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"Só 1 segundo que estou sendo assaltada": o medo de motoristas de app em SP

Bruna, motorista de app em SP - Arquivo Pessoal
Bruna, motorista de app em SP Imagem: Arquivo Pessoal

Wellington Soares

Colaboração para Universa

19/09/2019 04h00Atualizada em 19/09/2019 16h33

No domingo (15), a motorista de aplicativo Adriana Márcia de Almeida, 46, foi assassinada durante uma tentativa de assalto em Diadema, na região metropolitana de São Paulo. Ela iniciava uma corrida com duas passageiras mulheres quando um homem anunciou o assalto. Ao tentar sair, Adriana foi baleada.

O caso colocou novamente em discussão a segurança de condutores - e, em especial, das condutoras - que atuam em aplicativos de transporte, como Uber, Cabify e 99. Universa conversou com quatro motoristas que realizam corridas por esses apps e pelo Lady Drive, restrito a motoristas e passageiras do sexo feminino para entender melhor a rotina delas e os recursos que elas utilizam para se proteger.

"Além dos perigos que todos correm independentemente do gênero, me sinto mais exposta a assaltos ou à violência por ser mulher e, em teoria, ser mais frágil fisicamente", afirma Isabela de Souza Vieira, 29, que atua desde novembro de 2018 como motorista.

Em comum, todas destacam o pouco apoio das empresas de tecnologia. "As medidas de segurança são mais feitas pelos motoristas do que pelos aplicativos", afirma J.I., 30, que preferiu não se identificar e trabalha há um ano e meio na direção.

Orientações e dicas de segurança acabam sendo compartilhadas pelas próprias motoristas, que se organizam em comunidades por WhatsApp. Já as empresas afirmam tomar medidas de segurança na aprovação do perfil dos passageiros e também na disponibilização de suporte para eventuais ocorrências que se deem durante o uso do aplicativo.

Questão de sensibilidade

A escolha do horário e do local de trabalho é a primeira medida listada pelas motoristas para tentar se prevenir de assaltos e outros riscos de violência. "Eu busco trabalhar apenas nos horários em que o comércio está aberto", conta Sarah Siqueira, 37. Além disso, outra medida citada pelas motoristas é desligar os aplicativos ao retornar de corridas que as levam para muito longe - até que voltem a locais mais conhecidos ou movimentados. Ficar de olho no local de origem e destino, nos casos em que o aplicativo permite, também ajuda as motoristas a se sentirem mais seguras.

Com relação aos horários, Isabela conta que já teve mais medo no início da carreira como motorista. Moradora de Taboão da Serra (SP), ela conta que nos primeiros meses, o medo de correr algum risco era grande ao trabalhar ali na região onde vive.

"Lembro de uma vez que chamou para uma corrida e eu aceitei. No meio do caminho, comecei a notar que o lugar era meio estranho e fiquei apavorada. Quando cheguei, eram duas senhoras que tinham pedido o carro para levá-las da igreja até em casa. Dei graças a Deus", lembra. Para driblar o medo, ela passou a se direcionar mais para o centro da cidade de São Paulo, onde há mais movimento e se sente confortável para trabalhar até mais tarde. "Vou até uma hora da manhã", diz.

Seleção dos passageiros

Mesmo trabalhando em horários e locais onde se sentem mais seguras, as motoristas garantem que é preciso ter muito cuidado. Isabela diz que costuma avisar que já chegou no local de encontro alguns metros antes. "Assim, já vejo o passageiro se movimentando e consigo observar se há algo suspeito", afirma.

O horário da chegada é fundamental. J.I. conta que algumas vezes já se negou a levar pessoas por desconfiar do local de espera. "Uma vez recebi o chamado de uma menina. Quando cheguei ao local, só havia três rapazes esperando, em uma rua sem saída. Cancelei a corrida e fui embora", conta.

Em situações como essa, o próprio aplicativo Lady Driver, recomenda que o motorista deixe o local. "Somos voltados para mulheres passageiras e motoristas, mas orientamos que, quando alguma menina fizer o chamado e houver apenas um homem, elas não sigam em frente", conta Gabryella Correa, fundadora do app. Sarah conta que, sempre que possível, dá preferência para usar o aplicativo por se sentir mais segura ao transportar apenas mulheres. "Há menos perigo de sofrer alguma violência física ou verbal", conta.

