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"Efeito Bolsonaro" amplia nº de candidatos LGBTQ+ na briga por prefeituras

Os candidatos Lívia Miranda (PCdoB-RJ), Guilherme Nascimento (PSOL-ES), Pablo Henrique (PSOL-RS), Camila Lanes (PCdoB-PR), Letícia Lanz (PSOL-PR) e Cléber Rodrigues (PSOL-MG) - UOL
Os candidatos Lívia Miranda (PCdoB-RJ), Guilherme Nascimento (PSOL-ES), Pablo Henrique (PSOL-RS), Camila Lanes (PCdoB-PR), Letícia Lanz (PSOL-PR) e Cléber Rodrigues (PSOL-MG)
Imagem: UOL

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

30/10/2020 04h00

Lívia é professora da rede pública, tem 36 anos e, desde adolescente, milita por movimentos sindicalistas, LGBTs e de direitos da mulher. Apesar de ter passado boa parte da vida se dedicando à política, neste ano ela disputa uma eleição pela primeira vez: quer ser prefeita de Petrópolis, cidade com 185.876 habitantes no norte do estado do Rio de Janeiro. Ela é uma das 15 pessoas LGBTQ+ candidatas a prefeituras em todo o Brasil no pleito deste ano, previsto para o próximo dia 15.

Universa conversou com seis desses candidatos, usando como critério de escolha o tamanho das cidades em que estão registrados: Camila Lanes (PCdoB) e Letícia Lanz (PSOL), de Curitiba; Lívia Miranda (PCdoB), de Petrópolis (RJ); Pablo Henrique (PSOL), de Canoas (RS), Cleber Rodrigues (PSOL), de Santa Luzia (MG) e Guilherme Nascimento (PSOL), de Cachoeiro do Itapemerim (ES).

Os seis têm mais em comum do que ser parte da comunidade LGBTQ+ e aspirar ao mais alto cargo no Executivo de suas cidades: são jovens (têm entre 24 e 36 anos), filiados a partidos de esquerda, com longa trajetória em movimentos sociais e, com exceção de Camila, concorrem a um cargo político pela primeira vez.

Eles fazem sua estreia como candidatos em um ano de recorde de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis na disputa: são 263 nomes concorrendo a prefeituras e casas legislativas, contra 215 no pleito de 2016, segundo levantamento do Programa Voto Com Orgulho, da Aliança Nacional LGBTI+.

O caminho entre o convite do partido até a vitória nas eleições não é simples: candidatos relatam o preconceito dos eleitores, ameaças de morte na internet e outros obstáculos que perpassam a campanha eleitoral de um candidato abertamente LGBTQ+.

Gustavo Gomes da Costa, que é doutor em Ciência Política pela Unicamp e autor de "Movimento LGBT e partidos políticos no Brasil", usa uma passagem bíblica para dar dimensão do tamanho da dificuldade: "É uma luta entre Davi e Golias, sendo Davi os candidatos LGBTQ+ e Golias representado pelo sistema político, pela bancada evangélica e pelo conservadorismo da sociedade".

23.jun.2019 - Mulher carrega bandeira de arco-íris durante a Parada LGBT em São Paulo - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

"Efeito Bolsonaro" explica mais candidatos

Apesar deste pleito ter mais candidatos declaradamente LGBTQ+ concorrendo, eles representam menos de 0,1% dos candidatos às prefeituras dos 5.570 municípios brasileiros: o TSE (Superior Tribunal Eleitoral) recebeu mais de 18 mil candidaturas para o cargo de prefeito —destas, apenas 15 se identificam como gays, lésbicas, bissexuais, travestis ou transexuais, segundo levantamento do projeto da Aliança Nacional LGBQIA+.

Gustavo Gomes da Costa afirma que mesmo ínfimo, o número representa um "avanço significativo". "Se olharmos as eleições anteriores, essas candidaturas se concentram em cargos legislativos, para vereador, e não Executivo, para prefeito."

