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Trans bolsonarista e conservadora é pré-candidata a prefeita no ES

A empresária Bianca Biancardi, 52: "Por que não uma prefeita trans?" - Arquivo pessoal
A empresária Bianca Biancardi, 52: "Por que não uma prefeita trans?" Imagem: Arquivo pessoal

Camila Brandalise

De Universa

12/08/2020 04h00

Dona de um salão de beleza em Cariacica, na Grande Vitória (ES), Bianca Biancardi, 52, é pré-candidata à prefeitura da cidade pelo PMB (Partido da Mulher Brasileira), além de ser uma mulher trans. Diz se reconhecer como mulher "desde sempre", mas só percebeu que as outras pessoas não a viam da mesma maneira aos sete anos, quando foi impedida de entrar no banheiro feminino da escola por um segurança.

Na época, a diretora perguntou por que ela não fazia como os outros meninos e usava o sanitário masculino. "Porque não vou em banheiro de homem", respondeu. "Ela era uma pessoa muito abençoada. Entendeu na hora minha situação e me ajudou. A partir de então, comecei a ir no banheiro da secretaria", diz a Universa.

Sem experiência na política institucional, nas eleições de 2020, Bianca conta que foi convidada pelo próprio PMB a concorrer à prefeitura. "Ia me candidatar a vereadora por outro partido, mas o PMB soube da minha intenção e me fez a proposta", diz, sobre a sigla conhecida por ter homens na liderança e maioria masculina se candidatando, apesar do nome. "Viram em mim uma candidata diferente do que tem por aí." Sua principal bandeira, conta, é a da saúde e defende o investimento em hospitais e o aumento da remuneração de profissionais da área.

Entre outros projetos, pretende implementar na cidade o mesmo programa de profissionalização de trans e travestis anunciado pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos em maio de 2019, mas que ainda não foi colocado em prática.

Apoiadora de Jair Bolsonaro (sem partido), ela não vê contradição em ser trans e admirá-lo, ainda que a comunidade LGBT tenha apontado diversas falas consideradas transfóbicas por parte do presidente. Para Bianca, esses comentários ficaram no passado, na época em que Bolsonaro era deputado federal.

"Nunca vi ele fazer nenhum tipo de ofensa contra trans. No passado, ele falou sobre homossexuais de forma geral. Falou que não gostaria de ter um filho homossexual [em 2011, o então deputado federal afirmou que preferiria "que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí"]. Não sei até que ponto ele incitar a violência contra trans é verdadeiro. Não acho que o presidente da República incite a violência contra qualquer pessoa", diz.

"Hoje não vejo mais ele falando o que falava antigamente. Não vejo ele se posicionando contra os LGBT", diz. E afirma que, como trans, não se sente ofendida pelo que o presidente já disse. "Nunca me afetou em nada. O que importa é que a medicina me reconheceu como mulher", afirma.

Questionada também sobre uma fala de Bolsonaro de agosto passado em que ele disse que "família é formada por homem e mulher", ela diz não ter conhecimento desse comentário. "Mas, se ele pensa dessa forma, que me desculpe, não concordo."

Bianca prefere deixar de lado essa questão e focar no que a levou a votar em Bolsonaro nas eleições de 2018. "Tenho 52 anos e não me lembro de ter visto um presidente que eu pudesse falar: 'Esse cara é honesto'. Sobre isso, não há o que dizer. Não há nenhuma denúncia contra ele. Há contra os filhos [Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro são citados em diferentes processos no Supremo Tribunal Federal, no Ministério Público do Rio de Janeiro, na Câmara e no Senado]. E, se eles forem culpados, terão que pagar", afirma. "Também não tenho ninguém [nenhum político] de estimação."


Conservadora, de direita, cristã e pela família

Bianca afirma ser conservadora por acreditar em princípios como o da família. "Mas pode ser qualquer família, não apenas a tradicional. Se for de duas mulheres, dois homens, tudo bem. Tem que ter amor", afirma ela, que não é casada e não tem filhos. "Não nasci para ser atrelada a ninguém e nem tenho vocação para ser mãe."

Católica praticante, diz ter passado anos até ser aceita pela igreja e poder comungar. "Quando eu tinha 15 anos, já era muito garota. Não tinha mais nada em mim que representasse um garoto. E os meninos da igreja começaram a me repudiar. Aí, eu me afastei."

Voltou somente aos 29 anos, quando começou a fazer parte do movimento conhecido como Renovação Carismática. "É outro ramo da Igreja Católica, com essa função de acolher prostitutas, travestis, mulheres separadas. Fiquei no movimento por 14 anos, até que um padre permitiu que eu comungasse e só então voltei a frequentar as missas.", diz.

"Não concordo com a militância LGBT"

Bianca diz que é justamente por causa da religião que tece críticas ao movimento LGBT atualmente. "Eu sou cristã. Tem coisas que fazem me ofende. Como colocar Jesus como travesti", diz. Ela se refere à performance da atriz transexual Viviany Beleboni, que em em 2015 representou Jesus ao aparecer crucificada em um trio na Parada LGBT de São Paulo. Outras atrizes também já fizeram perfomance similar, como Renata Carvalho, pelo Youtube.

"Acho que você pode ter seu direito de voz, mas sem agredir as outras pessoas. Sou completamente a favor do movimento LGBT desde que ele não me ofenda no que eu tenho de convicção", diz.

Ela critica também o que ficou conhecido como "ideologia de gênero". "Eu acho que a escola não tem que ensinar a criança que ela tem que ser gay", diz.

Ao ouvir a reportagem sobre o que significam os estudos de gênero, uma linha teórica que aborda e explica quais são as diferentes identidades que uma pessoa pode ter, Bianca repensa a resposta. "Se for para acolher uma criança trans, aí eu concordo."


"Por que não uma mulher trans prefeita?"

Bianca conta que trabalha em salões de beleza desde os 16 anos. Nessa época, conta, começou a guardar dinheiro para fazer uma operação de redesignação sexual em Londres, como a Roberta Close, que era minha ídola [Roberta foi a primeira celebridade trans do Brasil e realizou a cirurgia em 1989, em Londres]."

Acabou conseguindo a cirurgia gratuita, oferecida pelo Hospital das Clínicas de Vitória, em caráter experimental, ou seja, com o objetivo de pesquisa clínica, em 1999. "Outras duas mulheres fizeram antes de mim. Mas não deu certo. A minha deu e, por isso, sou considerada a primeira mulher trans operada do Espírito Santo", afirma.

Empresária há mais de 30 anos, diz ser uma pessoa conhecida na cidade e, por isso, não teme ataques transfóbicos. "Uma mulher trans é, acima de tudo, um ser humano. Por que não ser prefeita?"

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