Redes de apoio

"Espera só um segundo que estou sendo assaltada": a motorista Bruna de Souza Vieira, 32, lembra de ter dito exatamente essa frase a um colega com quem falava na madrugada do último domingo (15) quando sofreu uma tentativa de roubo.

Ela conta que, por volta da 1h30 da manhã, ela havia deixado uma passageira na rodovia Raposo Tavares, que conecta a zona oeste de São Paulo a municípios da região metropolitana.

"Estava escuro e, sabendo que aquele local era perigoso, decidi esperar para ver se ela encontraria de fato a amiga com quem havia combinado, do outro lado da estrada", diz. Depois que viu que a passageira estava segura, Bruna foi abordada por três jovens, que anunciaram o assalto. "Por sorte, meu vidro estava levantando e as portas travadas. Bem na hora, passaram viaturas da polícia, que notaram o que estava acontecendo, abordaram os jovens e os levaram", lembra.

Durante o assalto, Bruna estava sendo monitorada por um grupo de colegas formado para proteger uns aos outros. Os cerca de 200 motoristas se concentram em um grupo de WhatsApp e utilizam outros aplicativos para celular para ficar de olho nos colegas e, assim, aumentar a segurança de todos. "Nosso lema é 'eu por você e você por mim'", conta ela, que é uma das administradoras do grupo. Além da conversa por WhatsApp, os motoristas - homens e mulheres - usam aplicativos de compartilhamento de localização e de rádio para monitorar uns aos outros. "Sempre que vamos a algum lugar perigoso, avisamos os colegas, que ficam de olho e vão perguntando, por rádio, se está tudo bem", conta.

O grupo também compartilha dicas e faz encontros presenciais para que todos aprendam a utilizar os softwares. "Tudo isso foi pensado por nós mesmos, principalmente por motoristas que já agem no ramo há mais tempo. Nada foi iniciativa dos aplicativos para os quais trabalhamos", conta.

Sobre a tentativa de assalto que sofreu recentemente, Bruna diz que nem sequer procurou os aplicativos. "Eu estava de olho na passageira justamente para garantir a segurança dela. Por isso, desliguei o aplicativo. Nesses casos, eles não se responsabilizam", afirma.

O que dizem as empresas

Procuradas pela reportagem, as empresas de aplicativo 99 e Lady Driver compartilharam algumas das estratégias que utilizam para garantir a segurança de motoristas e passageiras.

A 99 afirma que possui uma central de segurança com 130 profissionais responsáveis para planejar as ações. Há um serviço de inteligência artificial que monitora todas as chamadas, identificando situações de riscos e bloqueando o acesso à plataforma.

A plataforma também disponibiliza um botão de emergência que pode ser acionado durante a corrida e está implementando, em veículos de São Paulo, Porto Alegre, Goiânia e Belo Horizonte, a instalação de câmeras conectadas com a central de segurança da companhia.

Especificamente para as mulheres, há um algoritmo que identifica denúncias de assédio, preconceito ou qualquer outra forma de discriminação nos comentários ao fim das corridas, agilizando a resposta da empresa. Por fim, ela diz colaborar com as autoridades em casos de violência.

O aplicativo Lady Driver afirmar que possui um sistema de análise dos perfis de passageiros criados, cruzando os dados com informações oficiais da Receita Federal e da Polícia. "Barramos o cadastro caso haja alguma inconsistência", afirma a fundadora Gabryella Correa. Além disso, a empresa garante fornecer esses dados às autoridades sempre que necessário.

Em nota, a Uber afirma que segurança é prioridade da empresa e que segue investindo constantemente em novas tecnologias.

"A Uber passou a adotar no Brasil o recurso de machine learning, que usa a tecnologia para bloquear viagens consideradas mais arriscadas. Esta ferramenta usa algoritmos que aprendem de forma automatizada a partir dos dados e bloqueia viagens consideradas potencialmente mais arriscadas, a menos que o usuário forneça detalhes adicionais de identificação", diz a empresa. A Uber também diz contar com ferramenta que facilita contato com a polícia em situações de risco.

Para usuários que querem pagar em dinheiro, o aplicativo exige CPF e data de nascimento, dados que são checados com o Serasa. A motorista pode compartilhar localização, trajeto e horário de chegada, em tempo real, com quem desejar. O aplicativo permite ainda que viagens sejam canceladas por motoristas que não se sentirem seguros.

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