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Sem emprego, irmãs se unem para vender comida low-carb e faturam R$ 70 mil

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Imagem: Divulgação

Renata Turbiani

Colaboração para Universa

23/10/2019 04h00

Especialistas afirmam que existem dois tipos de empreendedorismo: o buscado por necessidade e o motivado por oportunidade. No caso das irmãs Beatriz Nunes, 37, e Ana Maria Gomes, 38, fundadoras da Comida Boa, loja virtual especializada em pratos congelados e confeitaria low carb, eles vieram juntos.

Em 2017, Beatriz, que é nutricionista e estava havia 10 anos em um restaurante, foi dispensada do trabalho e, para piorar, sem receber seus direitos. Com o marido e hoje também sócio, o chef de cozinha Edilson Nunes, 40, também sem emprego, bateu o desespero. "A minha demissão foi muito dolorosa e eu fiquei sem saber o que fazer. Meu marido sempre quis ter um negócio próprio, mas eu morria de medo. Queria ser CLT para o resto da vida, por segurança", conta.

Naquela época, a empresária já era adepta da dieta com baixo teor de carboidrato, e suas receitas, incrementadas com o "toque do chef", faziam sucesso entre amigos e familiares. "Eu tinha um perfil no Instagram com o nome Comida Boa e, de vez em quando, postava alguns pratos. Todo mundo elogiava, queria comprar, mas não passava pela minha cabeça vendê-los. Até que a minha irmã veio com a ideia", relembra.

As duas, então, montaram um cardápio e o enviaram, pelo Whatsapp, para os conhecidos. Em 30 minutos, chegaram cinco pedidos. O problema naquele momento era a falta de dinheiro para comprar os ingredientes e os itens necessários para dar o start. A solução que Beatriz encontrou, de forma precipitada, ela afirma, foi usar o cheque especial.

Durante o ano de 2017, ela e o marido cuidaram de tudo sozinhos, na própria casa. Eles recebiam os pedidos, preparavam a comida, faziam as entregas e cuidavam das compras e dos recebimentos. Venderam, em média, 400 pratos por mês, com o faturamento variando entre R$ 8.000 e R$ 10 mil. Ao todo, usaram R$ 40 mil do banco.

Hora de profissionalizar

Vendo o potencial do negócio, Ana Maria, a irmã, sugeriu profissionalizá-lo. "Era início de 2018. Eu estava fechando a minha produtora de eventos corporativos, que tive durante oito anos, e decidi investir minhas economias no Comida Boa. Inicialmente, coloquei R$ 200 mil, o suficiente para abrir a empresa, alugar uma casa, comprar equipamentos e matéria-prima, montar o site com fotos profissionais e desenhar a marca", diz.

Bia Nunes, Ana Gomes e Edilson Nunes, do Comida Boa - Divulgação
Bia Nunes, Ana Gomes e Edilson Nunes, do Comida Boa
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Com tudo isso, e pelo fato de venderem a prazo, mas terem de fazer os pagamentos à vista, não sobrou o dinheiro de capital de giro que precisavam. Começaram, então, a buscar crédito. Bateram primeiro na porta dos bancos com os quais têm relação, mas consideraram as taxas muito altas. Em seguida, foram atrás das cooperativas de crédito, que não lhes ofereceram muitas vantagens pelo CNPJ ser novo.

"Infelizmente, falta credibilidade às micro e pequenas empresas que estão começando. E é justamente nesse momento que mais precisamos. As instituições financeiras oferecem taxas de juros altíssimas, para pagamento em um prazo curto e com uma série de exigências que não podemos cumprir. Ainda nos falta uma rede de apoio", analisa Ana Maria.

No caso do empréstimo, ela queria dar seu carro como garantia, e ninguém aceitava. "Passei dias pesquisando e aí encontrei uma fintech, que, além de aceitar o veículo, tinha taxas de juros bem melhores. Pegamos R$ 40 mil de empréstimo para pagamento em 36 meses", diz Ana.

Até a loja online ficar pronta, as vendas continuaram pelo Whatsapp, mas já foi possível terceirizar as entregas - feitas em toda a Grande São Paulo. Entre fevereiro e agosto do ano passado, mês em que o portal foi lançado oficialmente, o faturamento bruto ficou entre R$ 15 mil e R$ 18 mil mensais. Depois, passou para R$ 50 mil e, no primeiro semestre de 2019, chegou a R$ 70 mil.

Os produtos vão de R$ 5,50 (bombom de pasta de amendoim) a R$ 569,70 (kit com 28 pratos).

Atualmente, o Comida Boa tem cerca de 250 cliente por mês, muitos vindos do iFood, app com o qual a empresa firmou parceria posteriormente. A empresa conta com quatro funcionárias e tem 75 itens sendo comercializados. Em abril, mais um passo foi dado: mudaram de endereço, para um imóvel com uma cozinha três vezes maior.
No início deste mês, a dupla abriu uma loja física, e a meta é aumentar o faturamento mensal em 20%. Nesse processo, as empreendedoras precisaram recorrer novamente a um empréstimo. Foram mais R$ 150 mil, dessa vez de uma instituição financeira tradicional, tendo como garantia o imóvel de Beatriz e Edilson, e para serem pagos em 15 anos.

"Não podemos ter medo de crescer, mas sabemos que é preciso dar um passo por vez, com cuidado. Infelizmente, não conseguimos fazer sem empréstimo, só que tudo o que fazemos é muito bem pensado. Acreditamos totalmente no potencial do nosso negócio", afirma Beatriz. "Queremos incrementar ainda mais o cardápio, sem perder a qualidade, contratar mais colaboradoras e, quem sabe, adquirirmos um imóvel próprio."

Cuidados na hora de pegar um empréstimo

Para crescer, é preciso investir, e muitos empreendedores, como as da Comida Boa, só conseguem isso com a ajuda de uma instituição financeira. Hugo Roth, analista técnico de Serviços Financeiros do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), diz que é fundamental saber a hora de pedir empréstimo e, principalmente, quanto dinheiro será necessário e onde ele será aplicado.

"Também é de extrema importância conhecer a origem da necessidade. Por exemplo, se ela se dá por descasamento do fluxo de caixa, erro na precificação dos produtos e no estabelecimento de metas ou má definição do público-alvo. Se o empresário não corrigir o problema, vai ter de continuar colocando dinheiro", aponta o especialista.

Na hora de buscar o empréstimo, seu conselho é procurar, em primeiro lugar, a instituição financeira com a qual já se tem algum tipo de relacionamento, e só depois conversar com outras, inclusive as fintechs, que, hoje em dia, oferecem créditos mais rápidos e baratos.

"O valor da parcela não deve nunca ser superior a 30% da margem líquida mensal, e os empreendedores têm de ter em mente que crédito é crédito enquanto está no banco. Entrou na empresa é dívida, e é preciso elaborar uma estratégia para liquidá-la o mais rápido possível,"

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