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Papo de vagina

Monólogos da ppk: nova geração feminina do humor rompe com tabus

Ste Marques, Gabriela Abdala e Niny Magalhães são nomes que despontam no stand up comedy - Divulgação
Ste Marques, Gabriela Abdala e Niny Magalhães são nomes que despontam no stand up comedy Imagem: Divulgação

Nathália Geraldo

De Universa

27/01/2021 04h00

"As pessoas olham para mim e às vezes parece que sou um suco. Sempre me perguntam: é natural?" A piada é sobre seios grandes e é contada pela comediante Gabriela Abdala, 22, em vídeo que já foi visto por pelo menos 2,6 milhões de pessoas. Esse é o número de visualizações do vídeo "Não é fácil ter peito grande", no YouTube, em que Gabi elenca as dificuldades que já passou na vida, como encontrar sutiã confortável.

Como Gabi, uma geração de mulheres do stand-up comedy chega aos palcos e telas para falar das questões femininas a partir da sua própria perspectiva.

Se há duas décadas, a peça Monólogos da Vagina, de Eve Ensler, trazia um debate hilário e revolucionário sobre corpo e desejo feminino, comediantes brasileiras agora abrem novas perspectivas. Se é para rir de sexo, menstruação, tesão, relacionamentos amorosos, mudanças no corpo e pressão para se encaixar em padrões estéticos, o palco é delas.

Universa conversou com três delas: Gabi Adbala, Ste Marques e Niny Magalhães. E o primeiro assunto que elas abordam, antes mesmo de serem questionadas, é sobre como a comédia stand up, gênero em que a pessoa fala de situações pessoais com humor, é dominado por homens.

E o reflexo disso são as críticas que recebem: que o stand up não é um espaço para elas e que assuntos íntimos não têm graça. Isso não as intimida. Pelo contrário, vira piada. "Eu brinco que toda vez que se fala que uma mulher não é engraçada, uma xoxota fica triste. Porque parece que a culpa é delas, elas devem até ficar meio preocupadas", comenta a atriz Ste Marques, 30, que faz comédia há três.

"Antes de eu soltar uma piada, acham que vou bancar a gostosa"

gabi abdala - Divulgação - Divulgação
Gabriela Abdala (@agabrielaabdala) conheceu o stand up comedy ao frequentar clube de comédia, em São Paulo
Imagem: Divulgação

Há pelo menos quatro anos Gabriela Abdala é fascinada pelo humor. Nascida em Carajás (PA), ela se mudou para São Paulo aos 18 anos e morava bem perto do bar Comedians, onde muitos artistas de stand up se apresentavam. Começou a assistir aos shows com frequência e achou que ali era seu lugar.

"O texto sobre ter seios grandes foi um dos primeiros, porque o stand up tem disso: qualquer pessoa, de qualquer origem e idade, faz piadas consigo próprio. Então, se é para falar de mim mesma, e eu sou uma mulher, vou falar das questões que são tabu", explica.

Ter os seios grandes é uma característica do corpo de Gabi, assim como os cabelos vermelhos. Acontece que, dependendo da plateia, a parte do seu corpo é sexualizada antes mesmo de ela desenrolar o texto.

"Às vezes, antes de chegar nas piadas, a expressão de muitas pessoas é de como se eu fosse querer bancar a gostosa no palco. E eu nem culpo, é estrutural. Só que eu falo é dos problemas, de eu sentir os seios pesarem, de não conseguir encontrar sutiã", conta. "Não tem uma piada sexual no texto, tudo bem se tivesse. Mas um cara escreveu no YouTube: 'Nossa, não sabia que dava para falar de peito grande sem falar de putaria'. Isso também é uma visão machista."

Por outro lado, a humorista comemora o fato de outras mulheres passarem a ver seus próprios corpos com naturalidade depois de ouvir suas piadas. "No TikTok, viralizaram dublagens de mulher, só com peito gigante, falando meu texto. Elas não tinham uma piada antes para fazer isso, sabe?"

"Estamos há décadas ouvindo eles falarem (e ainda rimos)"

ste marques - Divulgação - Divulgação
Ste Marques (@astemarques) é comediante e fala de questões femininas em seus shows
Imagem: Divulgação

Para Ste Marques, que também tem canal no YouTube, é acolhedor trabalhar com temas que são abraçados pelo público feminino de cara, seja em clubes de comédia ou nas redes sociais.

