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Direitos da mulher

Elas foram mães aos 14 anos: "Até hoje não tenho maturidade emocional"

A dona de casa Giovanna, em sua casa, com os dois filhos - Wanezza Soares/UOL
A dona de casa Giovanna, em sua casa, com os dois filhos Imagem: Wanezza Soares/UOL

Luiza Souto

De Universa

09/02/2021 04h00Atualizada em 09/02/2021 11h00

A estudante paulista Giovanna de Oliveira Araújo, 22, a dona de casa fluminense Andréia Carla do Nascimento, 44, e a assistente social gaúcha Vanessa Saraiva, 38, engravidaram entre os 13 e 14 anos. Por causa disso foram detratadas, expulsas da escola, levaram pelo menos uma década para entender o que é ter prazer. "Ouvi que só quem engravida aos 13 anos é puta", diz Vanessa.

No Brasil, mais de 19 mil meninas de até 14 anos foram mães em 2019, segundo dados do Ministério da Saúde. Para além da discussão sobre os direitos ao aborto a que elas teriam se os casos ocorressem hoje, essas mulheres detalham a Universa as dificuldades da maternidade precoce e de tornar-se mulher ao ver seu corpo amadurecer apressadamente, além de ser alvo de toda sorte de críticas. Elas mostram que a vida delas também importa.

"O negacionismo de que a juventude não tenha vida sexual só leva a essa linha de tragédias, uma atrás da outra, quando a maternidade se torna compulsória e exige que a menina saia da escola porque engravidou", afirma a antropóloga e pesquisadora Débora Diniz.

Aqui, Giovana, Andréia e Vanessa detalham a Universa o porquê de terem levado a gestação adiante e como se sentem como mães, agora que são adultas.

"Amo meus filhos, mas não gosto da maternidade"

Giovanna, que engravidou aos 14 - Wanezza Soares/UOL - Wanezza Soares/UOL
A estudante Giovanna, que deixou um relacionamento abusivo após conhecer o feminismo
Imagem: Wanezza Soares/UOL

"Sofri vários abusos durante a minha infância, por dois padrastos. O primeiro me estuprou quando eu tinha 6 anos. Consigo lembrar até hoje a dor que senti. Aos 9, quando minha mãe se separou, eu contei. Choramos bastante. Fomos à delegacia e fizemos boletim de ocorrência e exame de corpo de delito.

Meu segundo padrasto, que acompanhou toda a história, se sentiu no direito de fazer a mesma coisa. Eu não entendia por que isso acontecia comigo. Contei para a minha mãe, mas ela parou de falar comigo e fui morar com meu pai. Com certeza, todo esse histórico influenciou para que eu tivesse filho cedo. Eu queria fugir daquela realidade.

Aos 13, me apaixonei por um amigo do meu irmão. Três meses depois que começamos a namorar, fiquei grávida. Ele tinha 19 anos. Ficamos muito felizes com a notícia, e fomos morar na casa da avó dele.

Meu pai ameaçou denunciá-lo por estupro e ficou bem bravo. Eu achava que era exagero, e minha mãe me apoiou. Ninguém cogitou aborto. Hoje, entendo que foi estupro. O pai do meu filho começou a me bater quando o bebê tinha 6 meses.

Meses depois, levei a segunda surra porque não quis transar. Neste dia ele me estuprou. E engravidei da minha filha, aos 15. Nos seis anos de relacionamento, sofri muita violência psicológica. Ele me xingava e me proibia de ir para escola. Me separei em 2018, depois que conheci o feminismo. Comecei a entender que aquilo era errado, que não precisava manter o casamento.

No parto, lembro que desmaiei e não vi meu filho nascendo. Também ouvi bastante da família que eu era safada, que sabia fazer filho, mas não sabia me sustentar. Abandonei a 8ª série sem ninguém saber que eu estava grávida. Amo meus filhos mais do que tudo na minha vida, mas não gosto da maternidade." Giovanna, 22, de Suzano (SP)

"Eu e minha filha nos amamos, mas não conseguimos nos entender"

Vanessa Saraiva - UOL - UOL
Vanessa conta que a gravidez foi fruto da falta de perspectiva
Imagem: UOL
Vanessa  2 - UOL - UOL
Imagem: UOL

"Fui abusada dos 5 aos 12 anos por um tio. Contei para minha mãe, e quando falamos para meu pai, o agressor se afastou, mas não houve denúncia. A gente é treinada para abafar, porque a culpada sempre é da gente.

Comecei a namorar aos 13 anos e engravidei na minha primeira vez, perto dos 14. A pessoa tinha 18 anos. Hoje vejo a gravidez como consequência de uma falta de perspectiva. De uma forma inconsciente, queria sair de casa, ter outra vida.

Agora a gente sabe que é crime, mas era como se eu já estivesse vivendo num território sem lei, pelos abusos que sofri. Se fosse hoje, eu denunciaria o pai da criança. Na época, uma tia sugeriu o aborto numa clínica clandestina, mas foi logo descartado. Fui criada na igreja, e tinha aquele fundamentalismo bem presente. Mas defendo que a mulher tem que abortar, sim, porque é um trauma. Sua maternidade vai ser questionada toda hora.

O pai ficou feliz com a gravidez, e a família dele até fez uma casa para gente. Mas nunca ninguém me perguntou se eu queria casar e ser mãe. Meus pais disseram que filha solteira e grávida não ia namorar no portão. Foi como uma sentença.

Após oito meses juntos, ele foi embora para o Chile, eu voltei para a casa da minha mãe. Ela cuidou muito não só da minha filha, mas de mim também. Minimamente, eu tive uma rede de apoio, mas perdi toda a essência da infância. E isso reflete até hoje na minha vida, às vezes tenho imaturidade para lidar com minhas emoções, embora note que muitas coisas tiveram progresso.

Quando engravidei, me trataram como se tivesse uma doença contagiosa. As mães das minhas amigas proibiram as meninas de falarem comigo porque eu era má influência. Ouvi que quem engravida aos 13 anos é puta, e aquilo me fez sofrer bastante.

Eu e minha filha nos amamos, mas não conseguimos nos entender. Parecemos duas adolescentes brigando. Não que a gente tenha uma relação ruim. Ela tem as ausências dela em relação ao que idealizou como mãe, e eu tenho meus sentimentos e frustrações por ter sido mãe.

Foi uma maternidade compulsória. Eu queria ser mãe hoje, planejar como as mães normais fazem, exercer a maternidade, porque eu não era mãe, era uma criança.

Tirei as trompas, não pude mais engravidar. Parei de estudar depois do parto. Com 26 anos entrei para a faculdade e levei 10 anos para me formar. Nunca imaginei que entraria numa faculdade, ainda mais sendo uma mulher negra. Mas consegui e hoje sou assistente social." Vanessa, 38, de São Leopoldo (RS)

"Quando engravidei, fui expulsa da escola"

Andréia Carla - UOL - UOL
A dona de casa Andréia Carla com os filhos: "Minha família é maravilhosa"
Imagem: UOL

"Eu sempre quis ser mãe. Quando pequena, fingia estar grávida ou amamentando. Conheci meu marido aos 12, e um ano depois iniciei a vida sexual com ele. Fui mãe aos 14. Minha família me apoiou em tudo. Morava com ele num cômodo cedido pela minha mãe e contei muito com ela. Ninguém falou de estupro, mesmo porque todo mundo gosta dele, e em nenhum momento cogitamos o aborto. Mas sou a favor do procedimento, dependendo da situação.

Levei para a maternidade minha chupeta. No momento em que a enfermeira trouxe meu filho entendi que ela não era mais minha, que o brinquedo não era mais meu. Tive essa virada de chave muito rápida, e acho que isso me assustou bastante. Entendi que a criança ali não era mais eu

Não conseguia acreditar que aquele bebê tinha saído de dentro de mim. E até hoje eu e meu filho sofremos o efeito disso. A gente tem muita dificuldade de demonstrar sentimento um com o outro. Não soube lidar com ele. Hoje a gente vive muito distante um do outro, e busco recuperar o que não consegui ser. Mas a gente não tem uma conexão boa. Ele foi pai adolescente também: tem quatro filhos com três mulheres diferentes. A gente está topando com isso o tempo todo. Depois de mim, uma prima também foi mãe com 13 anos.

Eu fui expulsa da escola. A diretora chamou minha mãe e disse que era mau exemplo. Voltei a estudar quando já tinha meu terceiro filho, aos 30. Mas não consegui ir adiante. Ele chorava muito, e não tinha com quem deixá-lo.

Temos mais dois filhos, mas o segundo veio dez anos depois, e hoje ele está passando por uma transição de gênero. Sofri muito por medo do que as pessoas iam achar, mas resolvi enfrentar todo mundo. Aos 18, ela espera a cirurgia de adequação sexual. Minha família é maravilhosa. Não tenho do que reclamar. Aqui o amor reina." Andréia Carla, 44, de Arraial do Cabo (RJ)

Andrea Carla - UOL - UOL
A dona de casa Andréia Carla, que não conseguiu voltar a estudar após as gestações
Imagem: UOL

Para estudiosas, gravidez na adolescência é persistir na violência

Só em 2009 a legislação brasileira passou a considerar que crianças e adolescentes até 13 anos não têm poder de consentir sexo, que passou a ser enquadrado como crime de estupro de vulnerável, com pena de 8 a 15 anos de prisão. "O consentimento envolve uma escolha que é livre e informada. E quando falamos de uma adolescente, acho difícil que ela esteja decidindo algo nesses termos", afirma a advogada Maira Pinheiro, especialista nas áreas criminal e de família.

Para a antropóloga Debora Diniz, para que esse cenário possa ser alterado é preciso estimular uma discussão ampla sobre sexualidade, vida reprodutiva e prevenção. "As consequências de deixar uma criança carregar outra é a persistência da violência, que não permite identificar que temos uma criança em sofrimento", afirma Débora Diniz

Ela cita como exemplo o caso da menina de 10 anos que engravidou em consequência de estupros em série, no Espírito Santo, em 2020. Pela lei, ela tinha o direito de abortar, mas enfrentou protestos cruéis.

"Você tem o escândalo da violência, mas o que passa a ser o horror na cena pública é o aborto no segundo trimestre de gravidez. E aí vem aquela comoção política", diz. "Mas hoje não se fala mais nada da menina, como se ela tivesse dado à luz, porque passa a ser um problema familiar. O aborto é colocado como uma questão pública, e a maternidade é relegada a uma questão doméstica."

Contrária ao aborto -salvo se há risco para a mãe-, a presidente da associação de Direito de Família e das Sucessões, Regina Beatriz Tavares da Silva, defende que se fortaleçam políticas públicas para a manutenção da gestação, para que a criança possa ficar na família ou seguir para a adoção. Ela lembra inclusive que há projetos para que uma vítima de estupro receba até um salário mínimo até que a criança fruto da violência complete 18 anos, entre outras medidas."

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