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Na pandemia, delivery de "bolo de vó" sobe faturamento de cafeteria em 75%

Renata Pereira Santos, do Café Quintal de Casa - Divulgação
Renata Pereira Santos, do Café Quintal de Casa Imagem: Divulgação

Marcelle Souza

Colaboração para Universa

07/09/2020 04h00

No Café Quintal de Casa, não tem pedaço de bolo. A receita é caseira, feita sob medida e exige companhia para dividir o quitute inteiro. Tem enfeite de crochê, e as xícaras e pratos são cada um de uma cor diferente. Se quiser pão quentinho, tem que avisar antes, dizer o número de pessoas e o que tem vontade de comer. Quase como na casa de avó mesmo.

Bem, na verdade, esse era o funcionamento do negócio de Renata Pereira Santos, 47, até o início da pandemia, em março deste ano. "Quando tivemos que fechar o café, passamos uma semana no sofá, pensando no que fazer", conta Renata. O espaço fica nos fundos da sua casa, em Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo, e é a fonte de renda dela, do marido e do filho de 18 anos. "Sempre foi o meu sonho ter um café", diz.

Ele começou a ser realizado em 2016, quando Renata passou a vender bolos para amigos mais próximos. "Eu participava de um grupo de leitura da Bíblia e sempre tinha um lanche depois. Eu fazia questão de levar o bolo e assar na hora, na casa da minha amiga, porque eu acho que o cheiro é aconchego e eu queria que os meus amigos se sentissem abraçados."

Analista de sistemas, Renata tinha acabado de ser demitida de uma empresa de TI e pensou que seria um bom momento para arriscar algo novo. As primeiras encomendas vieram pelo Whatsapp, e cada cliente retirava o pedido na casa de Renata.

"Eu só aprendi a cozinhar depois de casada. Minha mãe dizia que eu tinha que trabalhar fora", conta. Mas a memória da avó, essa sim quituteira de mão cheia, fez com que ela começasse a fazer cursos e a testar algumas receitas.

café quintal de casa - Divulgação - Divulgação
Mesa do Café Quintal de Casa
Imagem: Divulgação

O negócio cresceu e um dia a família decidiu limpar o quintal, colocar umas mesas e cadeiras, pegar bules, pratos e talheres da cozinha, e os platôs de crochê, feitos pela própria Renata. Em novembro de 2017, inauguraram o Café Quintal de Casa. "Meu marido fez umas mesas, um sofá no fundo e a gente recebeu doação de amigos", lembra. Na pequena reforma, a própria Renata resolveu colocar a mão na massa (de cimento, no caso).

A inspiração para o negócio veio da casa da avó e do quintal com fogueira, que ela acendia nas noites de inverno. "Eu digo que a minha avó paterna está muito presente no meu café. Perdi minha mãe com 21 anos, que não era muito da cozinha", conta. "Eu morava no quintal da minha avó e me lembro da rosquinha que ela fazia. Então acho que herdei dela essa vontade de cozinhar."

No primeiro ano do negócio, eles investiram cerca de R$ 15 mil na estrutura e na instalação de uma cobertura para proteger os clientes em dia de chuva, além da compra de novos pratos, já que os da casa não eram mais suficientes.

Mudança de planos

Com capacidade para até 25 pessoas, até março deste ano o café funcionava no período da tarde e era preciso marcar horário. "Os clientes me enviavam uma mensagem com o número de pessoas, data e hora e o que queriam comer. Então, quando chegavam, já tinha tudo pronto."

Quando os comércios do bairro fecharam as portas por conta da pandemia, a família teve que mudar de estratégia, e investiu no delivery. "As primeiras entregas foram feitas pelo meu marido, depois entramos em um aplicativo", conta.

A ideia surgiu durante um processo de mentoria do programa Mulheres com Propósito, da PepsiCo em parceria com a Fundes América Latina, e fez aumentar os pedidos de pães e bolos. "A gente se surpreendeu, porque sempre fomos muito resistentes a fazer entregas. Mas desde que entramos no aplicativo, o faturamento subiu 75%", diz. Agora, o negócio gera uma renda média de R$ 6 mil por mês à família.

Sem o clima familiar do café, Renata garante que a saída tem sido manter o sabor das comidas preparadas na cozinha da sua casa. "São as melhores receitas de amigas minhas, da família e coisas que aprendi em cursos ou que encontrei na internet", conta.

O aumento das vendas e o fechamento do comércio tornaram possíveis novas reformas no espaço. Saiu o sofá e entraram mais mesas. Eles também decidiram construir um lavado, para que os clientes já não precisem usar o banheiro da família. E a reabertura está programada para acontecer neste mês.

"Se eu pudesse dar um conselho para uma empreendedora da periferia, como eu, diria: olhe para o que você já tem ao seu redor e para o que você gosta de fazer, qual é a sua essência. Eu comecei como uma brincadeira, porque gosto de cozinhar e de receber as pessoas em casa. E decidi fazer com o que tinha, sem me preocupar se era perfeito, se as xícaras combinavam", indica.

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