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Peeling químico que promete pele de blogueira entrega vermelhidão e coceira

Solução de ácidos promete pele viçosa; funcionou na minha, até o dia que quase me queimou - Camila Brandalise/UOL
Solução de ácidos promete pele viçosa; funcionou na minha, até o dia que quase me queimou Imagem: Camila Brandalise/UOL

Camila Brandalise

De Universa

07/10/2020 04h00

Adoro cuidar da pele, mas não gosto de ter vários produtos nem de gastar muito dinheiro com eles. É sabonete, hidratante, protetor e deu. Mas o cascão que vinha se acumulando no meu rosto, os pontos pretos e os poros cada vez mais abertos me convenciam, toda vez que eu olhava no espelho, que seria bom experimentar um esfoliante.

Depois que juntei todos os prós vendidos pela internet do "peeling solution", um combinado de ácidos que promete fazer um peeling químico da marca canadense The Ordinary —cuja existência descobri ao ver três blogueiras de "skincare" falando sobre o produto nas redes sociais no mesmo dia—, pensei: é esse mesmo.

Peeling é o nome dado a um tipo de procedimento que esfolia e acelera a renovação da pele, segundo a SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia). Pode ser físico, com aparelhos específicos, como os que tem a ponta de diamante, ou químico, em que são usados ácidos para promover a descamação.

O produto da The Ordinary gera todo o encanto, principalmente, pela propaganda que se criou em cima. Há alguns similares no mercado brasileiro, até mais baratos, mas sem toda a comoção que esse cosmético gerou.

A promessa do peeling químico é tentadora: alisar e uniformizar o tom da pele, atenuar manchas, dar brilho e viço. Fora o preço. No site da marca, saía por US$ 9, ou R$ 50, na última vez que chequei, terça-feira (6). O salgado é o frete, na faixa de R$ 200. Mas é possível comprar também no Brasil, em lojas de produtos importados. Em maio, comprei por R$ 95, com frete grátis. Atualmente, no site das Americanas, o preço vai de R$ 110 a R$ 155, dependendo da importadora.

A The Ordinary foi criada em 2016, no Canadá, e surgiu a partir de uma start-up de beleza chamada Deciem, dona de outras marcas. De uns dois anos para cá, começou a cair nas graças da internet por causa dos preços e porque, segundo blogueiras e influencers, seus produtos dão resultado. Como os stories do Instagram viraram o novo boca a boca, a propaganda orgânica se espalhou pelo mundo, incluindo a minha tela.

Claro que eu tinha em mente que na maioria das vezes essas mesmas pessoas são pagas para elogiar as marcas. Mas as centenas de avaliações positivas de clientes em sites no exterior, que compraram e aprovaram, me deixaram curiosa. E mesmo no site da The Ordinary não havia qualquer alerta sobre reações adversas.

O produto que promete o peeling químico é famoso também pela praticidade. Em vez de ir a alguma clínica dermatológica ou de estética, a ideia é fazer tudo em casa, sozinha. Os dermatologistas, inclusive, pedem que não usemos produtos sem acompanhamento. Mas, como mesmo depois de muita pesquisa não encontrei nenhuma informação sobre efeito colateral, acreditei que não haveria problema.

Não há bula informando que pode haver uma irritação ou uma queimadura química. Na embalagem, as únicas indicações são de não usar por mais de dez minutos nem mais do que duas vezes por semana. Orienta tirar o produto da pele se houver irritação e, nesse caso, consultar um médico. E diz que pode haver maior risco de queimadura durante exposição solar. Fala para fazer um teste antes da aplicação se a pele for sensível, o que eu fiz, com menos produto e por menos tempo do que o indicado, e não tive nenhuma complicação.

A solução é composta por uma mistura de ácidos —entre eles o glicólico, chamado de AHA, na concentração de 30%, e o salicílico, descrito na embalagem como BHA e com concentração de 2%.

Pesquisei muito antes de comprar. Li resenhas em vários sites, avaliações de pessoas que usaram contando o que acharam: só coisa boa.

Primeiro uso: teste e a reação de "uau, funciona mesmo"

Com o produto em mãos, fui reler o que dizia o site da marca: a solução é indicada para quem já usa ácidos. Eu usei há uns cinco anos, sabia que precisava começar devagar e cuidar com a quantidade e tempo de exposição ao produto.

A indicação de uso é duas vezes por semana e, no máximo, por dez minutos. Não há indicação sobre período máximo de uso. Fiz um teste antes, com pouca quantidade e por cinco minutos. Tirei e já senti o efeito positivo. Minha pele parecia mais lisa e sedosa. Fiquei empolgada para usar para valer na semana seguinte.

