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Brasileiras sobre bullying em Portugal: 'Falavam pra minha filha se matar'

Natalia Eiras

Colaboração para Universa, de Lisboa (Portugal)

18/02/2022 04h00

A filha de 11 anos da brasileira Antonia Silverlene Melo, 47, ficou conhecida em Portugal por conta de uma situação brutal. Vítima de bullying, a menina foi filmada sendo agredida por colegas de escola. As imagens, em que ela aparece levando pontapés, rodou a imprensa internacional no começo do mês e levantou o debate sobre casos de intimidação e violência entre alunos nas escolas. Principalmente as situações motivadas pela xenofobia.

Com 10 milhões de habitantes, Portugal é, de acordo com estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), de 2017, o 15º país com mais relatos de bullying na Europa e na América do Norte, ficando à frente dos Estados Unidos. Entre 31% e 40% dos adolescentes portugueses com idades entre 11 e 15 anos confirmaram ter sido intimidados na escola uma vez em menos de dois meses. Desde então, o número tem caído: a Guarda Nacional Republicana (GNR) relatou, em outubro de 2021, 467 crimes nas escolas portuguesas. Porém, especialistas apontam que seja porque as instituições não têm reportado os casos de maneira adequada.

Por isso, após o caso da filha de Antonia vir à tona, ela e outras mães brasileiras conversam com Universa sobre os casos de bullying e xenofobia nas escolas portuguesas. Nos depoimentos, relatos de crianças xingadas, agredidas e excluídas por conta de sua nacionalidade e maneira de falar. Leia a seguir:

"Quando vi a brutalidade das cenas, fiquei muito chocada"

antonia e filha bullying escolas em Portugal - arquivo pessoal - arquivo pessoal
"Minha frustração foi apostar minhas fichas nesse país e ver a minha filha passar por isso", diz Antonia, após a agressão da filha.
Imagem: arquivo pessoal

"Minha filha de 11 anos começou a sofrer bullying ainda na primeira escola em que estudou em Portugal, por ser brasileira. Descobrimos quando ela relatou o ocorrido para uma psicóloga. Quando mudou de instituição, a turma era formada pelas mesmas crianças que implicavam com ela na escola anterior. Fui ensinando a ela para deixar relevar, para deixar para lá. Achava que era algo normal nessa idade.

Um dia, ela postou uma selfie dela, muito bonita, e um menino do Brasil com quem ela estava trocando mensagens comentou. Uma colega escreveu dizendo que o garoto só estava com ela porque não a conhecia de verdade, que ele iria deixá-la, como todo mundo. Que ninguém da turma gosta dela, que todos a odeiam. Que a única amiga da minha filha só era próxima por pena. Chegavam a falar para ela se matar.

Ela me mostrou as mensagens no dia 25 de janeiro. Liguei para o número e ele me bloqueou. Resolvi reportar o caso para a escola, que fez uma reunião com os alunos para discutir o problema. Eu teria uma conversa com o diretor na sexta-feira (4), mas ela não aconteceu por motivos de saúde.

Neste dia, minha filha contou para uma amiga de outra sala que foram falar mal dela. Uma colega ficou brava e começou a briga. Ela chegou em casa comentando que havia saído um conflito, mas achei que era algo da idade deles. Minha filha contou que coleguinhas tinham feito vídeos e pedi que, se ela conseguisse uma cópia, eu queria ver.

No dia seguinte, no sábado (5), alguns pais me perguntaram se minha filha estava bem e se eu tinha visto o vídeo. Falei que não e eles compartilharam comigo. Quando vi a brutalidade das cenas, fiquei muito chocada. Eu não imaginava que tinha sido tão violento.

Perguntei para minha filha porque ela não havia sido mais clara e ela respondeu que não tinha doído. Foi quando percebi que minha menina estava vendo as coisas de forma distorcida. Que aquela brutalidade estava se tornando normal.

Falei na escola na segunda-feira seguinte, fiz meu relato e disse que estava indo para a delegacia. A direção compartilhou comigo o nome dos envolvidos e eu fiz o registro. Mas o que me deixou mais chocada é que, de acordo com a escola, ninguém viu a briga. Só a gravação tem mais de um minuto. Já ouvi relatos de violência nas escolas portuguesas, mas isso me surpreendeu.

Não ia mais deixar minha filha ir à escola, mas decidi levá-la um dia para testar. Ela ficou muito angustiada e ouviu comentários minimizando a situação. Um dos colegas ficou se perguntando se o caso havia sido tão grave mesmo se ela foi embora andando.

Decidimos, por fim, mudá-la de escola para uma em uma cidade vizinha. Ela está melhor, empolgada, porque ela já tem amigas lá. Alguns profissionais e pais que ouviram falar da história dela mandaram mensagem dizendo que vão acolhê-la muito bem. Está passando também por uma psicóloga presencial e fazendo acompanhamento.

Eu vim de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, pela segurança. Passou pela cabeça voltar para o Brasil? Não, mas fiquei mexida. A minha frustração foi apostar minhas fichas aqui e a minha filha passar por isso. Mesmo se eu pesquisasse, antes de me mudar, sobre violência nas escolas, não encontraria muita coisa, porque é algo minimizado, tratado como normal". Antonia Silverlene Melo, 47, embaladora, mãe de uma menina de 11 anos, é brasileira de São Gonçalo (RJ), mora em Entrocamento há 3 anos

Falam para meu filho: 'cala-te, a sua fala brasileira me irrita'

cida e filho bullying escolas em Portugal - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Após o filho sofrer agressões na escola: "A gente sai do Brasil para viver em um país teoricamente seguro para passar por esse tipo de situação na escola?", pergunta Cida
Imagem: arquivo pessoal

"Meu filho tem 8 anos e começou a frequentar a escola em 2019. Percebemos o bullying logo na van escolar. Um menino mais velho, de 11 anos, via meu filho e gritava: 'cala-te, a sua fala brasileira me irrita'. Depois, começou a impedir que meu filho sentasse perto dele.

Meu filho ia e voltava para a escola muito triste, tinha muitos pesadelos. Parou de ir ao banheiro na escola porque, um dia, uma outra criança invadiu o banheiro onde ele estava fazendo xixi e o agarrou por trás, tampando a boca dele para não gritar. Ele conseguiu se desvencilhar e fugir, mas ficou com medo. Ele segurava o dia todo para fazer xixi em casa. Às vezes não dava tempo de esperar. Ele já chegou em casa sujo de fezes, porque saiu correndo do banheiro achando que seria atacado novamente.

Em outra situação, o mesmo garoto que o atacava na van deu um tapa na cara do meu filho no intervalo. Isso porque eles estavam jogando bola e o garoto disse para meu filho: 'até os seus gritos me irritam'. O garoto passava perto de meu menino falando que o odiava. Mas a pior situação aconteceu no dia 25 de janeiro.

Ele chegou da escola cabisbaixo, quando tirou a toca de frio, vi a sua orelha muito inchada e a cabeça com marcas de escoriação. Entrei em desespero e meu filho desabafou. Disse que estava no alto do escorregador e o menino que sempre o ataca o derrubou lá de cima. Ele caiu de barriga para baixo, o garoto sentou em cima dele e começou a esmurrá-lo.

As outras tiveram que correr atrás de alguém para intervir. A auxiliar educacional teria atendido e ouvido apenas o agressor. Não viu se ele estava machucado, se estava bem. Quando chegou em casa, meu filho estava morrendo de dor de cabeça.

Fui à Guarda Nacional Republicana e denunciei a situação. Pedi para a diretoria da escola que tivéssemos uma reunião com os pais do garoto sobre o ocorrido, mas eles minimizaram muito o que tinha acontecido. E, quando a reunião aconteceu, a professora gritou comigo e com meu filho. Gritei também, disse que meu filho estava passando por xenofobia.

É muito triste ver o meu filho sofrendo. Ele acorda, com pesadelos, tenho que segurá-lo na cama porque ele quer pular. Diz que a vida está muito ruim, que não quer ir à escola. Estou sem rumo, o que vou fazer? A gente sai do Brasil para viver em um país teoricamente seguro para passar por esse tipo de situação na escola? Fiquei calada por muito tempo, mas quero justiça. Estou esperando meu marido voltar de viagem para discutirmos se mudamos meu filho de escola. Ele não está bem, não tem brincado no celular, não quer ver TV, vai deitar muito cedo. Agora, está com medo de falar até comigo. É muito humilhante passar por tudo isso." Cida Cordeiro, 41, desempregada, mãe de um menino de 8 anos, é brasileira de Cordeiro de Minas (MG), mora em Silves há 3 anos

"É muito difícil de vê-lo saindo para ir para a escola tão triste"

karine e filho bullying escolas em Portugal - arquivo pessoal - arquivo pessoal
karine e filho bullying escolas em Portugal
Imagem: arquivo pessoal

"Desde que meu filho de 10 anos começou em um nova escola, em 2019, dizia que não gostava dela. Achei que era saudade de casa, mas aí ele começou a ficar extremamente nervoso, não dormia. Um dia, ele desabafou comigo. Disse que os colegas de escola o tratam mal por ser brasileiro. Um deles o chamava de pobrão, ladrão, falavam que a mãe dele era pu**.

Um dia ele chegou todo sujo, com o cabelo bagunçado, e me contou que foi para cima do menino porque haviam me xingado. Com isso, ele teve problemas, não conseguiu acompanhar a classe.

Hoje em dia está um pouco melhor, porque mudei para um lugar um pouco menor e tenho mais contato com os professores. Na escola nova, ele já fez dois amigos brasileiros. Ele tem uma única amiga portuguesa que disse que os pais não gostam que eles façam amizade com brasileiros. Ainda assim, continua não gostando da escola.

Ele já tinha um trauma, porque o pai dele foi assassinado. Saí do Brasil e vim para cá, para ele não crescer na violência, mas todo dia é uma luta.

Antes, achava que era mimimi, mas agora estou sentindo mesmo muito forte essa xenofobia. Não sei se era porque não tinha filho, mas tenho percebido muito mais preconceito contra brasileiros.

Por isso, o bullying é uma questão que deve ser exposta. É um problema estrutural e tem que ser mudado. É muito difícil de vê-lo saindo para ir para a escola tão triste. Tenho até vergonha de obrigá-lo a ir à escola." Karine Moreira, 42, cuidadora de idosos

"Denunciei os casos de bullying, levei ao tribunal, mas não deu em nada"

"Minha filha de 13 anos é uma criança muito alta e as colegas da mesma idade eram muito pequeninas. Para os colegas, aquilo era um insulto, empurravam ela na escola. Falavam que esta não era a terra dela, punham muitos nomes nela. Ela não dormia à noite, precisávamos colocá-la entre eu e meu marido, porque ela acordava sobressaltada.

Mudamos ela de escola, mas a situação piorou. Minha filha sempre chegava machucada. Mas ela não tinha apoio do corpo docente, falavam que não acontecia nada. Os professores nos chamavam de 'queixinhas', porque queria entender o que estava acontecendo com a minha filha.

Um dia, uma colega a derrubou no banheiro. Ligaram-me para levá-la ao hospital e, quando cheguei, as outras crianças estavam em volta dela rindo, fazendo chacota. Era tudo muito doloroso, porque os professores fingiam que não viam. Um deles chegou a dizer que o problema da minha filha estava em nossa casa.

Tive que dizer para minha filha começar a revidar. Fui obrigada a isso, mas, se não tomarmos cuidado, nossos filhos também ficam agressivos. Denunciei os casos de bullying, levei ao tribunal, mas não deu em nada. Mudamos de cidade e, atualmente, ela está melhor. Mais feliz." Dora*, 50, trabalhadora da construção civil, mãe de uma menina de 13 anos, é brasileira de Palmeirópolis (TO) e mora em Almada há 5 anos