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Coliving: compartilhar espaços é a cara da nova geração

Nos coliving é possível viver em seu próprio apartamento, mas também há espaços coletivos de convivência para estudar, trabalhar ou mesmo sociabilizar - iStock Images
Nos coliving é possível viver em seu próprio apartamento, mas também há espaços coletivos de convivência para estudar, trabalhar ou mesmo sociabilizar Imagem: iStock Images

Silvia Regina

De Universa

16/07/2019 04h00

Imagine morar em um apartamento pequeno, com um quarto, um banheiro e, em alguns casos, uma cozinha bem compacta. Mas basta descer alguns andares e você tem à disposição áreas compartilhadas, como uma cozinha grande, sala de estar, área de estudos ou de trabalho, lavanderia e até piscina e churrasqueira. Esses são os colivings, moradias compartilhadas que vêm chamando a atenção dos brasileiros nos últimos quatro anos.

"O coliving é um empreendimento residencial que torna o uso dos espaços e dos recursos mais eficientes e, além disso, estimulam a convivência", explica Eduardo Pricladnitzki, sócio da WikiHaus, incorporadora de Porto Alegre que entrega na capital gaúcha, em setembro, o Cine Teatro Presidente, coliving com 58 unidades.

Assim, de imediato, pode até parecer estranho, mas pense em tudo que já é compartilhado atualmente. Há carros, bicicletas, patinetes e espaços de trabalho. Então, por que não compartilhar o espaço em que você vive?

A geração millennial tem uma visão diferente de viver. Ela não enxerga sentido em ocupar um apartamento grande, quer um espaço menor e flexível, pois não sabe mais quando tempo passará morando ali", afirma a arquiteta Carol Bueno, sócia do escritório Triptyque, de São Paulo, responsável por dois projetos de coliving a serem entregues em 2022, um na capital paulista e outro em Florianópolis (SC).

"Além disso, vivendo assim não há necessidade de ir todos os dias ao escritório, as pessoas podem trabalhar de casa ou em outros espaços compartilhados. O coliving é uma resposta a esses novos anseios", completa a arquiteta.

Regras de convivência

Quem entende de coliving garante: não tem nada a ver com as tradicionais repúblicas estudantis. Tratam-se de conceitos diferentes. Primeiro porque os quartos são, na maioria das vezes, individuais. Segundo porque para o uso de espaços comuns há regras muito bem estabelecidas e que devem ser seguidas por todos (do contrário, são aplicadas multas).

Além disso, todos os prédios possuem gestão profissional, com um gerente responsável por verificar se tudo está em ordem e disponível para ajudar caso algum morador precise de algo, como uma orientação para andar na cidade.

Apesar de existir uma equipe de manutenção nos prédios, são os próprios moradores que devem zelar pelo espaço comum. Portanto, se usou a cozinha, deve limpá-la para outra pessoa poder usar. Se vai assistir à TV, precisa estar em um volume que não atrapalhe os demais.

Comum na Europa e Estados Unidos

Ainda engatinhando no Brasil, o coliving já existe há cerca de 40 anos na Europa e nos Estados Unidos e movimenta o mercado imobiliário. Em Londres, o The Collective, considerado o maior coliving do mundo, tem mais de 500 unidades com, no máximo, 25m2. O apartamento tem banheiro e uma cozinha pequena é dividida com o vizinho.

A área compartilhada possui espaço de trabalho, lavanderia, sala de jogos, biblioteca, sala de eventos, sauna, jardim, restaurante, spa e academia. O sucesso é tanto que a taxa de ocupação gira em torno de 97%.

De olho nesse mercado, há cerca de três anos, a We Work, conhecida pelos inúmeros coworkings espalhados pelo mundo, lançou o We Live, com unidades em Nova York e em Washington DC. Por enquanto, a empresa diz que não tem planos de investir no Brasil.

Isso não significa, porém, que o país não tenha boas oportunidades. Além do coliving que será entregue em Porto Alegre, com apartamentos de 37m2 com banheiro e sacada com churrasqueira, o empreendimento terá ainda lavanderia, espaço para coworking, bicicletário, área fitness, piscina e ainda um rooftop com grama natural e horta comunitária.

A Wikihaus já está com outro projeto pronto, no mesmo formato, que será lançado em breve. A previsão é que entre em funcionamento em menos de dois anos.
Em São Paulo, a Triptyque já está colocando em pé o AMATA, na Vila Madalena (zona oeste). Também toca outro projeto na capital catarinense. "Esse projeto terá um jardim vertical e ainda a área de apartamentos, os espaços compartilhados e uma área pública", explica a arquiteta Carol Bueno.

Só para estudantes

Também em São Paulo, a Uliving aposta no público universitário. "Lidamos muitas vezes com pessoas sozinhas, que não conhecem a cidade onde estão estudando. Então, a ideia é integrá-los, com eventos e palestras", conta Juliano Antunes, CEO da Uliving, de São Paulo.

As unidades estão localizadas em cidades com grandes universidades - São Paulo, Sorocaba e Ribeirão Preto; em breve chegará ao Rio de Janeiro - e possuem estruturas que atendem à demanda local. Assim, há quartos para uma ou duas pessoas, alguns com cozinha, outros com banheiro compartilhada e há ainda aqueles com limpeza quinzenal do dormitório. A taxa de ocupação é de 80%.

E, para tudo dar certo, todos precisam obedecer ao regulamento interno. "Não pode deixar louça suja na cozinha, não pode colocar comida fora da embalagem na geladeira, o volume da TV tem que ser adequado na sala de estar, celular precisa estar no mudo na sala de estudos e por aí vai", conta Antunes.

A estudante espanhola Carmen Perdiguer, 23 anos, morou durante cinco meses num coliving em São Paulo. Antes vivendo numa república, preferiu esse tipo de moradia pela segurança e pela estrutura adequada.

"Eu sou intercambista e sentia que, na república, sempre tinha alguém querendo me enganar. Sem contar que encontrei quartos sujos, sem estrutura nenhuma." Para ela, o fato de ter um gerente no prédio para atendê-la quando necessário é um ponto muito positivo. Só o que ela não gostou foi que a integração com os demais moradores, que não aconteceu como ela imaginava.

"Quando cheguei, já tinha um grupo muito unido. Então, foi difícil para eu me integrar e fazer parte dessa turma". Mesmo assim, ela considera que foi o melhor negócio que fez. "Perto das repúblicas em que morei, o coliving é um paraíso", finaliza.

Fazendo as contas

Para ter tanto conforto, é preciso colocar a mão no bolso. O aluguel de um quarto pode custar a partir de R$ 850 e passar de R$ 3.000 . E, se a ideia é comprar, terá que desembolsar, pelo menos, R$ 400 mil.

Mas nenhum valor chega perto dos praticados nos Estados Unidos. Quer morar em um estúdio localizado em Wall Street? Então prepare-se para desembolsar, pelo menos, US$ 3.200 por mês (em torno de R$ 12 mil).

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