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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com rosas e Nina Hagen, Merkel se aposenta depois de 16 anos como chanceler

Cerimônia é uma tradição antiga, mas a primeira chanceler da Alemanha resolveu inovar - REUTERS/REUTERS
Cerimônia é uma tradição antiga, mas a primeira chanceler da Alemanha resolveu inovar Imagem: REUTERS/REUTERS
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

02/12/2021 17h16

Depois de 16 anos no poder, Angela Merkel deixará o posto de chanceler da Alemanha semana que vem, quando seu sucessor, Olaf Scholz, deve ser votado no parlamento. Mas a grande despedida oficial da mulher mais poderosa do mundo, prestes a virar uma aposentada, aconteceu hoje em Berlim.

Por tradição, quando um chanceler ou outra grande autoridade deixa o poder, a pessoa participa de uma homenagem militar, a Grosser Zapfenstreich, uma parada que existe desde o século 16, feita com pompa, circunstância e honrarias. Essa é uma tradição antiga, mas a primeira chanceler da Alemanha resolveu inovar, como é o seu estilo.

Angela podia escolher três músicas para serem executadas pela banda militar. Uma delas foi uma canção punk, "Du hast den Farbfilm vergessen", de Nina Hagen. A banda teve uma semana para aprender a tocar a música, que era sucesso na Alemanha Oriental e lembra a adolescência de Merkel.

A canção fala sobre uma viagem para o "ostsee", o Mar Báltico, onde a chanceler passava as férias. Um dos versos diz: "Agora estou de volta em casa de novo, escolhendo as fotos para o álbum, eu de biquíni, eu fazendo FKK". Em alemão, FKK significa cultura do corpo livre. Em outras palavras, nudismo, uma prática tradicional na Alemanha.

Nina Hagen já criticou a chanceler abertamente, mas, pelo jeito, ela não se lembra mais disso.

Ao ouvir a canção, sentada em uma cadeira diante da banda no pátio do Ministério da Defesa, a chanceler balançou a cabeça e sorriu ao som da batida.

A outra música escolhida por ela foi a balada sentimental "Für mich soll's rote Rosen regnen", de Hildegard Knef, cantora e atriz cult da Alemanha que fez sucesso no pós-guerra. "Quando eu tinha 16, eu disse baixinho, eu quero ser grande, eu quero vencer. Eu quero tudo ou nada. Deviam chover rosas vermelhas para mim", diz a letra.

Durante a cerimônia, rosas vermelhas foram colocadas ao lado da cadeira da chanceler e ela foi presenteada com as mesmas flores no final do evento, quando foi aplaudida de pé.

As escolhas de músicas foram emocionais, mas, em seu discurso, Merkel falou sobre política. Ela agradeceu especialmente aos profissionais de saúde que trabalham na pandemia, lembrou valores como a democracia e a solidariedade e disse que "sempre fez seu trabalho com alegria no coração".

A chanceler passou o dia da honraria fazendo o que mais faz: trabalhando. Ela foi a chefe de um encontro que definiu medidas de emergência no combate à pandemia, já que o país vive uma forte quarta onda.

Em seus últimos dias como chanceler, ela foi também filmada por um passante fazendo compras em uma loja da Nike, onde procurava tênis esportivos.

Andar por aí como uma pessoa normal não é novidade para Merkel. No início da pandemia, ano passado, ela foi fotografada em um supermercado perto de seu apartamento no centro de Berlim comprando vinho e papel higiênico (uma mania nacional na época do lockdown).

Será que uma mulher que trabalha tanto vai conseguir curtir a vida de aposentada?

Ela acha que sim e tem respondido que está preparada para parar de trabalhar. Resta saber se o mundo está preparado para viver sem Angela Merkel no cenário político mundial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL