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"Não me vejo como homem nem mulher": quem são as pessoas não binárias?

Bryanna Nasck - quem são os não binários - Reprodução/Instagram
Bryanna Nasck - quem são os não binários Imagem: Reprodução/Instagram

Jacqueline Elise

Da Universa

15/02/2019 04h00

Dez anos atrás, a produtora de conteúdo Bryanna Nasck, 24, ainda se via como um garotinho gay. Entretanto, parecia que só reconhecer sua sexualidade não era o suficiente. Com o passar do tempo, ela notou que sua questão não era de orientação sexual (por quem ela se atraía), mas de identidade de gênero (quem ela era)

A história de Bryanna é parecida com a de muitas pessoas transgênero --que não se identificam com o gênero designado a elas no nascimento. Mas tem um diferencial: hoje, ela se define como uma mulher trans não binária. A não binariedade é quando alguém não se vê totalmente nem como homem nem como mulher. Mas, na prática, como é ser uma pessoa não binária?

"Ser não binário é estar fora da identificação completa com algum gênero, por isso que eu sempre reforço que sou assim. Existem nuances, mas as pessoas ainda têm uma referência muito forte da imagem do homem e da mulher, e tentam sempre colocar as pessoas dentro destas caixas", diz Bryanna. "Dizer que sou mulher trans é trazer ao mundo como é ser eu da forma mais simples possível. O 'não binária' estende a conversa, fala sobre estereótipos de gênero e como somos mais complexos do que imaginamos".

Com 16 anos, já envolvida na militância, ela falou com uma amiga trans sobre essas dúvidas. "Eu me identificava com nuances de uma mulher trans, mas aquilo não me contemplava por completo. E ela me disse: 'Amiga, você é genderqueer [não binária]'. Eu fiquei pensando: 'Que porra é essa?', e fui pesquisar. Fiquei chocadíssima, porque era tudo que eu sempre senti na vida e tinha mais pessoas se identificando assim, então por que ninguém fala mais sobre isso? Fui me munindo de informação por mais de dois anos e foi aí que fiz meu primeiro vídeo falando sobre o assunto", conta. Bryanna publicou o depoimento no YouTube, onde mantém um canal em que fala sobre gênero e a própria vida.

"Gênero é como uma gradação cromática"

O designer de games Nicholas Aboud, 28, descobriu a não binariedade através do amigo de um ex-namorado. "Lembro de ter visto um vídeo compartilhado por ele com pessoas não binárias, e as entrevistas responderam algumas dúvidas que eu tinha desde os 19 anos", lembra.

Atualmente, Nicholas se identifica como pessoa trans não binária, e prefere usar pronomes masculinos. Ele relata um "conforto" ao perceber que não estava sozinho nessa. "Não era só um 'esquisito' incapaz de se enquadrar no que a sociedade, de modo em geral, esperava de alguém designado mulher ao nascer. Eu poderia parecer um rapaz, não tinha que ficar preso à ideia de feminino ou masculino para ter o respeito e o carinho dos meus amigos e irmãos".

Para explicar às pessoas sua identidade de gênero, ele faz a seguinte comparação: "É como uma gradação cromática. Entre o azul e o amarelo têm diversas cores. É assim que gênero funciona, ou deveria funcionar, já que é uma questão social, e não uma questão de genitais", conta Nicholas.

Ser não binário é uma questão de gênero e de política

O psicólogo, terapeuta e educador sexual Breno Rosostolato explica que a não binariedade é uma identidade trans por questionar os padrões de gênero, ou seja, ela não se enquadra completamente no masculino nem no feminino. "A gente percebe, conforme vamos falando mais sobre gênero, que as discussões sobre o assunto se esvaem ou são enfraquecidas porque, hoje, tem muita pluralidade e diversidade. A não binariedade busca não se enquadrar nos extremos, e muitos se enxergam como fluidos: ora se sentem de um jeito, ora de outro", diz.

Quando se fala sobre pessoas trans, a primeira dúvida é sobre o corpo: questionam se a pessoa fará cirurgia ou pelo menos a terapia hormonal. Para os não binários, não existe regra: alguns querem fazer intervenções, outros, não.

"A não binaridade é um posicionamento político, uma contestação dos padrões. Se nem entre as pessoas trans a cirurgia é unanimidade, para os não binários é menos consenso ainda. É mais uma questão de expressão de gênero, de como a pessoa quer viver. Ela não quer ter uma imagem de gênero muito óbvia na sociedade", explica Rosostolato.

Mas, se alguém se identifica como não binário, ela deve ser tratada no feminino ou no masculino? Neste caso, o especialista diz que o ideal é perguntar qual a preferência da pessoa, e o mais importante é respeitar sua decisão.

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