PUBLICIDADE

Topo

Aranha quer que Stela faça: as diferenças entre inseminação e fertilização

Stella e Aranha - Reprodução TV Globo
Stella e Aranha Imagem: Reprodução TV Globo

Claudia Dias

Colaboração para Universa

31/03/2019 04h00

O médico José Aranha (Paulo Rocha) está fazendo de tudo para retomar o casamento com Stela (Vanessa Giácomo), em "O Sétimo Guardião". Depois do bafafá criado por ele mesmo, admitindo ter forjado exames da mulher e ser responsável por não terem filhos, já que é estéril, o personagem sugeriu à esposa que retomassem o plano de formar família, por meio de inseminação artificial.

"Escolhemos um doador, eu te acompanho em todo processo e ele será o nosso filho", prometeu o médico à jovem, que perdeu um primeiro filho, misteriosamente, ao dar à luz. E por que recorrer a esse método de reprodução assistida e não a uma fertilização in vitro, por exemplo? Conversamos com a ginecologista e obstetra Karina Tafner, especialista em endocrinologia ginecológica e reprodução humana pela Santa Casa (FCMSCSP), que explica as diferenças.

Inseminação Intra Uterina (IIU) é o nome de batismo de um dos tratamentos de reprodução assistida de baixa complexidade, que visa aumentar a chance de gestação com a fecundação dentro do organismo feminino. Já a Fertilização in vitro (FIV) é um tratamento de alta complexidade, em que a formação do embrião (fecundação) é realizada em no laboratório de reprodução assistida e fora do organismo feminino.

A inseminação, passo a passo

O tratamento para inseminação começa com a estimulação ovariana, através de medicações administradas entre 8 e 12 dias, em média. A intenção é promover a ovulação em pacientes com alterações ou desenvolver múltiplos óvulos em mulheres com ovulação normal.

Quando os folículos (uma ou mais camadas de células com o óvulo e líquido folicular) atingem o tamanho ideal para a ovulação, é administrada nova medicação, que leva à ruptura folicular e, consequente, ovulação. Os casais são orientados a terem relação sexual entre 36 e 40 horas depois.

Na vida real, José Aranha e Stela teriam que seguir outro caminho: após a definição do doador (anônimo), o sêmen deste segundo homem é coletado (por masturbação) e processado em laboratório especializado e depositado diretamente no útero da mulher (em posição ginecológica e com espéculo inserido), através de um cateter.

"As taxas de gravidez são maiores, pois há aumento da chance de fecundação, já que haverá um maior número de espermatozóides aptos na cavidade intrauterina e maior número de óvulos", observa a especialista Karina.

A complexa fertilização

O estímulo ovariano também é o primeiro passo para a FIV, a fim de aumentar o número de óvulos a serem manipulados. Mas quando os folículos atingem o tamanho desejado, em vez de nova dose de medicamento para que ocorra a ruptura, é realizada uma aspiração folicular para captura do óvulo.

Tal procedimento acontece em centro cirúrgico, sob sedação. Nele, os óvulos são aspirados por agulha específica (ligada ao dispositivo do ultrassom transvaginal), que penetra nos ovários e nos folículos, aspirando todo o conteúdo folicular. "São encaminhados imediatamente para o laboratório de FIV, que costuma ser anexo ao centro cirúrgico", detalha a médica.

Paralelamente, os espermatozóides são colhidos, também por masturbação, e encaminhados ao laboratório. O procedimento dura cerca de 20 minutos e complicações são raras.

É no laboratório também que ocorre a fertilização. Ali, o desenvolvimento do embrião é acompanhado por 3 a 5 dias, quando é feita a transferência para dentro do útero - também com o uso de um cateter, inserido pelo colo do útero, com a paciente em posição ginecológica.

Detalhe: o número de embriões transferidos vai variar conforme a idade da mulher: 2 embriões (até 35 anos), 3 embriões (36 a 39 anos) e 4 embriões (mais de 40 anos).

Qual técnica é mais eficiente?

De acordo com Karina Tafner, as taxas de sucesso englobam vários fatores: morfologia do útero, integridade endometrial, resposta ao estímulo ovariano, qualidade do sêmen e do embrião, a causa da infertilidade, laboratório utilizado, idade do homem e, o mais importante, a idade da mulher.

"As taxas da fertilização in vitro variam em cerca de 50% nas mulheres com menos de 35 anos até menos de 10% em mulheres com 44 anos, e cai drasticamente após essa idade. A inseminação intra uterina, por ser um tratamento mais simples, tem menores taxas de gestação, variando em torno de 10% a 20%", diz a especialista - ou seja, não é tão certeiro que a personagem Stela engravide na primeira tentativa.

Todos os casais com indicação de inseminação artificial podem optar pela fertilização, devido às maiores taxas de gestação alcançadas. No entanto, aqueles com indicação específica de FIV não têm outra opção de tratamento. "A indicação do tratamento a ser realizado depende do fator de infertilidade de cada casal, que deve ser indicado por um especialista", observa Karina.

● A inseminação pode ser indicada em casos de: mulheres com ciclos anovulatórios (ovários não liberam um óvulo durante ciclo menstrual), fator masculino leve, distúrbios de ereção ou ejaculação, endometriose leve, uso de sêmen de doador ou sêmen congelado anteriormente e quando não foi possível identificar a causa da infertilidade do casal. As trompas precisam estar em pleno funcionamento.

● A fertilização é o único tratamento quando há fator masculino grave ou obstrução das trompas. É indicado após falha de tratamento de baixa complexidade (3 ciclos sem sucesso), se for realizado com óvulos doados, útero de substituição, casais sorodiscordantes (quando um dos parceiros convive com o vírus HIV e o outro, não), endometriose grave, baixa reserva ovariana e para gestar oócitos congelados previamente.

Riscos X recuperação

Os riscos da inseminação são praticamente inexistentes, exceto o fato de gestação gemelar (gêmeos). A fertilização, por sua vez, inclui na lista de possibilidades: síndrome de hiperestímulo ovariano, sangramento durante a punção ovariana, infecção (cerca de 0,1% a 3%), lesão de estruturas pélvicas, dor pélvica e abdominal leve a moderada, de acordo com a ginecologista Karina.

A recuperação também difere: a mulher que for submetida à inseminação deve permanecer em repouso por cerca de 20 minutos depois da intervenção, sendo liberada na sequência para retomar suas atividades, sem qualquer restrição. Já quem passa pela fertilização, após a punção ovariana e a transferência de embriões, precisa de repouso por 24 horas e evitar atividades cansativas após a transferência do embrião.

Para saber se os tratamentos deram certo, o teste de gravidez deve ser realizado 12 dias pós-transferência do embrião na fertilização in vitro e 14 dias depois da inseminação. Assim que a mulher engravida, a gestação evolui como qualquer outra, independentemente da forma como foi obtida.

"A taxa de aborto espontâneo após a fertilização in vitro é semelhante à taxa após a concepção natural. Existe um pequeno risco de 1% de uma gravidez ectópica (tubária) na FIV. No entanto, essa taxa é semelhante a mulheres com história de infertilidade", afirma Karina.

Custa caro?

Sim, bastante, podendo superar a casa dos seis dígitos, no tratamento de alta complexidade. O custo depende de três fatores: medicamentos, honorários médicos e laboratório. Existem clínicas de baixo custo que fornecem tratamentos com valores mais acessíveis à população, mas há poucos serviços do governo onde o custo é zero, como mostrou reportagem recente de Universa. Planos de saúde não cobrem tratamentos de reprodução assistida