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Congresso, Miss Universo, Vaticano: os avanços nos direitos LGBT+ em 2018

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Imagem: Getty Images/iStock

Mariana Gonzalez

Da Universa

19/12/2018 04h00

O movimento LGBT+ existe no mundo inteiro -- mas enquanto alguns países elegem uma parlamentar bissexual, como os Estados Unidos, há nações que tiveram sua primeira parada neste ano, porque a relação entre pessoas do mesmo sexo ainda é ilegal, como a Suazilândia

No Brasil, gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros terminaram o ano preocupados com as propostas do presidente eleito -- tomando medidas, como adiantar casamentos com medo do "efeito Bolsonaro".

Fato é que, em 2018, houve avanços importantes conquistados por essa população -- na política, no entretenimento e até mesmo na Igreja Católica. 

Em junho deste ano, a população LGBT+ comemorou (finalmente!) a decisão da OMS de retirar a transexualidade da lista de transtornos mentais. Meses depois, a união homoafetiva foi reconhecida patrimônio cultural pela Unesco.

Relembre estas e outras boas notícias que demos em 2018:  

No entretenimento

Beijo gay em "Malhação" 

Em temporadas passadas, a novela adolescente "Malhação" já havia retratado casais homoafetivos e temas relacionados à comunidade LGBT+.

Em setembro, a série exibiu pela primeira vez um beijo entre dois meninos, os personagens Michael (Pedro Vinícius) e Santiago (Giovanni Dopico).

Em 2017, "Malhação" mostrou o primeiro beijo entre duas meninas: Lica (Manoela Aliperti) e Samanta (Giovanna Grigio). 

Casamento gay na família real

Além do casamento real do príncipe Harry e de Meghan Markle, em maio, e da união entre a princesa Eugenie e Jack Brooksbank, em outubro, a família real celebrou o enlace de Lorde Ivar Mountbatten e James Coyle -- isso mesmo, dois homens!

Ivar é primo da rainha Elizabeth 2ª e disse "sim" ao companheiro de dois anos, em setembro. Na cerimônia, estavam presentes suas três filhas e sua ex-mulher, que o apoiou quando ele revelou ser bissexual, após 16 anos de casamento. 

Trans eleita Miss Espanha e candidata a Miss Universo

A modelo Angela Ponce foi a primeira mulher transgênero eleita Miss Espanha, em junho. Com a vitória, ela se tornou, consequentemente, a primeira trans a competir no concurso Miss Universo.

A decisão final aconteceu no dia 16 de dezembro, na Tailândia, quando a coroa foi entregue à candidata filipina, Catriona Gray.

Apesar de não ter conquistado uma colocação no top 20 do concurso, a espanhola, de 23 anos, foi a preferida entre os apostadores e deixou o palco ovacionada pelo público.

"Mulheres trans têm sido perseguidas e apagadas há tanto tempo. Se me derem a coroa, mostrarão às mulheres trans que elas são tão mulheres quanto as mulheres cis", disse a candidata, em entrevista à "Times", na semana anterior ao concurso.

Casamento lésbico em "Steven Universe" 

A conscientização sobre a diversidade sexual é importante desde que somos crianças, certo? Ciente disso, o canal norte-americano Cartoon Network exibiu o primeiro casamento LGBT da história da televisão infantil em um de seus desenhos animados. 

As personagens Rubi e Safira, de "Steven Universe" disseram "sim" no episódio intitulado "Reunidos", que foi ao ar pela primeira vez em julgo deste ano. 

Reprodução/Cartoon Network
Imagem: Reprodução/Cartoon Network

Drags em desenho animado

Em novembro, a Netflix estreou sua primeira animação "adulta" protagonizada por um grupo de super-heroínas drag queens -- uma delas, aliás, dublada por Pabllo Vittar. 

A produção para maiores de 16 anos estreou depois de uma série de polêmicas envolvendo a Sociedade Brasileira de Pediatria que, dias antes, emitiu um comunicado nas redes, mostrando preocupação com a abordagem de temática adulta em um desenho animado. 

Recorde de representatividade

Um levantamento da GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation) notou que, em 2018, a comunidade LGBT+ bateu recorde de representatividade na televisão norte-americana, representando 8,8% dos personagens regulares.

E, segundo a mesma pesquisa, pela primeira os brancos são minoria entre os LGBTs representados em filmes e séries. O GLAAD deu destaque às produções "Supergirl", "Batwoman" e "Pose".

Na religião

Casamento coletivo e evangélico

Em outubro, a Igreja Evangélica Cidade do Refúgio, no Rio Grande do Norte, realizou um casamento coletivo com pelo menos 11 casais homoafetivos.

A ideia foi das fundadoras da organização religiosa -- Lanna Holder e a mulher, Rosania Rocha -- e foi celebrada pela pastora Daniela Modesto, que também é casada com uma mulher.

Apoio da maioria dos católicos 

Um estudo publicado em outubro pela campanha Equal Future 2018 constatou que 63% dos católicos são favoráveis ao acolhimento de fiéis gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros e travestis nas igrejas.

