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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Prêmio de 'vagina mais bonita' prova: Brasil é campeão em pressão estética

Existe hoje todo um pacote de produtos e procedimentos para que mulheres deixem suas vaginas "dentro do padrão" - iStock
Existe hoje todo um pacote de produtos e procedimentos para que mulheres deixem suas vaginas 'dentro do padrão' Imagem: iStock
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

02/12/2021 04h00

Mulheres já passam por todo tipo de pressão estética, ainda mais em um país como o Brasil, campeão mundial de cirurgias plásticas.

Desde muito tempo, o Brasil é o país das misses e de outros concursos que analisam corpos femininos. Nos anos 50, os quadris das misses eram medidos por polegadas (e uma a mais do que o "ideal" era o suficiente para que se fosse desclassificada). Depois veio o Miss Bumbum. E, agora, em 2021, uma nova modalidade: o "concurso da vagina mais bonita do Brasil".

Sim, isso é verdade e aconteceu. Esse é o nome do evento, embora o correto seria vulva, a parte externa do órgão. O concurso foi realizado pela influencer de conteúdo erótico Ana Otani em seu site, no qual usuários votaram nas vaginas mais bonitas (seja lá o que isso signifique). Quando li essa notícia, imaginei que os jurados tivessem avaliado o "monte de vênus" das mulheres em fotos de biquíni, o que já seria um absurdo. Mas é pior. As participantes enviaram fotos de suas vulvas para que elas fossem analisadas pelos jurados, "influenciadores" e assinantes do tal site de conteúdo adulto.

Em seu Instagram, Ana explicou as regras do concurso. Todos os dias, em novembro, novas fotos de vaginas eram colocadas no ar para análise. Ela conta que avaliou 16 "pepecas" junto com os outros jurados. Segundo Ana, escolher a "pepeca mais bonita do Brasil" foi muito difícil.

Era o que faltava. Mulheres, que sempre foram induzidas a ver imperfeições em seus rostos e corpos, agora passam a ser induzidas a ver defeitos também em suas vaginas, a parte mais íntima de seus corpos.

Será que, no futuro, meninas irão comparar suas vaginas com as de amigas em banheiros da escola e sentir que "tem um problema ali"?

É possível. Inclusive porque já existe todo um pacote de produtos e procedimentos para que mulheres deixem suas vaginas mais dentro do "padrão" (seja lá o que isso signifique).

Criar padrões gera dinheiro

Uma das razões desses novos "padrões" serem criados é que isso gera dinheiro. Sim, a indústria estética lucra em grande parte por problemas que são criados, aqueles que a gente nem sabia que tinha.

Por exemplo, você nunca pensou que ter um ânus escuro (seja lá o que isso signifique) fosse um problema. Aí começa a receber pelas redes sociais anúncios de "clareamento anal". Checa seu ânus. E começa a ver um problema onde jamais tinha pensado que existiria.

No caso da vagina, já existe, com muita procura, clareamento, rejuvenescimento e a 'cirurgia íntima'. O Brasil é o campeão mundial na realização dessa modalidade cirúrgica, também conhecida como 'ninfoplastia'.

Nos sites de cirurgiões, esse procedimento é vendido como uma solução para "incômodos" na área. E repito: a maioria deles nem existe de verdade, são quase "plantados" na nossa cabeça.

Nossas paranoias com o corpo são muito lucrativas. E existir um concurso de "vagina mais bonita do país" só mostra o quanto essa pressão é sem limites. Você acha que acabou? Pois me avisam que estão planejando também o concurso do ânus mais bonito do Brasil. O que mais falta acontecer?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL