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Empresárias com mais de 60 anos fundam startup de moradia compartilhada

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Renata Turbiani

Colaboração para Universa

26/10/2020 04h00

Não existe idade certa para empreender, e as empresárias Veronique Forat, 63, e Marta Monteiro, 66, são a prova disso. Em 2016, após se conhecerem no workshop "Reinvenção do Trabalho 60+", promovido pelo movimento Lab60+, elas, então com 59 e 62 anos, respectivamente, fundaram a startup morar.com.vc - rebatizada de Coliiv este ano -, cujo propósito é conectar pessoas com base nas suas características, demandas e afinidades, para morarem juntas.

A ideia nasceu do interesse de ambas por novos modelos de moradia, e também porque elas queriam continuar trabalhando, mas em algo diferente do que faziam. "Eu atuava na área de marketing de relacionamento e a Marta no mercado imobiliário, só que aquilo já não fazia mais sentido para nós. Além disso, percebemos que havia uma lacuna no mercado para atender adultos que buscavam dividir um apartamento ou casa", diz Veronique.

Segundo ela, sites, anúncios e grupos tradicionais de moradia compartilhada trazem pouquíssimas informações sobre os indivíduos, focando mais nas características do imóvel, o que dificulta encontrar o "par perfeito" e, consequentemente, diminui as chances desse tipo de relação dar certo.

"Decidimos ir por um caminho diferente, olhar mais para as pessoas, para ajudá-las a resolver a maior dor da moradia compartilhada, que é justamente encontrar alguém compatível, e não só em relação a espaço, preço e localização, mas também do ponto de vista de afinidade e objetivos em comum", complementa Marta.

Em um primeiro momento, as empreendedoras pensaram no negócio voltado para o público 60+, levando em conta seus próprios perfis, mas se surpreenderam com o interesse de pessoas de diversas faixas etárias. Outro movimento interessante que constaram durante o processo foi o de que muitos dos usuários que se cadastraram na plataforma, sobretudo os mais velhos, não tinham interesse em morar com gente da mesma idade.

"A partir disso, decidimos criar algo que garantisse a liberdade de escolha. Não queremos empurrar ninguém para guetos de semelhantes, mas sim ajudar a encontrar a melhor opção", diz Veronique.

Pesquisa de público antes de fundar empresa

Antes de fazer qualquer investimento na empresa, a dupla realizou uma pesquisa informal para verificar se havia mesmo mercado para isso. Em 10 dias, recebeu cerca de 1.200 respostas, das quais 85% eram positivas. O passo seguinte foi a criação de um site e a elaboração de um questionário para conhecer melhor os interessados.

No início, conforme recebiam os cadastros, faziam manualmente o cruzamento dos dados para determinar as combinações (ou matches, como denominam). Depois, marcavam um encontro para que as partes envolvidas pudessem conversar e confirmar se tinham mesmo afinidade. No primeiro ano, conseguiram 1.500 usuários e, segundo elas, mais de 90% confirmaram que realmente combinavam com seus selecionados.

"Começamos com um sistema muito artesanal e pouco escalável, mas precisávamos de escalabilidade para crescer", apontam Marta e Veronique, acrescentando que esse processo teve um lado bom, o aprendizado. "Foi o que nos proporcionou chegar a um questionário bastante abrangente, capaz de avaliar não somente as características e as preferências tangíveis dos usuários, mas também traços de personalidade e padrões de comportamento, aumentando a probabilidade de convivência harmoniosa no longo prazo."

Plataforma inicial teve investimento de R$ 5.100

Para lançar a plataforma de match-making - agora de forma automatizada e com o uso de inteligência artificial, para combinar quem procura pessoas e moradia certas para compartilhar, quem oferece a sua própria moradia para compartilhamento com as pessoas certas e quem oferece um imóvel para outras pessoas compartilharem, as empreendedoras investiram R$ 5.100. Em alguns meses elas recuperaram o capital, mas admitem que ainda não tiveram lucro, pois optaram por primeiro validar o modelo de negócio e fazer todos os testes necessários.

Até o segundo semestre deste ano, a forma como monetizavam era com a venda de pacotes com seis matches; o valor cobrado era de R$ 30. Mas a estratégia mudou depois que assinaram contrato com a Potato Valley Ventures, fundo de investimentos especializado em construtechs e proptechs. Com o aporte financeiro de R$ 155 mil que receberam, e auxílio nas contratações, formatação do modelo comercial e desenvolvimento de tecnologia, reviram a estratégia.

Em agosto, mesmo com a pandemia, relançaram a plataforma com novo o nome, Coliiv, novas features e parcerias estratégicas com as startups Yuca e Gênio, que agora permitem ao usuário não apenas achar o match ideal, mas também o imóvel certo para morarem juntos, e contratar diversos serviços como carreto, reparos residenciais e concierge em geral.

"Embora o nosso propósito seja conectar as pessoas para o compartilhamento de moradia, encontrar o roomate certo é só uma parte da jornada. A partir do momento em que decidem dividir a casa, outras necessidades surgem e, diante disso, nossa meta é solucionar todas elas", diz Marta.

Hoje, com uma base de mais de 10 mil usuários, com idade entre 18 e 90 anos, e mais de mil matches entregues nos últimos três anos, a empresa oferece dois pacotes, o Básico e o Premium.

O primeiro é gratuito e permite a criação do perfil, com a inclusão das características pessoais e, se for o caso, as do imóvel que está oferecendo; possibilidade de ser encontrado por um match; recebimento de mensagens dos matchs e conversas pelo chat exclusivo; buscas pelo match perfeito, quantas vezes quiser e usando os critérios que desejar, e visualização dos detalhes de todos os matches que correspondem às buscas realizadas.

Ao Premium, que por enquanto não está sendo cobrado, mas a partir de novembro custará R$ 19,90 por mês, soma-se a opção de conversar à vontade com quantos matches quiser, pelo chat exclusivo - os serviços oferecidos pelas startups parcerias são pagos à parte.

A pandemia do coronavírus, revelam as empresárias, não atrapalhou os planos. Pelo contrário, já que no período, elas ganharam 1.317 novos usuários, número que comemoram. "Um dos principais motivos para a busca por moradia compartilhada é a solidão, e ela foi acentuada nos últimos meses. Muita gente também sofreu um forte impacto financeiro. De certa forma, isso fez com que quem nunca tinha cogitado dividir a residência passasse a pensar no assunto", pontua Marta.

Empreender aos 60 anos

Na visão de Marta e Veronique, iniciar um novo negócio por volta dos 60 anos tem suas vantagens. "Temos bagagem, experiência e muito a agregar. Fora isso, é uma maneira de acabar com estereótipos sobre o envelhecer. O conceito de velhice mudou, estamos, agora chegamos em idades mais avançadas com saúde e disposição", diz Veronique.

Segundo elas, seu perfil inusitado em um ecossistema dominado por jovens do sexo masculino, em partes, também foi benéfico: fez com que se destacassem rapidamente, o que facilitou a busca por investimento. "Éramos tão exóticas nesse meio que por onde passávamos causávamos frisson, éramos notadas. Isso foi bom e ruim ao mesmo tempo", conta.

O lado positivo, indicam, foi terem despertado a simpatia de outros startpeiros, que lhes ajudaram e apoiaram em praticamente todas as etapas, e o interesse da mídia, mesmo sem dinheiro para investir em marketing. A parte ruim, apontam, é que nem todo mundo as levava a sério.

"Sempre tem quem pense que estamos só passando tempo, e não é isso, queremos construir algo relevante. E, apesar de não termos sentido tão diretamente, sabemos que os investidores relutam em apostar em empresas com fundadores mais velhos. Eles acham que logo teremos um piripaque, por causa da idade, mas isso não corresponde mais a realidade", diz Veronique. E Marta completa: "No nosso caso, acreditamos que temos uns bons 20 anos de trabalho pela frente. Há muitas coisas que queremos fazer, em especial internacionalizar a Coliiv. É um sonho, mas certamente iremos realizá-lo. Ainda temos tempo para isso".