Isso porque, ainda segundo Gomes da Costa, grupos privilegiados tendem a estar sobrerrepresentados na política, o que torna mais fácil o ingresso de grupos minorizados (LGBTQ+, mulheres, negros, indígenas) em cargos mais baixos.

Ele acredita, no entanto, que a maior presença de candidatos homossexuais e transexuais no disputa pelas prefeituras pode ser explicada pelo que chamou de "efeito Bolsonaro": "Até muito recentemente, no final de século 20, a temática LGBTQ+ nem era reconhecida como legítima na esfera política. Houve uma politização crescente da homossexualidade não por parte dos ativistas, mas dos opositores, especialmente dos religiosos".

Por exemplo: em 2010, muitos candidatos religiosos diziam que eram contra o casamento homoafetivo, e acabaram trazendo a temática para dentro da política institucional.

"Com a eleição do Bolsonaro em 2018, isso explode. Ele foi o primeiro candidato à Presidência com uma retórica claramente homofóbica e transfóbica. Isso chama atenção de muitos LGBTQ+, que perceberam a necessidade de disputar espaços políticos e se candidataram neste ano."

Jair Bolsonaro, com a bandeira dos Estados Unidos ao fundo, durante evento no Itamaraty para assinatura de memorando de entendimento com EximBank - Adriano Machado/Reuters - Adriano Machado/Reuters
Imagem: Adriano Machado/Reuters

É o caso de Pablo Henrique (PSOL), que disputa a Prefeitura de Canoas. A Universa, ele conta que não planejava se candidatar, mas aceitou o convite do partido:

Eu não gostaria de estar disputando um cargo político nesse momento da minha vida, mas o debate político exigia um contraponto, uma candidatura que pautasse os direitos humanos e a diversidade como premissas para qualquer discussão

Lívia Miranda, que concorre à Prefeitura de Petrópolis, se registrou no TSE como candidata por motivos muito semelhantes: "Não existe na cidade uma única política pública ou conselho de direitos humanos que debata os direitos LGBTQ+, que assegure o atendimento respeitoso a essa população. Eu sou uma mulher lésbica, casada há dois anos, militante de movimentos LGBTQ+. Claro que [disputar a prefeitura] é um desafio pessoal, mas dar visibilidade à população LGBTQ+ é uma questão política necessária e urgente".

O que propõem os candidatos?

Todos os candidatos ouvidos por Universa criticaram a falta de políticas públicas pensadas para a população LGBTQ+ e têm, como propostas, a criação de conselhos de direitos humanos com recorte de diversidade sexual e de gênero. Além disso, prometem melhorar o atendimento em saúde especializado para atender demandas deste grupo e combate à violência especialmente contra transexuais.

Mas todos fazem questão de salientar que têm uma série de propostas destinadas a toda a população e não tratam exclusivamente dos problemas ligados à população LGBTQ+. Cléber, por exemplo, propõe reforma agrária, enquanto Guilherme promete criar cursos profissionalizantes para pais de alunos nas escolas públicas.

"Candidatos que articulam questões LGBTQ+ com outras pautas tendem a ter resultados melhores, seja em educação, meio ambiente, saúde. Essa população tem milhares de questões que vão além da sexualidade, eles vão para a escola, precisam de hospital, e essa articulação é um desafio para essas candidaturas", afirma o cientista político.

"Uma candidatura majoritária tem que pensar a cidade como um todo, ter propostas para toda a população, embora a gente saiba que alguns grupos sofrem mais do que outros", diz Cléber Rodrigues, que concorre à prefeitura de Santa Luzia. "Uma coisa que a gente ouve muito é 'não vou votar em você porque você só vai falar de LGBTQ+', quando na verdade a gente mal fala disso [na campanha eleitoral]."

Parece que todas as outras coisas que você faz não importam. O que fica evidente é sua orientação sexual. Essa é mais uma forma de silenciar, minimizar nossa causa

Camila Lanes, que quer comandar Curitiba, completa: "Ser LGBTQ+ não nos faz menores ou menos preparados para ocupar esses espaços".

