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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Partido de Bolsonaro quer convencer que ele apoia mulheres. Não vai colar

PL usa leis "femininas" sancionadas por Bolsonaro para combater rejeição                      - ISAC NOBREGA/PR
PL usa leis 'femininas' sancionadas por Bolsonaro para combater rejeição Imagem: ISAC NOBREGA/PR
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

28/06/2022 04h00

No fim de semana, a hashtag "Bolsonaro odeia as mulheres" chegou entre os assuntos mais comentados do Twitter. O principal motivo foi um vídeo do presidente na "Marcha para Jesus'' em Balneário Camboriú, Santa Catarina. Na cena, é possível ver Bolsonaro dizendo para a vice-governadora de Santa Catarina, Daniela Cristina Reinehr, do PL, partido do presidente: "fica para trás, meu Deus do céu!", rispidamente, enquanto caminha de mãos dadas com dois homens.

A vice-governadora negou que o presidente tenha sido grosso com ela. Mas, bem, ele é seu aliado político. E a fama (com motivos) de Bolsonaro como "odiador" de mulheres não é novidade. Como presidente, ele não se portou como aliado, de jeito algum. Muito pelo contrário. .

Bolsonaro, por exemplo, barrou a lei que dava o direito a mulheres em condições de miséria terem direito a absorventes. E ainda disse, na época: "foi na minha época que as mulheres começaram a menstruar"? Nesse caso, o veto foi derrubado pelo congresso. Ufa.

Em seu gabinete, Bolsonaro tem um total de 22 ministros. Só duas são mulheres.

Resultado de suas falas e atitudes antes e depois de ser eleito presidente: Bolsonaro tem uma enorme rejeição entre o eleitorado feminino. Segundo números da última pesquisa Datafolha, entre as mulheres, Lula tem 49% dos votos e Bolsonaro apenas 21%.

Por conta disso, seu partido e sua campanha estão desesperados tentando ganhar nossa simpatia e nossos votos. Para isso, segundo informações da "Folha de S. Paulo", o PL escalou duas deputadas de sua bancada para fazer um "apanhadão" das leis sancionadas por Bolsonaro que são ligadas a direito das mulheres, como se fosse um "pacote feminino".

Só tem um detalhe, que eles acham que ninguém vai perceber. Grande parte dessas leis não foi criada por aliados de Bolsonaro. A maioria dessas leis só existiu porque temos um parlamento que é formado por diferentes correntes.

Uma das leis que o PL pretende usar para atrair eleitoras mulheres é a Lei Mariana Ferrer, que proíbe o constrangimento às vítimas de crime sexual. Só que essa lei foi criada pela deputada Lídice da Mata, do PSB, partido de oposição a Bolsonaro.

Segundo os colunistas de política, o partido resolveu tentar dar o truque com esse pacote de leis depois que Michelle Bolsonaro não aceitou estar super presente na campanha, dando para o governo uma cara mais feminina.

Essa campanha, ou está perdida ou pensa que mulheres são burras.

Radicalismo antiaborto

Afinal, ao mesmo tempo em que seu partido tenta mostrar que "liga" para os direitos das mulheres, Jair Bolsonaro anda tomado por radicalismo contra o aborto, até em casos de estupro, o que a maioria dos brasileiros, principalmente as mulheres, se diz a favor.

Semana passada, ele condenou nas redes sociais o fato de uma menina de 11 anos, vítima de um estupro, ter tido acesso a um aborto legal (isso só aconteceu depois de sua mãe e ela própria serem torturadas emocionalmente por uma juíza). Em vários tweets, ele condenou o que chamou de "covardia contra uma alma inocente". Ah, e a menina teria que ter um filho aos 11 anos, é isso?

A maioria das mulheres discorda desse radicalismo, independente de suas preferências políticas. Isso é um fato que nos faz pensar em nossas filhas, sobrinhas e, claro, em nós mesmas quando éramos crianças.

A mesma reação de revolta tomou a população brasileira no fim de semana, quando a atriz Klara Castanho contou que foi vítima de um estupro, engravidou e entregou o filho para a adoção de maneira legal.

Klara só contou isso depois de ser pressionada por jornalistas de fofoca e comunicadores, entre eles, com destaque, estava a bolsonarista de carteirinha e pré candidata a vereadora pelo partido Republicanos, aliado de Bolsonaro Antonia Fontenelle. A maioria da população brasileira ficou ao lado de Klara, óbvio.

No mesmo dia, provavelmente por conta da derrubada da lei que garantia o aborto legal nos Estados Unidos, Bolsonaro postou uma foto em suas redes sociais segurando um bebê (os dois de azul, claro, meninos vestem azul, lembram?) com a mensagem: "Que Deus continue dando força e sabedoria para aqueles que protegem a inocência e o futuro de nossas crianças, no Brasil e no mundo."

Sim, Bolsonaro, as mulheres se preocupam com isso! E por isso mesmo não querem ver uma menina de 11 anos sendo obrigada a ter um filho de um estuprador, ou ver uma garota de 21 anos ser exposta por ter engravidado após um estupro.

Algo me diz que ser contra o aborto em casos de estupro, contra absorventes de graça para miseráveis e, ao mesmo tempo, tentar posar de amigo das mulheres não vai colar. Acham que mulher é trouxa?