"Acho bacana fazer com que as mulheres se sintam representadas. A minha geração foi criada com tabus, sobre menstruação, sobre engravidar 'de formas misteriosas'. Eu digo que fui criada com lendas urbanas, de que se sentar no mesmo banco que o menino sentou engravida", explica. "Aí levo a piada para o palco: quer dizer que se eu der para um desconhecido no banco de trás do carro, sem camisinha vou ficar grávida também?"

Se a identificação entre as mulheres é o bônus, as críticas machistas surgem com força, e são o ônus, diz a atriz. "No início da minha carreira, já ouvi de homem comediante que as mulheres adoram meu texto, mas que seria bom se eu falasse também para os homens, para se sentirem mais incluídos. Eu respondi que já estamos há mais de uma década os ouvindo falar. E ainda rimos."

Homens dizem que é um saco mulher só falar de menstruação. Eu respondo que enquanto a gente não tratar essas questões pelo viés feminino e de forma natural, vamos falar muito ainda, sim.

A comediante explica que fazer humor sobre sexo, sendo mulher, também é tabu. "Se uma mulher tem um texto de 20 minutos e em cinco fala sobre sexo, o comentário é: 'Lá vem ela falar de putaria'. Só que os caras também estão falando sobre isso", defende.

Mesmo com as dificuldades, para Ste, o humor pode ser um caminho de liberdade feminina. "Muitas mulheres abriram as portas para nós. Eu via a Fernanda Torres, que sempre falou de sexo nas séries abertamente, e eu achava incrível. Via a Dercy Gonçalves quando era criança e sequer entendia, mas achava engraçada. E acho que é porque ela era livre."

"Falo sobre meu corpo e mostro que mãe também transa"

Niny Magalhaes - Divulgação - Divulgação
Niny Magalhães (@ninymagalhaes) faz piada sobre questões que a incomodam; até caso de app de relacionamento vira assunto para show
Imagem: Divulgação

Há dois anos e meio nos palcos de stand up, em Brasília, Niny Magalhães, 36, acredita que a ocupação feminina no humor é uma retomada "do lugar que é nosso de direito". "Não é certo eles falarem de menstruação, eles podem falar da convivência com uma mulher menstruada. Mas, os homens não têm conhecimento do que é a TPM, por exemplo."

Nos shows, Niny ri e faz rir de suas próprias experiências, atravessadas pelo fato de ser uma mulher, negra e ter três filhos, de 12, 14 e 17 anos. "Faço humor falando que eu engordei, que o corpo mudou depois das gravidezes. Meu filho mais velho tem dois metros de altura, pesa 100 kg, qual é a probabilidade de meu peito estar inteiro depois de ter o amamentado?", brinca.

O sexo após ser mãe também entra no seu rol de questões femininas. "Parece que você não é mais vista como mulher", conta. Ao mesmo tempo, Niny diz que é alvo do racismo, que atribui estereótipos sexuais à mulher negra. Tudo vira texto, para refletir e para rir.

"Eu fiz um sobre o dia em que conheci um cara em aplicativo de relacionamento, e o primeiro elogio que ele me fez foi que 'tinha fetiche em mulher negra'. Eu perguntei por quê, e ele disse que é porque a gente tem a b* quente. Eu não respondi nada para ele, mas no palco, eu digo: 'É verdade, o último cara com quem transei, tinha 20 cm e saiu com 10 e dois ovos fritos'."

Na sua descrição do Instagram (@ninymagalhaes), uma brincadeira que aproxima as mulheres. Niny escreveu: "Precisamos falar sobre a solidão da mulher xerecuda". "Sempre fui magra, mas quando engordei, a primeira coisa que aumentou foi minha xereca. Os homens sexualizam isso, mas é só a questão de que ela é mais gordinha, e eu falo isso de forma literal para naturalizar."

O que leva para a comédia, diz Niny, é o que a incomoda. Transformar experiências duras em algo que faz as pessoas gargalharem também é a chave do sucesso. "E sempre que faço piada que é voltada para o homem, é como se fosse para virar o jogo."

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