PUBLICIDADE

Topo

Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Chico Buarque decide parar de cantar música machista. Merece aplausos?

Reprodução
Imagem: Reprodução
Conteúdo exclusivo para assinantes
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

27/01/2022 04h00

"Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto, pra você parar em casa, qual o quê. Com seu terno mais bonito, você sai, não acredito, quando diz que não se atrasa. Você diz que é um operário, sai em busca do salário, pra poder me sustentar."

Essas são as primeiras estrofes de "Com Açúcar, com Afeto", uma das tantas músicas maravilhosas de Chico Buarque. A história da canção continua em tom dramático, que, para mim, sempre foi irônico. O tal homem boêmio volta para casa de madrugada bêbado e a mulher da música não resiste: "Quando a noite enfim lhe cansa, você vem feito criança, pra chorar o meu perdão". "E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado, como vou me aborrecer? Qual o quê. Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro os meus braços pra você."

Essa música foi lançada em 1967 (sim, há 55 anos!). Eu amo essa música desde criança, mas obviamente ela não se encaixa nos tempos atuais. Hoje seria reconhecida como um exemplo de história de relacionamento abusivo. Como assim a mulher, depois de tudo isso, ainda vai "esquentar'' o prato de um homem? Eu, hein!

Não, nunca vou parar de amar essa canção. Inclusive, escrevo ouvindo no repeat e cantando junto. Mas que a música datou, datou. Isso é, inclusive, natural, já que a música tem mais de 50 anos. Acontece. Para mim, essa canção fica como uma memória até carinhosa dos homens da geração do compositor e do meu pai.

E Chico concorda com isso. Ele disse no documentário "O Canto Livre de Nara Leão" (Globoplay) que não canta mais essa música ao vivo. O motivo: ele escutou feministas, que acham o conteúdo da música extremamente machista, decidiu ouvi-las e deu razão a elas.

Nesse momento, tenho vontade de aplaudir de pé. Não é todo dia que um homem nos escuta. E, muito menos, que leva a sério o que a gente fala. Mas Chico provou que temos ainda mais motivos para sermos suas fãs. "Eu gostei de fazer (a canção). A gente não tinha esse problema (a crítica das feministas). É justo que haja, as feministas têm razão, vou sempre dar razão às feministas." É tão raro a gente ouvir um homem falar isso que até nos emocionamos.

Confesso que eu, pessoalmente, gostaria de ouvir essa música em um show (como qualquer outra, sou muito fã). Mas, será que faz sentido cantar uma música que datou desse jeito?

Ele acha que não — e eu concordo. "Elas (feministas) precisam compreender que naquela época não existia, não passava pela cabeça da gente que isso era uma opressão, que a mulher não precisa ser tratada assim. Elas têm razão. Eu não vou cantar 'Com açúcar, com afeto' mais e, se a Nara estivesse aqui, ela não cantaria, certamente". A música, para quem não sabe, foi feita a pedido de Nara Leão, que "encomendou" para ele uma música de "mulher sofredora"

A gente compreende que as coisas eram completamente diferentes em 1967, Chico. E agradece a sua consideração e admira a sua capacidade de se colocar no lugar das mulheres.

Não é censura!

Outros tempos

Nos últimos dias, quando o assunto veio à tona por causa da série, muitos estão tratando Chico como uma espécie de "vítima das feministas" (esses "seres" considerados por muitos como "malignos e capazes de coisas horríveis"). Mas não foi nada disso. Ele, Chico, tomou uma decisão.

Sim, homens são capazes de fazer isso sem serem pressionados (contém ironia). Ele escutou as mulheres, essa coisa tão rara e que a gente pede todos os dias. E se colocou no lugar de uma amiga, Nara Leão, que foi quem encomendou a música para ele. É simples assim.

Não é de hoje que Chico é conectado com as nossas lutas. Um amigo me mandou uma entrevista que o cantor deu em 1972 (há 50 anos!) para a jornalista Maria Lucia Rangel. Ali, ele fala sobre essas músicas com temática de mulher sofredora que produziu:

"Em geral as mulheres das minhas músicas são presas, ficam na janela. Não são independentes. É claro que faço tudo isso com uma dose de crítica."

Hoje, as mulheres são infinitamente mais independentes. Claro, 50 anos se passaram e as coisas mudaram. "Com Açúcar, com Afeto", apesar de linda, ficaria realmente estranha em um show.

Não se trata de censura. Trata-se apenas da atitude de um homem que, aos 77 anos, ainda ouve as mulheres mais jovens e é capaz de levar críticas em consideração. Ai, se todos fossem iguais a você, Chico...