Entrevistadas em oito países, entre eles o Brasil, essas pessoas declararam concordar que "a Igreja Católica deveria reconsiderar seus ensinamentos atuais sobre questões LGBT+ para ajudar a apoiar a saúde mental e o bem-estar de crianças e jovens".

Vaticano reconhece o termo "LGBT" 

Em um texto sobre a relação da Igreja Católica com a juventude (em italiano) publicado em setembro, o Vaticano usou pela primeira vez o termo "LGBT" para se referir aos jovens homossexuais que "buscam mais proximidade e solidariedade através da igreja".

O documento foi publicado depois de algumas singelas mudanças, como em 2013, em que o papa Francisco foi o primeiro a usar a palavra "gay" e há três meses, quando ele disse a um homem homossexual que sua sexualidade "não importava" e que "Deus o fez assim e o ama assim".

Na política 

Mais LGBTs candidatos

Nas eleições de 2018, houve aumento significativo de candidatos LGBT a cadeiras nas Câmaras estaduais e no Congresso Nacional: 386% a mais que na última disputa, em 2014.

Segundo o levantamento, mais de 20% da lista é filiada ao PSOL, em seguida vem o PT, com 16% e PCdoB, com 13%, sendo o Sudeste a região com maior atuação de gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros e travestis. 

Entre eles, se destacaram a candidata a deputada federal Tiffany Abreu, a primeira atleta transgênero brasileira a competir em um time feminino no vôlei; e Érica Malunguinho, primeira mulher trans e negra eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo. 

O resultado? Mais LGBTs ocupando cargos políticos no Brasil a partir de janeiro de 2019. 

Presidente da Costa Rica

Em abril, a Costa Rica ganhou um novo presidente -- e uma segunda bandeira. 

Carlos Alvarado Quesada foi eleito em segundo turno com vitória sobre Fabricio Alvarado Muñoz graças a sua principal promessa: permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo no país da América Central.

Senadora bissexual nos Estados Unidos

Pela primeira vez na história, uma mulher declaradamente bissexual foi eleita senadora nos Estados Unidos.

Em 2019, a democrata Kyrsten Sinema vai ocupar uma vaga no Senado Federal representando o estado do Arizona, que é fortemente republicano. Ela, aliás, é a primeira democrata eleita pela região desde 1994. 

Príncipe gay na Índia

Manvendra Singh Gohil é príncipe de um país em que relações entre pessoas do mesmo sexo são ilegais -- mesmo assim, ele não só mantém aberta sua orientação sexual como abre as portas do palácio para outros homossexuais

Gohil é o herdeiro do trono de Rajpipla, no oeste do estado de Gujarat, e está construindo um espaço dedicado aos LGBTs expulsos de casa. 

"As pessoas ainda enfrentam muita pressão de suas famílias quando se assumem e são obrigadas a se casar ou são expulsas de suas casas. Elas geralmente não têm para onde ir, nenhum meio para se sustentar ", disse ele em entrevista à "Thomson Reuters". 

Na legislação

Transexualidade deixa de ser doença 

Em 2018, a transexualidade deixou de fazer parte da lista de transtornos mentais da Organização Mundial da Saúde. 

Esta conquista, oficializada em junho, se deu 28 anos depois que a homossexualidade deixou de ser reconhecida como doença, em 1990. 

Agora, a transexualidade não pertence mais à lista de transtornos mentais, que inclui, por exemplo, a cleptomania e pedofilia, e passa a figurar como "condição relativa à saúde sexual", a fim de incentivar a oferta de políticas públicas de saúde para transexuais. 

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Legalização do "terceiro gênero"

Nos estados americanos de Nova York e Washington, bem como na Alemanha, é possível registrar uma criança sem se referir a ela como "menino" ou "menina" na certidão de nascimento.

A novidade facilita (e muito!) o processo de mudança dos documentos de pessoas transgênero já adultas. 

No Canadá, em maio, o chamado "gênero X", ou neutro, passou a integrar os censos oficiais. Isso quer dizer que cidadãos canadenses não precisam mais se identificar como "masculinos" ou "femininos". 

Pedido de desculpas na Argentina

Pessoas LGBTs que sobreviveram à ditadura argentina, entre 1976 e 1983, conquistaram um pedido de desculpas histórico do governo, em dezembro. 

Emitido pela província de Santa Fé, o comunicado se dirige especialmente a pessoas transgêneros -- muitas foram presas e torturadas. "Éramos considerados criminosos, sub-humanos, porque usávamos roupas de mulher", disse Noelia Trujullo, presa aos 16 anos, à "Thomson Reuters". 

Primeira parada LGBT+ na Suazilândia

O país foi a última monarquia absolutista da África e, até hoje, mantém leis que tornam ilegais as relações entre pessoas do mesmo sexo. 

Mesmo assim, um grupo de cerca de 500 pessoas se reuniu para organizar a primeira parada do orgulho LGBT+ da Suazilândia, na capital Lobamba, sob o lema "Transformemos o ódio em amor". 

Vale lembrar que na África Subsaariana, região que compreende 47 países, relações homoafetivas são permitidas em apenas 21 deles, como África do Sul, República Democrática do Congo, Chade, Ruanda e Costa do Marfim.

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