-se um círculo. Temos contato pelo Whatsapp e é pouco porque eles não sabem inglês. Nossa comunicação é mais por fotos.

Eu sonhava ter uma família grande. E, agora, além do nosso filho Yanai, de 3 anos, temos Zoe e Imry, que nasceram em Iowa, nos Estados Unidos, dia 1º de abril." Doron Levner, filho de Regina