Orgulho e preconceito

Nenhum dos candidatos relatam ter sofrido homofobia explícita de outros candidatos ou de ter ouvido de eleitores que não votariam neles porque são LBGTQ+, mas contam que o preconceito se impõe de forma sutil.

Bandeira lgbt ceu - iStock - iStock
Imagem: iStock

"Até agora, ninguém disse que não votaria em mim porque sou lésbica, mas eu tenho consciência que isso pode acontecer, é uma realidade. A gente sabe que há um grande preconceito na sociedade, e isso perpassa a vida política na forma como as pessoas me tratam. A violência nem sempre é verbalizada.

Quando é uma sapatão, o olhar é diferente, as pessoas evitam certas palavras. Para um homem, por exemplo, perguntam da esposa; para mim, perguntam da companheira

Na internet, todos concordam que o preconceito é recorrente: robôs publicam ofensas, eleitores de partidos opostos fazem ameaças e o trabalho de denunciar as ofensas aos órgãos competentes é desgastante.

"Essa é a maior dificuldade: lidar com as palavras de baixo calão, os xingamentos, as agressões de todos os tipos. Eu ouvi que, para ser eleito, só faltava alegar que fui abusado sexualmente na infância", conta Guilherme Nascimento, candidato em Cachoeiro do Itapemerim.

Pablo Henrique, de Canoas, conta que por enquanto os ataques à sua candidatura ficaram apenas na internet, o que "dá para contornar". Mas, pai de dois filhos pequenos, ele teme pela segurança das crianças e evita ficar com elas em casa, já que o endereço residencial dos candidatos, por determinação da Justiça Eleitoral, é público.

Candidaturas dependem de dinheiro próprio

Fora o sistema político que "expulsa" LGBTQ+ e outros grupos minorizados das eleições e o preconceito a que os candidatos são expostos, há pelo menos um terceiro fator que dificulta a jornada desses candidatos: dinheiro.

"Lançar uma candidatura no Brasil custa dinheiro, e esses grupos minorizados têm maior dificuldade de angariar recursos do partido e, consequentemente, articular a candidatura", explica Guilherme Gomes da Costa.

E por isso, ele explica, é recorrente que LGBTQ+ façam as chamadas candidaturas solo, ou seja, usem recursos próprios ou de financiamento coletivo na internet, e imprimam eles mesmos seus santinhos, cartazes e outros materiais de campanha, contando com a ajuda da base da militância que o apoia para fazer o boca a boca e reunir votos.

A internet "barateou" os custos de campanha, acredita o pesquisador, mas ele reforça que o dinheiro, ou a falta dele, ainda é um fator bastante relevante que pode ajudar ou atrapalhar a trajetória até as eleições.

A disputa não é justa, não é re iguais. Ganha o melhor argumento? Não. As candidaturas LGBTQ+ partem de uma desvantagem estrutural muito grande

Visibilidade importa

Nenhum dos candidatos abertamente LGBTQ+ ouvidos pela reportagem têm resultados expressivos nas pesquisas de intenção de voto. Mesmo com poucas chances de ocupar o principal gabinete das prefeituras de suas cidades, eles acreditam que essa é uma eleição importante para dar visibilidade à população LGBTQ+.

Curitiba, por exemplo, tem duas representantes do grupo no pleito: Camila Lanes, bissexual de 24 anos, tem 1% das intenções de voto; e Letícia Lanz, transexual de 69 anos, não chega a um ponto percentual nas pesquisas.

"Essa disputa com duas candidatas LGBTQ+ é uma representação do que naturalmente existe na nossa cidade, e mostra à população que podemos ocupar estes espaços", comemora Camila.

"Por reconhecer essa dificuldade e não ter muitas expectativas de vitória, muitos partidos lançam a candidatura por visibilidade, para ter espaço de debater a causa", explica Gustavo Gomes da Costa.

"Isso já aconteceu no poder Legislativo, quando, depois de alguns pleitos, começamos a ver LGBTQ+ eleitos. Mas o Executivo ainda está nesse lugar de visibilidade. É preciso dar esse passo posterior e garantir a eleição de prefeitos LGBTQ+ também", diz o pesquisador.

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