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Por que usamos branco no ano novo? Tudo começou com festa em SP dos anos 50

Superstição diz que branco atrai paz e boas energias para o ano que vai começar - iStock Images
Superstição diz que branco atrai paz e boas energias para o ano que vai começar Imagem: iStock Images

Natália Eiras

De Universa

20/12/2019 04h00

Um vestido branco, de preferência novo. Com rendas, bem praiano, ou cheio de paetês. Este é o figurino padrão da maior parte dos brasileiros para encarar a chegada do Ano Novo. O hábito de usar branco na virada do ano é tão comum no Brasil que esquecemos que este não é um costume na maioria dos outros países. E tudo por conta de uma festinha que rolou nas areias do litoral sul de São Paulo nos anos 1950.

"Um grupo chamado Primado de Umbanda foi até a Praia Grande para fazer, no dia de Iemanjá, o Encontro das Águas, uma espécie de procissão", explica o jornalista Bruno Acioli, nascido e criado em um terreiro e fundador do Projeto Umbanda, em que divulga imagens de sua fé. No Twitter, ele explica aspectos históricos e culturais da religião brasileira, que mistura crenças indígenas, africanas e kardecistas. "Esse ritual ficou famoso na época e foi tomando uma proporção gigante. Muita gente quis participar daquele evento porque era bonito aquela multidão de branco."

Ao longos dos anos, a festa foi se tornando cada vez maior. "Há relatos do Periódico Integração Umbandista da época da presença de mais de 300 mil pessoas em uma das edições", diz Acioli. O evento foi oficializado em 1969 pela prefeitura da cidade litorânea como parte do calendário municipal. Neste ano, os festejos de Iemanjá da Praia Grande completaram 50 anos.

Os tradicionais Festejos de Iemanjá entraram para o calendário oficial da Praia Grande há cinquenta anos - Moacyr Lopes Junior/Folhapress - Moacyr Lopes Junior/Folhapress
Os tradicionais Festejos de Iemanjá entraram para o calendário oficial da Praia Grande há cinquenta anos
Imagem: Moacyr Lopes Junior/Folhapress

O branco se tornou figurino de Ano Novo brasileiro nos anos 1970, quando o ritual foi exportado para o Rio de Janeiro, onde a praia de Copacabana já era o ponto de encontro do Réveillon.

Não há registros históricos sobre o porquê da data das oferendas para Iemanjá ter sido deslocada para o dia 31 de dezembro, mas o hábito foi adotado pela população, independentemente da religião. "O Brasil é um país multicultural e multireligioso. A gente aprende desde criança que tudo bem ir à missa de domingo e também tomar passe de uma benzedeira. Tem a ver com a nossa ancestralidade", afirma Bruno Acioli.

Mas até preto pode!

Por mais que o costume de usar branco tenha nascido de um ritual umbandista, a ideia de que essa cor representa paz e pureza não é exclusividade da religião brasileira. "No catolicismo e nas igrejas pentecostais, por exemplo, o batismo é feito com vestes brancas. Não existe uma teoria que justifique isso. Faz parte do inconsciente coletivo", diz ele.

A astróloga e estudiosa de religiões Virginia Gaia, de São Paulo, afirma que, por ser uma mistura de todas as cores, o branco refletiva. "Usamos a cor em rituais em que queremos rebater energias", afirma. E a vibe geral do Ano Novo é emanar boas energias. "Por isso relacionamos uma coisa à outra."

Há grupos em que passar o Réveillon de preto é pedir para ser criticado. Mas a terapeuta pontua que, ritualisticamente falando, não existe cores negativas. "No Brasil, o preto é muito relacionado ao luto, mas é uma questão cultural. No hermetismo, no entanto, cada tonalidade tem a sua atribuição de acordo com os planetas e podemos utilizá-las de formas mágicas", diz.

O vermelho é a cor de Mercúrio, que rege o desejo sexual. O amarelo e o dourado se conectam com a energia do sol, que atrai prosperidade. "O preto, por sua vez, traz a energia de Saturno, que te fecha e te blinda para influências negativas." É por isso, sugere, que padres católicos usam a batina preta. "É uma tonalidade que fala sobre disciplina, responsabilidade, concretização." Não são temas que as pessoas costumam pedir no Ano Novo, mas não te impede de curtir a virada de preto.

Tanto Bruno Acioli quanto Virginia Gaia dizem que, indenpentendemente da cor, o que importa é a intenção. "Não é obrigatório passar de branco, mas o Réveillon é uma boa oportunidade de refletir por cinco minutinhos. Pular as sete ondas não é cultuar Iemanjá, mas se conectar com a sua espiritualidade", diz o jornalista.

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