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"É possível ser vegano sendo pobre", diz influenciadora da periferia

Luciene Santos, criadora do Sapa Vegana - Divulgação
Luciene Santos, criadora do Sapa Vegana Imagem: Divulgação

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

08/02/2020 04h00

A vida da estudante de Direito Luciene Santos, de 25 anos, foi fortemente impactada quando, em 2018, ela assistiu a um vídeo sobre abate de bois e porcos. Depois de ver o que considerou uma atrocidade, ela decidiu: pararia de consumir qualquer tipo de alimento com origem animal.

Foi aí que, moradora do Jaraguá, bairro na periferia de São Paulo, a universitária pelo Prouni percebeu que o veganismo não é, necessariamente, coisa de branco que tem dinheiro e condição de variar o cardápio com produtos caros. Dessa constatação nasceu um perfil no Instagram, o Sapa Vegana.

Em suas postagens, Luciene mostra que é possível adotar o estilo de vida vegano e alimentar-se de forma nutritiva e consciente mesmo para quem, como ela, mora e paga as contas sozinha — e com um salário de estagiária. A universitária dá ainda dicas de receitas simples e baratas que aprende no dia a dia, além de discutir temas como racismo e homofobia no movimento vegano.

"Sempre gostei de compartilhar informação", diz ela. "O Sapa Vegana foi a forma que encontrei de mostrar para as pessoas como eu o que é o veganismo na prática. Para aumentar o número de adeptos e, consequentemente, diminuir a exploração animal, é preciso aprender a lidar com a realidade da população brasileira."

Quanto ao "sapa", Luciene diz considerar muito importante que saibam quem ela é. "Não sou apenas vegana, preta, pobre ou lésbica, sou tudo isso junto — e meu veganismo é vivido a partir disso", conta ela.

Comida gostosa, nutritiva e acessível

Arroz de beterraba e hambúrguer de feijão com vegetais: nutritivo e, garante Luciene, saboroso - Divulgação
Arroz de beterraba e hambúrguer de feijão com vegetais: nutritivo e, garante Luciene, saboroso
Imagem: Divulgação

Luciene garante que as receitas veganas não ficam para trás em sabor quando comparadas às que pessoas onívoras comem. Com a página no ar, ela postou a primeira, uma vitamina de inhame, laranja e abacaxi coberta com aveia, pela qual pagou R$ 1,50 na caixa.

Pouco depois apresentou outros quitutes que aprendeu a fazer do zero, como macarrão com molho branco de couve-flor, pizza de shimeji sem adição de ovos e leite, almôndegas de lentilha e até leite de arroz, que no mercado não sai por menos de R$ 15 o litro.

Ela revela que, com a revisão alimentar, teve de aprender a ler rótulos, estudar sobre onde encontrar nutrientes, evitar recaídas, entender como obter refeições boas o suficiente para não adoecer etc.

"Conforme fui aprendendo, percebi que as pessoas que conviviam comigo também não sabiam nada sobre esse tipo de alimentação e, assim como eu no passado, apenas compravam os ingredientes e faziam da maneira que foram ensinadas, acreditando que aqueles eram os únicos alimentos possíveis e aquelas eram as únicas formas de prepará-los", conta.

Com a mudança de hábitos, as despesas também diminuíram consideravelmente. Se antes de se tornar vegana Luciene comprava muitos congelados, além de carne, ovos, leites e outros derivados que faziam a compra do mês custar cerca ou um pouco mais de R$ 400, hoje seu gasto com comida caiu pela metade - garimpando "fim de feira" e pechinchando. Essa economia, sentida no orçamento do mês, a ajuda a influenciar seguidores.

Reflexos não apenas na alimentação

Se no início as pessoas que acompanhavam a Sapa Vegana eram algumas dezenas, com a divulgação da página em outras redes sociais, blogs e no boca a boca elas multiplicaram, Hoje, menos de dois anos depois de entrar no ar, os seguidores já somam perto de 14 mil.

"Quando criei o perfil, meus seguidores eram meus amigos. Hoje existem diversas pessoas, veganas, ou não, de várias classes e estilos. Sempre recebo mensagens de gente que está na transição para o veganismo ou vegetarianismo, que são veganas e vegetarianas há muito tempo e até de quem não pensa em se tornar veg, mas gosta das receitas", conta Luciene.

Na vida pessoal, muita coisa também aconteceu desde que ela criou o perfil. Na época, fazia apenas dois anos que havia se aceitado e se assumido como lésbica e, assim como muitos LGBTs, precisou sair de casa porque não aguentava mais as constantes humilhações.

"Quando falo que veganos mais privilegiados precisam entender as particularidades da população, também é sobre isso que estou falando. Pode parecer irrelevante eu falar da minha sexualidade e racismo, mas já perdi muitos seguidores por começar a tratar desses assuntos", revela. "As pessoas que se dizem veganas se acham revolucionárias, mas o que tem de revolucionário num ser humano racista e LGBTfóbico?"

Ao perceber essas questões, ela resolveu começar a se posicionar e falar ainda mais de opressões no Instagram. Se de um lado perdeu apoio, por outro também conheceu ainda mais gente que a encoraja, inspira e dá forças.

"Já morei de favor, já morei em ocupação, já me emprestaram dinheiro para pagar o aluguel. Foram muitas lágrimas, vontade de desistir, algumas vezes até tentei deixar de existir", afirma. "Por isso, ouvir de muitas mulheres, principalmente as lésbicas e pretas, que sou inspiração, me motiva de um jeito que talvez elas sequer imaginem. Só tenho a agradecer. Meu máximo respeito a vocês, à nossa luta e à nossa resistência."

Receita: quibe de lentilha

Divulgação
Imagem: Divulgação

Ingredientes
250g de lentilha
2 xícaras de trigo para quibe
2 xícaras de água quente
Cebola
Alho
Sal
Outros temperos de sua preferência

Modo de preparo
Deixe a lentilha de molho por 12 horas. Coloque a água quente no trigo para quibe e deixe descansando por 20 minutos. Lave os grãos de lentilha e bata no liquidificador usando a função pulsar -- não triture todos os grãos. Misture a lentilha com o trigo para quibe e os temperos e mexa bem. Molde e frite por imersão em óleo bem quente.

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