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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Gorda engraçada' ou 'gostosa burra': esses estereótipos precisam acabar

A atriz Rebel Wilson perdeu cerca de 30 quilos na pandemia - Reprodução/Instagram
A atriz Rebel Wilson perdeu cerca de 30 quilos na pandemia Imagem: Reprodução/Instagram
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

09/12/2021 04h00

Desde crianças, estamos acostumadas com a personagem "gordinha engraçada". Ela é coadjuvante em muitas comédias adolescentes ou até em dramas infantis como "Carrossel", onde a menina Laura era uma romântica que sofria bullying.

A gordinha engraçada, em geral, é legal, amiga dos garotos ou uma fiel companheira da mocinha. Em alguns casos, a "gordinha" é substituída pela menina "feia", seja lá o que isso signifique.

Nos últimos tempos, essa personagem foi substituída também por mulheres gordas que precisam passar por jornadas de autoconhecimento para "se aceitarem", caso da comédia "Megarromântico", estrelada por Rebel Wilson, disponível na Netflix.

Pois Rebel, que também interpretou gordinhas engraçadas em filmes como "Trapaceiras", emagreceu 30 quilos durante a pandemia.

Essa foi uma decisão relacionada a sua saúde e devia ser problema dela e de mais ninguém. Mas, em entrevista à "BBC", ela afirmou que recebeu críticas em Hollywood por emagrecer e que foi avisada de que essa teria sido uma péssima escolha e que agora não conseguiria mais papéis.

Questionaram Rebel o motivo para tomar essa decisão. "Porque eu estava ganhando milhões de dólares sendo a garota gorda engraçada", respondeu a atriz.

Sim, esse é um nicho de mercado. E mulheres gordas ainda são retratadas na TV e no cinema como desajeitadas, românticas e super amigas dos caras. Elas não são mostradas como, sei lá, uma executiva, mãe de três filhos, que tem dificuldade de conciliar casamento e filhos, ou uma garota popular que muda para Paris. Atrizes ainda ficam presas a esse estereótipo, o que é péssimo.

E não, gordas não são naturalmente engraçadas, assim como as magras também não são. Existem as que são e as que não são e uma coisa não está conectada à outra.

Fora das caixas

Mas a dramaturgia se acostumou a colocar mulheres dentro de caixas. A mulher bonita e gostosa era burra, a "feia" é engraçada (e os programas de humor ainda as "enfeiavam" mais ainda).

Nenhum desses estereótipos é verdadeiro. Existem milhares de mulheres que são lindas, totalmente dentro do padrão de beleza, e inteligentíssimas.

Mas esses estereótipos ainda continuam lá, fazendo com que mulheres sofram, ou por tentarem se encaixar no clichê da "gordinha engraçada" ou por serem consideradas gostosas e, por isso, burras.

Se as coisas estão mudando? Aos poucos, sim. Mas muito devagar. Em entrevista publicada em 2019, a atriz Fafy Siqueira lembrou como era o machismo no humor no passado.

"Sofri muito com o machismo. Na minha geração, a mulher engraçada tinha que ser feia. O Chico Anysio me falava, pinta o dedo, bota isso... Ou você era gostosa ou feia".

Nossa, como os tempos passados eram machistas... Mas, péra! Como disse Rebel Wilson, ser uma garota engraçada ainda é um clichê que dá dinheiro, assim como tantos outros. Até quando?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL