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Movimento feminista investe no pornô ético alternativo

Cineastas como Erika Lust propõem um pornô feminista - Reprodução/ Erikalust.com
Cineastas como Erika Lust propõem um pornô feminista Imagem: Reprodução/ Erikalust.com

da AFP, em Berlim

30/12/2018 09h04

Um sexo ético, diversificado e mais igualitário é o objetivo imposto pelas cineastas feministas, que usam a produção pornô alternativa como instrumento de emancipação política e sexual contra as produções em massa livres e estereotipadas que abundam na Internet.

Nem seios cheios de silicone, nem machos alfa: geralmente mais realistas, as cenas sexuais entre os protagonistas, de gêneros variados, baseiam-se exclusivamente no consentimento.

Os primeiros passos desta corrente remontam aos anos 1980 nos Estados Unidos. Mas agora, lança um novo olhar sobre a enorme quantidade de vídeos de baixo custo que povoam a Internet e o debate que eles levantam, por causa do impacto que podem ter na sexualidade, especialmente entre os jovens.

"O pornô feminista é parte de um tipo de combate contra a misoginia no mesmo campo e com as mesmas armas que o mainstream X".

A reapropriação do meio pornográfico proclama: não vamos deixar isso apenas nas mãos dos homens", declara à AFP a diretora e ex-atriz francesa Ovidie, 38 anos, que participou recentemente de um festival especializado no setor em Berlim.

Os filmes tradicionais para adultos "sempre seguem o mesmo tipo de coreografia com quase sempre os mesmos papéis para cada gênero: os homens sempre dominam as mulheres", acrescenta Ovidie, que lidera o movimento na França.

Em seu "Sex Stories(s)" ou "X-Girl vs. Supermacho", as mulheres não são mais relegadas ao status de objetos. Pelo contrário, eles decidem como as coisas acontecem.

Feminista, não feminino

Para ser "feminista" e não "feminina", um termo criticado por essas militantes, pois designaria uma sexualidade específica das mulheres, essas produções devem atender a vários requisitos.

Além da representação dos desejos "de todos os sexos", incluindo os homens, "reduzidos apenas ao seu pênis na pornografia tradicional", os protagonistas devem ter "físicos e culturas variados", segundo a linguista alemã e especialista no movimento, Laura Meritt.

Nessas produções, acrescenta-se uma abordagem educacional, com o uso obrigatório do preservativo, e ético, oferecendo "condições de trabalho baseadas no consentimento, onde todos podem decidir se realizam ou não determinadas práticas", afirma.

A diretora americana Jennifer Lyon Bell, formada em Harvard há 49 anos, lançou em 2004 a companhia "Blue Artichoke Films", especializada na produção de filmes "que pintam a sexualidade de maneira emocionalmente realista".

Além disso, ela defende o "feminismo pró-sexo" que surgiu nos Estados Unidos há quase quatro décadas, segundo o qual a sexualidade é o terreno onde as mulheres devem conquistar sua emancipação.

Diante disso, outra corrente feminista atual, abolicionista, denuncia a mercantilização e o compromisso com a indústria do sexo.

"Tem poucas relações com a indústria mainstream. Os festivais e modos de renda são diferentes, são círculos que raramente se cruzam", responde Lucie Blush, cineasta francesa de 30 anos.

Para o setor, que não considera "essas produções como concorrentes", o mercado ainda não é lucrativo porque "as mulheres dificilmente decidem ver filmes censura X", segundo Grégory Dorcel, gerente da Marc Dorcel, um dos líderes do cinema mundial X.

Subvenções públicas

Essa corrente teria um verdadeiro potencial comercial diante das produções gratuitas em massa? Desde 2006, festivais dedicados a este gênero foram realizados em todo o mundo. O maior da Europa, que acontece em Berlim, atraiu 10 mil visitantes este ano.

Mas essas produções pornográficas "éticas" ainda são "uma gota no oceano da pornografia online", diz Camille Emmanuelle, jornalista e escritora especializada em questões de sexualidade.

Na ausência de difusores, seu modelo baseia-se em um sistema de assinatura, embora "as pessoas, e especialmente os jovens, estejam acostumados ao pornô gratuito".

Neste contexto, algumas autoridades públicas começaram a apoiar o setor. O Swedish Film Institute em 2009 foi pioneiro com uma série de 12 curtas-metragens feitos por feministas e produzidos por Mia Engberg.

Na Alemanha, os social-democratas de Berlim, que cogovernam a cidade, chegaram a propor que essas produções servissem de apoio educacional aos jovens.

"Seria formidável se essa pornografia alternativa, que mostra o sexo de uma maneira diferente, pudesse ser facilmente acessível e gratuita, como os X clássicos", afirma Ferike Thom, chefe do SPD de Berlim e autor da proposta.