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Racismo: a linha que une Gustavo Rocha e Matheus Massafera ao Carrefour

Carol Tilkian e André Lage

sobre os colunistas

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

Colunista do UOL

23/11/2020 10h36

Dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Em vez de comemorar os avanços na luta antirracista, nos deparamos com a realidade de mais uma pessoa morta pela sua cor de pele. João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, foi espancado e morto por dois seguranças de uma loja do supermercado Carrefour em Porto Alegre. É chocante, é inaceitável e é revoltante ver que, apesar de todas as manifestações e discussões sobre o racismo em 2020, parece que pra algumas empresas e indivíduos as vidas negras [de fato] não importam.

Essa é a ponta mais cruel e visível da violência causada pelo racismo, que obviamente tem que ser combatida diariamente e punida, mas lendo essa notícias só conseguia lembrar da recente polêmica das falas racistas envolvendo Matheus Massafera e Gustavo Rocha. Pra quem não sabe, em uma conversa no canal de Matheus, eles falavam sobre o tipo de boys que gostavam e concordaram sobre uma coisa: ambos se atraíam pelos "malocas" ou "estragados" como "Mc Kevin", mas acabavam namorando um padrãozinho do estilo "Luciano Huck".

Claro que não estou dizendo podemos comparar a gravidade das situações. Uma coisa é um comentário racista e outra coisa é uma morte. Mas acho que na luta antirracista, precisamos olhar pra dentro de cada um e perceber onde o racismo se esconde, porque só resolvendo internamente os pensamentos e atitudes racistas vamos conseguir resolver a violência externa que atinge 56% da população brasileira.

A objetificação do corpo negro

Eu não estou aqui pra pedir pra cancelar o Matheus e o Gustavo, nem pra apontar como crápulas. Eles sabem que erraram, pediram desculpas mas a fala deles é só mais um exemplo de preconceitos. A velha separação entre quem é "pra pegar" e quem é "pra casar", o lugar onde o machismo e o racismo se encontram.

No Soltos S.A. já ouvimos inúmeros relatos de mulheres e homens negros que são colocados nessa categoria de fetiche, como se fossem destinados apenas pro sexo, mas nunca pro afeto. Essa é a faceta do racismo na vida amorosa e é extremamente violenta porque gera solidão e um peso enorme na saúde mental das pessoas negras.

Certa vez estava trabalhando ao lado da modelo Ana Patrocínio e ela me contou sobre a sua adolescência. Ela foi bolsista em uma escola de classe média onde era a uma das poucas mulheres negras estudantes. Enquanto todas suas colegas brancas eram cheias de admiradores e estavam sempre nas listas de "mais bonitas" da classe, ela e as colegas negras estavam sempre solitárias, preteridas ou, quando chamavam atenção era através da hipersexualização de seus corpos, nesses quesitos da vida social pré-adolescente. O mesmo ocorria com os colegas homens negros. O efeito de anos e anos sofrendo tais experiências tem um efeito muito negativo na saúde mental de mulheres e homens negros.

"Questão de gosto"?

Muita gente alega que não podemos mandar no nosso desejo e que nos sentimos atraídos por tal tipo e não por outro. Mas, apesar de ser profundo defensor das liberdades individuais, também acredito que a macroestrutura da cultura molda nossos gostos e que temos a responsabilidade de nos questionar de por que nosso gosto é como é.

Para refletir sobre essa formação e sobre o peso da vida amorosa para as pessoas pretas, recomendo fortemente que você assista a entrevista com o querido Murilo Araújo no nosso YouTube. Murilo diz que nós não fomos (enquanto sociedade) educados pra perceber as pessoas pretas como "merecedoras de afeto, humanas e inteiras que vão muito além do estereótipo. Não é sobre ter um olhar de piedade e sim sobre HUMANIZAR as pessoas, é sobre enxergar essas pessoas como dignas e que são aptas pra viver qualquer tipo de relações afetivas".

E por onde eu, pessoa branca, começo?

Não estou dizendo que você tem que começar a namorar amanhã uma pessoa preta para vencer o racismo dentro de si, mas é de se questionar porque nós, pessoas brancas, sempre projetamos namorados ou maridos brancos. Se de fato o gosto é uma coisa tão pessoal, porque todo mundo deseja sempre um padrão parecido de beleza?

Essa ideia sobre o que é belo e quem é pra casar foi formatada durante décadas por uma cultura racista e é um mecanismo invisível de perpetuação do racismo. Precisamos desmontar o racismo internalizado que faz com que muita gente diga (ou só pense) coisas parecidas com o que Matheus e Gustavo disseram. E não estou me tirando desse grupo não! Luto diariamente com o racismo que existe dentro de mim e o primeiro passo é reconhecer a existência dele. Depois, uma vigilância constante porque se a gente não ficar de olho, ele sempre cresce, como uma erva daninha.

Como disse Angela Davis, em um país como o Brasil "não basta não ser racista, é necessário ser antirracista". Precisamos trabalhar ativamente pra povoar o nosso imaginário e nossas vidas de pessoas pretas sendo maridos, namorados, amigos, colegas de trabalho, presidentes e até pessoas de quem discordamos.

Pra isso, começar por consumir cultura e conhecimento produzidos por pessoas pretas é um passo pequeno mas já começa a criar novas possibilidades. Se questionar, assistir filmes com protagonistas pretos, ler livros de autores pretos. Tudo isso é nosso dever como pessoa branca. Aos poucos, nossas referências vão mudando e minando de pouco a pouco essa fetichização do corpo negro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.