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Como virar guitarrista em 6 meses, fazer um show e enfim orgulhar seus pais

Banda "Elas Não Falam Top" comigo na guitarra durante show em São Paulo - Daniela Souza/UOL
Banda "Elas Não Falam Top" comigo na guitarra durante show em São Paulo Imagem: Daniela Souza/UOL

Talyta Vespa

De Universa

08/07/2019 04h00

Meu pai comprou uma guitarra no começo de 2016, sem saber tocar sequer uma nota. Era uma Stratocaster azul, novinha, envernizada e brilhante. Ele tinha 53 anos, eu, 20, e toda vez que eu me trancava no quarto daqui e ele acertava um acorde de lá, eu achava o máximo. Enrolamos algumas músicas, ele encarando as partituras e eu desafinando e tocando pandeirola fora do tempo. A música nos juntava, literalmente, apertados num sofá pequeno num quartinho de casa.

Meu pai e eu, em 2016, quando ele comprou a guitarra - Arquivo Pessoal
Meu pai e eu, em 2016, quando ele comprou a guitarra
Imagem: Arquivo Pessoal

Meu pai nunca foi de falar muito sobre o que sentia e acho que nem eu. Essa ponte quem fazia era a música. Um dia, estávamos no carro e, no rádio, tocava "Save Me Now", do Andru Donalds. Eu pedi que ele trocasse de música, já que aquela me deixava triste porque me lembrava um ex-namorado. E ele me respondeu: "Essa música é linda. Você não pode relacioná-la a alguém que te fez sofrer. Para de pensar assim".

Esse texto não é sobre meu pai, mas não tenho como deixar de falar dele na hora de contar minha aventura saltitante pela música. No fim do ano passado, Universa recebeu um convite para que uma repórter integrasse uma banda só de meninas.

Fiz um escândalo à la bebê no supermercado pedindo chocolate. Por favor, por favor, por favor, deixem que eu vááá. Meus chefes aprovaram e, por livre e espontânea pressão, minhas colegas abriram mão do convite. Me tornei uma das guitarristas da banda "Elas Não Falam Top", com show marcado para dali a seis meses e, como meu pai quando comprou a guitarra, eu não sabia nem o que era nota musical.

Daniela Souza/UOL
Imagem: Daniela Souza/UOL

A banda é um projeto da School of Rock, rede de escolas de música norte-americana que tem 22 unidades no Brasil. O convite deixava claro: não precisa saber tocar. Os ensaios aconteceriam todas as terças-feiras às dez e, às quartas, eu teria aulas individuais de guitarra. Na primeira delas, pedi que o professor me prometesse que eu não passaria vergonha no show. Ele prometeu.

Além de mim, no grupo, havia outras sete mulheres, todas do ramo da comunicação. O repertório seria: tocaríamos sete músicas, três das "Spice Girls" e quatro do "No Doubt". No primeiro ensaio, tive vontade de sair correndo. Depois da primeira aula, eu saí, mesmo.

Daniela Souza/UOL
Imagem: Daniela Souza/UOL

Tive a absoluta certeza de que meus dedos tinham alguma limitação impossível de ser resolvida e que jamais formariam um acorde. Só que já era tarde demais para pedir penico: eu tinha uma reportagem para entregar e um compromisso firmado com o grupo.

A primeira música que o professor me passou foi o maior clássico da banda de Gwen Stefani: "Don't Speak". Primeiro, usei só um dedo na corda tônica --que forma a nota mais importante do acorde. Depois de dois meses, aprendi a colocar um segundo dedo numa segunda corda e formar uma díade, popularmente conhecida como bicorde: já fazia um sonzinho legal. Meu pai? Pedia que eu tocasse sempre que ia visitá-lo. Mesmo fazendo um som horrível, ele elogiava. Pais, né?

A cada mês, aprendia uma ou duas músicas. A que eu mais gostava, "Just a Girl", do "No Doubt", foi, também a mais difícil de tocar. Eu insisti, viu, apesar de ela deixar meu dedo cheio de bolhas. Não foi suficiente: no show, spoiler, parei no meio e fingi que o backing vocal era proposital. "Talyta, se errar, não faz cara de quem errou", orientou um dos professores de performance que visitou o último ensaio antes do show. Ok, profe.

Na minha casa, moram cinco guitarras, todas do meu namorado, que é guitarrista de verdade. Me apropriei de uma delas durante os seis meses de treino, aprendi a afiná-la e, tcharããã, até quebrei uma corda pela primeira vez. Eu treinava, pelo menos, 30 minutos por dia todos os dias. Às vezes, me empolgava e estendia os treinos para uma hora. Aos poucos, o que eu achei que seria impossível começou a virar realidade: eu estava tocando guitarra, bem porcamente, mas estava.

A parte mais difícil, diferentemente do que eu imaginava, não foi aprender a tocar, mas conciliar a rotina de redação com os ensaios e as aulas. Faltei mais do que deveria, confesso, e tenho certeza de que a falta de periodicidade fez com que o resultado prático da minha guitarrice não fosse nada além de não passar vergonha.

Daniela Souza/UOL
Imagem: Daniela Souza/UOL

Os ensaios eram a melhor parte da minha semana --minha editora vai ler isso e perguntar se eu já saí da adolescência--, mas eram, mesmo. Era o maior barato ver oito pessoas fazendo barulho e aquilo se tornar uma música agradável. Fora, que conviver com mulheres inteligentes é sempre bom, né?

Às vezes, eu ficava apreensiva por estar atrasada em relação a elas no repertório. A Annie, uma das bateristas, sempre dizia, com um sorrisinho fofo: "Não desanima, vai dar certo". Com a Michele, a outra baterista, só a convivência já me ensina um monte de coisa: ela é cadeirante, consultora de moda e toca muito.

Era maio, acho que dia sete. Faltava menos de um mês para o show. Passamos o repertório no ensaio e, no fim da última música, o professor gritou. Luciano, que cuidava dos nossos ensaios, parece o Gru do filme "Meu Malvado Favorito". "Temos o show!". Arregalei os olhos. Caraca, e não é que tínhamos um show? Esse dia ficou bem marcado na minha memória: todo mundo se olhou e sorriu, com uma satisfação difícil de explicar, diferente de todos os prazeres que já senti. Ter uma banda é muito louco.

A banda e o malvado favorito, Luciano - Daniela Souza/UOL
A banda e o malvado favorito, Luciano
Imagem: Daniela Souza/UOL

Meus pais compraram os ingressos para o show, que aconteceria em uma casa tradicional de rock na zona oeste de São Paulo no começo de junho. Eles, para variar, estavam mais animados que eu. Sempre foi assim: já me apresentei pelo balé (caí enquanto dançava), ginástica olímpica (fiquei em último lugar na competição), handebol (nunca fiz um gol em campeonato), teatro (eu interpretava uma árvore) e olimpíada de matemática (nunca passei da primeira fase). Eles sempre se empolgaram. Como o histórico apresentado acima não é dos melhores, eu estava tremendo de medo de fazer um monte de besteira no palco.

No dia do show, cheguei ao bar com três horas de antecedência para passar um reboco na cara e afinar a guitarra. Em cima do palco, minhas mãos tremiam e eu suava. "Se der branco, eu abaixo o volume da guitarra e finjo que sou o Chuck Berry", pensava. Não precisou: desde o primeiro acorde até o último, eu me diverti, as crianças que assistiam ao show se divertiram e e meus, pais, bom...

Meus pais e eu no dia do show - Arquivo Pessoal
Meus pais e eu no dia do show
Imagem: Arquivo Pessoal

"Estou muito orgulhoso de você. Acho que essa foi a coisa mais corajosa que você já fez". Foi com os olhinhos cheios de lágrima que meu pai me recebeu quando desci do palco. Eu diria que a coisa mais corajosa que fiz foi entrevistar o baixista do Aerosmith, a líder da Uber ou fingir que estava grávida e ir a uma clínica de aborto para uma reportagem. Mas, ele acha que foi o show. Justo.

Pai, o texto não é sobre você, mas é pra você.

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