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Após alergia, ela passou a fazer seus cosméticos e hoje tem marca vegana

Andréia Munhoz, 45, de SP, criou marca de cosméticos vegana, a uNeVie Cosméticos - Bruna Azevedo/Divulgação
Andréia Munhoz, 45, de SP, criou marca de cosméticos vegana, a uNeVie Cosméticos Imagem: Bruna Azevedo/Divulgação

Marcelle Souza

Colaboração para Universa

24/04/2021 04h00

A paulista Andréia Munhoz, 45, lembra-se com carinho das tardes de beleza com receitas caseiras que ela fazia com a mãe e a irmã. "Desde criança, sempre fomos incentivadas pela minha mãe a ter uma rotina de cuidados com a pele e o cabelo", conta.

Nas comemorações de Natal e nos aniversários da família, elas gostavam de criar seus próprios presentes, preparados de forma artesanal e exclusiva. Na juventude, entrou para o curso de química na USP (Universidade de São Paulo), que acabou abandonando, porque achou que não era o que buscava.

Eu queria trabalhar com formulação de produtos, não só de cosméticos, que não era o enfoque do curso, mais voltado para laboratório, indústria química pesada. Algumas pessoas me sugeriram mudar para farmácia, mas eu também não queria trabalhar com remédio, em hospital. Fiquei muito perdida e acabei fazendo turismo", afirma.

O sonho de trabalhar com cosméticos naturais, alimentado nas tardes de beleza em família, só foi concretizado cerca de 20 anos depois. Enquanto isso, ela fez uma pós-graduação e um MBA em administração de empresas, trabalhou no mercado do turismo e teve dois negócios em outras áreas, que acabaram não dando certo.

"Quando saí do mercado de turismo, descobri que estava com problema de tireoide, não podia usar produtos convencionais, porque alguns componentes me davam alergia. Então decidi começar a produzir os meus próprios cosméticos de forma artesanal", conta.

Foi assim que, em 2014, nasceu a uNeVie Cosméticos, uma marca de produtos veganos artesanais. Desde o fim de 2019, a empresa passou também a terceirizar o seu laboratório, produzindo também para outras marcas, que tivessem a mesma proposta.

Investimento inicial foi de R$ 10 mil

Antes do sucesso com a uNeVie, no entanto, Andréia levou três anos para poder se encontrar. Primeiro, teve um e-commerce de roupas de bebê importadas e, depois, também on-line, uma papelaria com materiais para a produção de scrapbooks. "Eu acabei tendo que encerrar os dois negócios, por conta das variações do dólar e do timing, mas aprendi bastante sobre importação e vendas on-line."

Por conta da alergia, nessa mesma época ela começou a produzir, para consumo pessoal, alguns produtos feitos apenas com ingredientes de origem vegetal para evitar irritações de pele. Pouco a pouco, começaram a surgir pedidos para que ela fizesse para vender e Andréia viu aí uma possibilidade de aliar interesse pessoal com um mercado em crescimento.
"Eu fiz alguns cursos e, aos poucos, começou a surgiu uma demanda de parentes e amigos e passei a gostar ainda mais desse universo", conta.

O investimento inicial da uNeVie foi de R$ 10 mil, das economias de Andréia, que foram aplicados para a montagem de um pequeno ateliê,onde ela desenvolveu inicialmente uma linha de sabonetes artesanais. Nessa época, ela também dava alguns cursos para pessoas que, assim como ela, queriam produzir seus próprios sabonetes. Esse contato fez com que Andréia entendesse melhor o que buscava o seu público-alvo. "Foi uma forma de fazer uma pesquisa de mercado, especialmente porque neste momento não tinham muitas marcas naturais no mercado", diz.

Marca tem 120 produtos veganos como pasta de dente em pó

Hoje a uNeVie tem mais de 120 produtos em nove linhas. A empresa não testa em animais e não produz resíduos, já que sua produção é biodegradável. Além disso, mais de 95% das embalagens da marca são reutilizáveis, biodegradáveis ou recicláveis.

O consumidor desse mercado natural e vegano é muito exigente, questiona e busca as certificações, então você precisa se esforçar muito para atender às expectativas, diz

Por conta da matéria-prima e da preocupação com a redução do impacto ambiental, os itens têm apresentações diferentes das convencionais, como "pasta de dente" em creme, pó ou barra, e os desodorantes e xampus sólidos.
A venda dos produtos é feita por aproximadamente 300 representantes (pessoas físicas e jurídicas).

A marca chegou a ter uma loja própria na região da avenida Paulista, em São Paulo, mas fechou a unidade durante a pandemia — Andréia não tem planos de reabri-la. "Vamos focar nas lojas parceiras e vendas on-line", diz.

Regularização foi passo mais difícil

Assim que decidiu criar uma marca de cosméticos, Andréia esbarrou com uma dificuldade: encontrar um laboratório regularizado nos órgãos oficiais que topasse trabalhar com matéria-prima vegetal e que tivesse preocupação com o impacto ambiental. Além disso, era preciso que produzisse em pequenas quantidades a preços competitivos, para garantir a venda dentro do prazo de validade desses itens.

Foi nesse momento que ela decidiu não só criar a marca, mas uma fábrica que pudesse fazer esse tipo de produto não só para ela, mas também para outras empresas do mercado vegano, orgânico e natural.

A certificação junto à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), no entanto, levou dois anos e saiu só no fim de 2019. "Foi um processo muito difícil, moroso, de muito estudo e adaptação. Eu confesso que pensei em desistir várias vezes, mas, no fim, aprendemos muito e as normas estão agora enraizadas no nosso dia a dia", conta.

O esforço começou a valer a pena quando a produção terceirizada se tornou a principal fonte receita da uNeVie. Em 2020, mesmo com a pandemia, o crescimento da empresa foi de 60% em relação a 2019. "Eu sempre quis que, assim como nós, outras marcas de cosméticos naturais fossem regularizadas e que o consumidor tivesse cada vez mais opções no mercado", diz.

Produção para outras marcas

Localizado na zona norte de São Paulo, o ateliê da uNeVie produz para clientes de qualquer porte, dos segmentos de cosméticos, beleza e higiene. Os serviços vão desde o desenvolvimento de fórmulas até o envase. Em novembro e dezembro do ano passado, o espaço produziu 40 mil unidades no segmento.

Com o aumento gradual da demanda, especialmente para a produção de marcas terceirizadas, Andréia estima um crescimento de até 200% neste ano. "Laboratórios convencionais não estão preparados para esse mercado de produto natural, e nós esperamos crescer nesse nicho", diz.

O objetivo é que, junto ao aumento dos pedidos, ela possa também estimular o crescimento dos fornecedores de matéria-prima. "A gente acaba gerando mais demanda para toda a cadeia, que normalmente produz em pequena escala, como de embalagens recicláveis e compostáveis, manteigas e óleos essenciais; e assim fortalecemos também os nossos parceiros", conta.

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