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"Mimimi" e mais: no BBB, Rodrigo lista palavras que desqualificam o racismo

Rodrigo conversa com os brothers sobre racismo - Reprodução/GloboPlay
Rodrigo conversa com os brothers sobre racismo Imagem: Reprodução/GloboPlay

Ana Bardella

Colaboração para Universa

26/02/2019 04h00

Assim como Gabriela, o participante Rodrigo, do BBB, vem dando importantes lições sobre o racismo durante o programa. Em recente conversa sobre o assunto, alertou para os perigos da adjetivação. "Existem termos, e vocês sabem quais são, que servem para silenciamento", disse. Entre os exemplos listados pelo cientista social estão "mimimi", "radical" e "extremista". "Aqui nunca me chamaram, mas já me trataram no eufemismo e eu sei que por trás significava isso", desabafou.

De acordo com Ellen Moraes Senra, psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental, o silenciamento ao qual Rodrigo se refere é um mecanismo recorrente na sociedade. "Ocorre quando alguém minimiza a queixa e os sentimentos do outro por se sentir incomodado pelo tema", explica. "As pessoas não querem ouvir sobre racismo, então usam alguns termos a fim de que os indivíduos que lutam por essa causa se sintam invalidados e não voltem mais a falar sobre o assunto", detalha.


"Mimimi" e "vitimismo"

"A expressão 'mimimi' é uma das mais ofensivas que temos na atualidade", opina a profissional. Segundo a psicóloga, o intuito de quem a utiliza é fazer parecer que o outro está "de frescura", "de palhaçada", desqualificando seu discurso e ridicularizando o seu ponto de vista - e, por isso, se torna uma ofensa direta.

"Outra expressão utilizada de forma recorrente para tentar invalidar o ponto de vista do outro, principalmente nas questões raciais e de gênero, é o 'vitimismo'. Apesar de muita gente não se dar conta, seu uso é extremamente delicado. Trata-se de uma acusação de que o outro está se fazendo de vítima e de que não tem motivos suficientes para ocupar esse papel. No entanto, é preciso lembrar que a visão de uma vítima nunca é igual a visão do seu algoz", alerta a profissional.

 "No caso do racismo, é muito pouco provável que o indivíduo que está reclamando nunca tenha sido alvo ou, pelo menos, presenciado uma situação do tipo, uma vez que este é um problema estrutural do país", relembra. 

 "Extremista" e "radical"

Gabriela se sentiu incomodada no jogo quando foi chamada de "extremista" por Maycon. "É muito normal acusarem as mulheres negras de serem nervosas, bravas", reclamou. Na visão da percursionista, o rótulo atinge não somente a ela, mas a todas aquelas que se levantam contra o racismo. Ellen comenta: "Nas questões étnico-raciais, tais expressões acabam contribuindo para a manutenção do racismo na sociedade. Sem assumir que o outro tem razões para se sentir ofendido e alegando que se trata de um exagero, eu dou a mim mesmo e aos outros o direito de continuar agindo da mesma maneira", detalha. 

Consequências emocionais 

"Costuma doer muito ser desqualificado dessa forma após desabafar sobre uma situação de preconceito. Até porque o processo de falar não é tão simples. Muitas vezes, o racismo ou machismo aparece em momentos nos quais a pessoa não está preparada. É preciso internalizar e processar a informação para responder à altura adequadamente. Mas, se depois de desabafar, a crítica não for compreendida, o mais provável é que isso desperte a sensação de que você não pertence àquele lugar, de que as pessoas que ali estão não compreendem a sua essência", esclarece a psicóloga. "Muitas vezes, pessoas negras sentem que estão diariamente lutando para provar que podem ocupar o lugar que ocupam. Isso gera dor e revolta", finaliza. 

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