Da segunda vez, o efeito surpreendeu. Assim que tirei o produto, senti meu rosto muito liso, viçoso e, ao olhar no espelho, minha pele brilhava. Fiquei maravilhada. Segui usando o produto, no máximo uma vez por semana. Evitei exposição ao sol e, quando saía de casa, passava protetor solar com fator 70.

Usei a terceira, a quarta e a quinta vez. Tirava o produto, que é bem vermelho, do rosto no banho. Olhava para o espelho e via minha pele cada vez mais uniforme, com menos manchas das espinhas do passado, e viçosa. Achei que tinha feito o melhor negócio até hoje, até que usei o cosmético pela sexta vez.

Um mês depois: pele vermelha e ardendo e o medo de ter queimado meu rosto

Estava dando uma pausa de dez dias da última vez que usei o peeling, justamente porque fiquei com medo de estar exagerando no ácido. Ainda assim, quando tirei o produto dessa última, depois de um mês e meio de uso, minha pele estava muito, mas muito vermelha. Parecia que tinha jogado água quente no rosto. Ardia, coçava.

Joguei mais água achando que a coloração era por causa do cosmético, que é vermelho. Mas o vermelhão não saía. Bateu o desespero. E se manchar? E se eu ficar com queimaduras? Me senti a pessoa mais estúpida do planeta por usar um produto no rosto sem orientação médica. E, sim, foi um erro. Mas a marca deveria ser mais cautelosa e avisar sobre os possíveis efeitos que esse peeling pode causar. Em nenhum lugar há alerta sobre essas reações.

No meu caso, o vermelhão foi passando aos poucos. No outro dia, quando acordei, apenas algumas partes do meu rosto estavam rosadas. Mas, na lateral, ao lado do olho direito, percebi uma mancha escurecida. Na internet, li um relato de uma mulher contando que teve queimadura química após o uso do produto. Tinha feridas como se tivesse se queimado com fogo mesmo.

Procurei a marca para falar sobre esse efeitos colaterais, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Produto pode causar manchas em vez de removê-las, diz dermatologista

Conversei com dois dermatologistas e contei o que aconteceu comigo. Ambos disseram que a irritação, o vermelhão e até as manchas escuras são muito mais comuns do que se imagina. Eu usei o produto até com mais cuidado do que o indicado, já que a orientação é usar duas vezes por semana, e eu só usei uma a cada sete dias. Mesmo assim, tive uma dermatite alérgica, segundo os médicos.

Dermatologista do hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, Leonardo Abrúcio diz que a composição de ácido desse produto é muito alta e que o risco de causar um efeito contrário ao prometido é grande. "Além de tudo, a empresa é do Canadá, onde a radiação solar não é tão forte. Para pessoas de pele mais escura, o cosmético pode causar até hiperpigmentação. Ou seja, deixar manchas em vez de removê-las, como o produto promete", diz. "Não recomendo usar sem acompanhamento médico, muito menos sem passar filtro solar com fator 50 para cima."

Abrúcio ainda explica que, ao receitar ácidos para seus pacientes, normalmente passa produtos manipulados com doses de concentração de 8% a 10%. O peeling químico da The Ordinary tem 30%. "É muito alto. Acho temerário para usar em casa." No consultório, o médico consegue saber exatamente o que está passando na pele do paciente e tem o controle do tempo, além de conseguir monitorar qualquer sinal de reação adversa antes que piore.

A SBD coloca uma série de restrições para os peelings químicos, alguns até parecidos com o que diz a The Ordinary, como evitar exposição solar e não usar se houver uma ferida ou irritação na pele. Inclui, ainda, que não deve ser usado durante a gravidez nem em situação de estresse físico e mental, ou por quem tem o hábito de cutucar a pele.

Conclusão: não use sem acompanhamento de um profissional

A dermatologista Fernanda Nichelle, diretora da Medicine Aesthetic Clinic, de Porto Alegre, reforça os riscos de quem age como eu: se deixar levar por produtos badalados na internet. "A The Ordinary conseguiu fazer um trabalho de marketing muito forte e todo mundo quer saber o que são esses cosméticos e se funcionam", comenta.

"Mas é um tipo de produto que tem que ser usado em consultório. Ou, então, o que nós, médicos, fazemos é receitar produtos manipulados em que sabemos exatamente a concentração de todas as substâncias, além dos ácidos. Porque pode acontecer de queimar a pele mesmo", explica.

"As blogueiras não mostram isso porque ficam com vergonha de aparecer com a pele queimada, mas eu atendo várias e posso dizer que é muito comum. Pelo menos uma vez por semana, chega um caso de queimadura por produto usado em casa sem acompanhamento."

Portanto, estou aqui para dar esse conselho: o produto funciona, mas só use depois de consultar um dermatologista. Pelo menos até a próxima consulta com a minha, a caixinha branca da The Ordinary, uma das marcas mais famosas da internet no momento, vai ficar intocada. Pelo bem da minha pele.

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