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Não é mimimi: as frases racistas que as mulheres negras ouvem no Tinder

Elisa Soupin

Colaboração para Universa

22/03/2019 04h00

Dar um match com alguém sem noção no Tinder, ser interpelada de uma forma desagradável, escutar alguma coisa babaca: que mulher nunca passou por isso? Mas, para as negras, o repertório de abordagens agressivas, invasivas e indiscretas é muito pior e mais grave.

Confira histórias de meninas negras que passaram por constrangimento e sofreram preconceitos, em apps e na vida real, e tente dizer que racismo é mimimi.

É verdade que as negras são as rainhas do sexo anal?

Antes de um "Oi, tudo bem?", essa foi a frase que a analista de marketing Rafaela Siqueira, de 26 anos, leu quando deu um match no Tinder. Descombinou na hora. Com outro boy, que também conheceu no app, ela teve um encontro onde estava tudo indo bem até que ele disse: "Você é bem pretinha, né, mas é bonita, com esse bocão", ela acabou desistindo de usar um app por se sentir objetificada como experiência preta para os caras.

Nossa, você é uma negra linda. Eu nunca transei com uma negra

Ana Carolina Lopes: disseram que ela era uma "negra linda" - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Ana Carolina Lopes: disseram que ela era uma "negra linda"
Imagem: Arquivo Pessoal

Também no Tinder, a cozinheira carioca Ana Carolina, de 29 anos, leu a frase de um homem branco com quem tinha acabado de dar match. A forma de começar uma conversa, infelizmente, não é novidade para ela: "É muito comum essa fetichização do corpo da mulher negra. Acontece tanto que tem até como denunciar no Tinder. Eu ignoro, bloqueio, deixo falando sozinho", afirma, categórica. Enquanto isso, escolhe continuar sozinha "Não quero um príncipe, mas tenho critérios e sou muito bem resolvida com ser quem eu sou e estar só", afirma.

Qual a cor da sua vagina?

Aparecida de Jesus: "Eles dizem: como faz para te comer?" - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Aparecida de Jesus: "Eles dizem: como faz para te comer?"
Imagem: Arquivo Pessoal

A produtora Aparecida de Jesus, de 29 anos, conta que, desde que instalou o Tinder, já tomou precauções para evitar abordagens agressivas. "Como são as coisas, eu só coloco foto do meu rosto, sorriso, foto engraçadinha, nada de mostrar muito o corpo". O cuidado não a poupou da falta de noção alheia.

"Eu só percebi que a abordagem era muito diferente comigo quando comecei a conversar com amigas brancas e elas diziam 'ah, tal cara, me chamou pra tomar um café, me chamou pra jantar'. Já comigo é assim: perguntam a cor das minhas partes, se eu faço sexo anal, como faz pra me comer, tipo, nem conversam comigo", relata ela, que conta que é abordada, majoritariamente, por caras brancos.

Nossa, mas você tem um cargo de coordenação?

A administradora Adriana Barra, de 28 anos, coleciona descombinações no Tinder. "Os caras geralmente não dão nem oi. Apenas falam que sou gostosa, ou que tenho seios lindos, coisas bem idiotas. Desfaço o match sem nem responder porque não sou obrigada", conta.

Quando a conversa desenrola, mesmo assim, os preconceitos continuam.

"Os caras ficam surpresos por eu morar sozinha e ser independe financeiramente. Muitos não acreditam que eu tenho um cargo de coordenação. Além disso, eu frequento mais bairros do centro e zona sul do Rio, mas percebo claramente que quando estou na Zona Norte (área menos nobre da cidade), por algum motivo, tenho muitos mais matches com pessoas de comunidades", conta. Ela afirma que isso não é um problema, mas o que Adriana sente é que nas áreas mais abastadas, seu perfil não desperta o mesmo interesse.

As negras têm mais necessidade de sexo

Rachel Xexéu: o preconceito vinha do próprio namorado - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Rachel Xexéu: o preconceito vinha do próprio namorado
Imagem: Arquivo Pessoal

O racismo acontece, inclusive, em um relacionamento estável. A publicitária Rachel Xexéu, de 27 anos, se relacionou um ano com um homem branco e sofreu muito com acusações infundadas de ciúme por conta de sua cor.

"Ele era da capoeira, lia tudo sobre cultura preta e que dizia para mim que tinha medo de eu traí-lo, e que, por ser preta, eu era viciada em sexo. E que negras são geneticamente mais propensas a serem infiéis, porque precisam de mais sexo do que mulheres brancas. Que ele estava sendo corajoso em assumir uma mulher preta sabendo do risco que corria", relembra ela, que hoje não mantém mais nenhum contato com esse ex. "Qualquer diálogo com ele é energia perdida, prefiro falar com outras mulheres sobre o assunto"



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