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Um homem gay pode ser misógino? Pode e a gente explica o porquê

Ser misógino não é privilégio de héteros - Getty Images/iStockphoto
Ser misógino não é privilégio de héteros Imagem: Getty Images/iStockphoto

Lucas Vasconcellos

Colaboração para Universa

10/12/2018 04h00

De repente, tomando uma cerveja, num momento descontraído, algum amigo seu, homem e gay, solta a frase: "Não nasci de parto normal para não ter contato com a vagina". Ou, ao se referir à vagina, ele compara o cheiro do órgão com o de um bacalhau. A cena até pode provocar risos, mas essas e outras tantas piadas não passam de brincadeiras misóginas.

Como assim, um homem gay, que ama e respeita suas amigas, pode ser taxado de misógino? A sociedade muitas vezes é condescendente com esse tipo de situação, justamente por colocar o homem gay em outra categoria, como se fosse menos homem do que um heterossexual.

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"As normas que permeiam o sexo dos indivíduos em nossa sociedade são muito rígidas e estabelecem uma continuidade entre sexo, gênero e desejo. Essas ações acabam por impor limites aos corpos e universalizar a heterossexualidade. Tudo aquilo que desvia dessa norma acaba sendo considerado menos legítimo", afirma a mestre em políticas públicas e direitos humanos Laura Ralola.

"Meninos não choram"

Certamente você já ouviu a frase acima. Ela é mais um exemplo da cultura patriarcal que pauta nossa sociedade desde que o mundo é mundo. E, independentemente de com quem um homem gay se relaciona amorosa e sexualmente, ele também foi criado como um homem -- e com isso, vêm vários privilégios masculinos.

Na cultura do macho, tudo aquilo que é feminino é tido como sinal de fraqueza. Logo, homens gays também foram ensinados a ter aversão ao que é feminino -- ou seja, misoginia.

E é por essa linha que esse tipo de piada, assim como aquelas envolvendo menstruação, para citar apenas alguns exemplos, mesmo feitas por um homem gay que defende suas amigas com unhas e dentes caso seja preciso, não devem ser aceitas.

"Esse é o tipo de coisa que o mundo ensina todos os dias. Vivemos em uma sociedade que mata, invade, oprime e zomba das mulheres. O machismo e a misoginia, assim como o racismo e a LGBTfobia, é um problema estrutural da sociedade e precisa ser visto assim para, de fato, ser desconstruído", reforça Ralola.

Ninguém está dizendo que um homem gay que faz esse tipo de brincadeira é uma má pessoa. Só que nenhuma pessoa está acima do bem e do mal. Logo, assim como todo mundo, é preciso policiar o que se fala, seja em tom de brincadeira ou não.

"Sinceramente, não me interessa um humor a serviço desse sistema desigual vigente. Mesmo porque o humor deveria nos tirar do lugar comum e não há nada de novo nisso. Me interessa um humor pela transformação social, esse sim é desafiador, potente e muito mais difícil de fazer do que os que assistimos comumente de uns "engraçadinhos" por aí", diz a pesquisadora.

Se pintar a dúvida sobre quando é hora de parar, a dica está no documentário "O Riso dos Outros", disponível no YouTube. Na obra, o deputado federal Jean Willys ressalta: "Em nome da liberdade do humor, a gente não pode achar que toda piada é válida. Existem outras maneiras de fazer rir sem humilhar os outros".

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