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Humorista evangélica coleciona seguidores com conteúdo sobre autoestima

A humorista Patrícia Ramos  - Henrik Barros/Divulgação
A humorista Patrícia Ramos Imagem: Henrik Barros/Divulgação

Marcela de Genaro

Colaboração para Universa

10/11/2020 04h00

Patrícia Ramos, P de perfeitinha e R de radiante, um neném de 20 aninhos. É com esse tipo de brincadeira que a carioca do bairro de Ramos explodiu nas redes com vídeos bem-humorados e cheios de autoestima: "Deve ser muito ruim não gostar de mim e não poder me chamar de feia! Nenhum defeito, bebê".

A fala acima é de um vídeo gravado pela criadora de conteúdo, em dezembro de 2018, que foi resgatada por uma blogueira no início deste ano e colocada num desafio no TikTok, sem créditos. Quem já seguia Patrícia Ramos identificou a fala e sua influência se multiplicou. Muitos aderiram ao desafio, descobriram a humorista e passaram a segui-la.

"Então abri uma conta no TikTok e postei um vídeo que dizia. 'Esses dias eu tava reparando que a minha beleza é igual à vontade de Deus: boa, perfeita e agradável. Para com isso, pregadora!' Coloquei e esqueci, não tinha ativado as notificações. No outro dia, quando abri, tinha meio milhão de visualizações", conta Patrícia.

Há pouco tempo, ela era feliz com 20 mil seguidores e nem imaginava transformar suas redes sociais em trabalho. Patrícia foi vendedora da loja de roupas da mãe, para onde ia toda linda e arrumada. Formada técnica em odontologia, seu último salário como estagiária era de R$ 200 por mês. Mas, em três meses ela arrebanhou seguidores e hoje espalha alegria para 1 milhão e meio de pessoas em cada rede, fazendo disso uma das suas ocupações.

"Eu não acho graça nenhuma das coisas que eu falo. Mas, desde criança, minha mãe diz que sou a palhaça da turma. Na época dos retiros de Carnaval da igreja, quando eu tinha uns dez anos, o grupo de crianças e adolescentes pedia para a minha mãe pagar o carnê para eu ir: 'Se a Patricia não for, não tem graça'. E até hoje, eu só sei se os vídeos deram certo quando as pessoas comentam."

Para com isso, Patrícia

O "para com isso", com bastante ênfase na sílaba "pa", é o bordão da influenciadora. E a mistura de humor, autoestima e Deus os pilares que fazem de seus conteúdos um sucesso.

Quem vê hoje Patrícia feliz com seus cabelos afro —trançado, de dread ou num volumoso black— e linda também sem make não imagina que, apesar de toda a autoestima, ela teve dificuldades na adolescência.

Na época, decidiu parar de usar tranças e, com o cabelo muito curto, ficou três dias sem ir à escola para evitar os comentários. Até que a melhor amiga bateu na porta de sua casa e a encontrou de casaco e capuz no calor do Rio de Janeiro. Patrícia disse que havia faltado à aula porque acordou tarde, mas a amiga reparou nos cabelos curtos: "Que lindo! Todo cacheadinho".

"Voltei a ir para a escola, teve toda aquela coisa de zoação, não liguei e segui", diz. Depois disso, Patrícia colocou na cabeça que, com maquiagem, tudo seria mais fácil. Começou a passar make todos os dias antes de ir para o colégio.

"Quando chegava em casa, no calor do meio-dia, tomava banho do pescoço para baixo e ficava com a maquiagem o dia inteiro. Isso porque eu não conseguia passar na frente do espelho e gostar do que eu via. Então usava até para ficar em casa."

Até que, no início de 2018, ela percebeu o quanto se desesperava quando a maquiagem estava acabando.

"Pensei que isso não podia acontecer, que Deus que não criou nada feio, nada imperfeito e que eu não podia me martirizar, envenenar o meu psicológico dessa maneira. Então, parei na frente do espelho e falei: 'Patrícia, hoje é o último dia que você está passando maquiagem para ficar em casa. A partir de amanhã você não vai fazer mais isso'."

Foi quando ela passou a se aceitar de verdade. "Entendi que a minha beleza não vinha só de base, pó, rímel e blush. Que, independentemente disso, eu era linda e maravilhosa do jeito que eu sou e que a maquiagem não podia alterar esse fato. Isso com certeza influenciou muito no entretenimento que eu faço hoje."

Humor, religião e racismo

A criadora de conteúdo não acredita que o recente sucesso nas redes seja pelo fato de ser uma mulher negra falando de autoestima.

"Não é questão de raça ou de cor, é do ser humano ter autoestima baixa. Com o tempo, fui me aprofundando mais e entendi que a autoestima não estava só relacionada à beleza, à aparência, mas a você se comparar com os outros e não ter noção da sua capacidade, não saber aonde você pode chegar."

Se passa por alguma situação de preconceito, a humorista aprendeu a entender que o problema está em quem critica, e nunca na vítima.

"A gente só dá aquilo que a gente tem. Se uma pessoa perde tempo destilando ódio a respeito da sua cor ou do que você é na internet, é porque ela tem mágoas, porque é uma pessoa amargurada por dentro."

Além do preconceito, Patrícia diz que também enfrenta resistência de gente que não aceita que uma pessoa animada, engraçada e vaidosa, como ela, seja evangélica. Ela conta que, desde a infância, era hiperativa e ouvia comentários de que crente não podia ser daquele jeito, rir, fazer brincadeiras.

E diz também ter recebido comentários que duvidavam de sua fé e que invalidavam sua crença por ela ser tatuada e por ter piercing. Patrícia conta que nunca entendeu o porquê de as pessoas quererem colocar quem segue uma religião dentro em uma caixinha.

"Eu posso rir, eu posso brincar, eu posso zoar. Enfim, eu posso ser feliz e posso desfrutar do amor de Deus. O evangelho não é uma prisão."

E é também a partir da fé que ela quer propagar a autoestima de seus seguidores.

"Gosto de falar sobre autoestima para as pessoas porque Deus nos dá a capacidade de fazer várias coisas, mas nós não nos sentimos capazes, justamente por termos uma autoestima baixa, termos esse complexo de inferioridade. Por isso eu sempre motivo as pessoas a fazerem coisas, a almejarem lugares altos, porque tudo isso é possível."

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