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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nova onda e hospitais lotados por covid. Como Alemanha chegou a esse ponto?

Com recordes de novos casos, Alemanha virou um dos hotspots da covid-19 no mundo  - Tobias Schawrz/AFP
Com recordes de novos casos, Alemanha virou um dos hotspots da covid-19 no mundo Imagem: Tobias Schawrz/AFP
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

30/11/2021 04h00

No primeiro ano da pandemia, a Alemanha era considerada um exemplo de enfrentamento à crise do coronavírus. O índice de mortes por covid-19 era baixo, o país adotava lockdown duro, mas com ajuda econômica para a população, e os discursos fortes de Angela Merkel vão entrar para a história.

Novembro de 2021. A Alemanha é um dos hotspots da doença no mundo, os números de casos batem recordes todos os dias, muitas vezes acima dos 50 mil. Na segunda-feira (29), a média de casos por 100 mil habitantes dos últimos sete dias era de 452, a maior de todas.

Para um país tão rico e com fama de tão eficiente no mundo todo, é chocante: alguns hospitais já estão colapsando. Desde a semana passada, em estados como Baviera e Saxônia, pacientes passaram a ser transferidos pelo exército de avião para outros estados que tenham vaga disponível na UTI. Especialistas alertam que, em breve, se nada sério for feito, pacientes podem ter que ser transferidos para hospitais de outros países. Na primeira onda, foi o contrário, a Alemanha recebeu pacientes de países vizinhos da Europa.

Como o país chegou a esse ponto? Moro em Berlim e nos últimos dias tenho recebido essa pergunta de amigos que, depois de quase dois anos, com os casos estabilizados, desfrutam de uma certa liberdade no Brasil.

Risco de lockdown

Aqui estamos vivendo o contrário. Podemos ter novas restrições nos próximos dias . Em alguns estados, como a Saxônia, já existem bloqueios parciais. Segundo o "Tagesspiegel", um dos maiores jornais do país, a ainda chanceler Angela Merkel (que está se aposentando, sua cerimônia de adeus é na quinta-feira) se reúne com o "quase" chanceler Olaf Scholz (ele assumirá em breve) na tarde desta terça-feira (30) para decidir medidas mais duras.

O fato de o país estar "entre governos" é um dos motivos para o caos. Angela Merkel vem apelando para que seus sucessores tomem medidas sérias. Nos últimos dias, os principais institutos científicos da Alemanha, o Robert Koch Institut e a Academia de Ciência Leopoldina, também pediram medidas duras de restrição de contato e vacinações em massa.

Com tanta pressão, é difícil que o novo governo — formado por uma coalizão entre o SPD (Partido Social Democrata), Grünen (Partido Verde) e o FDP (Partido Democrático Liberal) — não tome medidas mais duras.

No momento, em alguns estados, só vacinados ou curados são aceitos na maioria dos lugares. Em Berlim, desde sábado (27), só os vacinados podem, por exemplo, ir às lojas fazer compras de natal. O mesmo vale para restaurantes, museus e cinemas. Quem não se vacinou precisa fazer teste de antígeno todo dia para pegar transporte público ou ir trabalhar. Mas, segundo especialistas como o virologista pop star Christian Drosten, isso não é o suficiente.

Como a Alemanha chegou a esse ponto?

Os especialistas apontam os seguintes motivos:

1. Cobertura vacinal insuficiente. 68,4% da população está totalmente vacinada e 71% têm a primeira dose. Mas o índice varia muito entre os estados. Os com maior ocupação hospitalar são justamente os que apresentam menor cobertura vacinal. Na Alemanha, existe um grande movimento antivacina.

2. A variante delta, que se espalha mais rápido.

3. Estarmos no inverno, época em que acontecem mais viroses e infecções, e as pessoas permanecem mais tempo em locais fechados.

4. O fato de as vacinas protegerem menos com o passar do tempo. Por isso, o país tenta fazer uma campanha para que as pessoas tomem a terceira dose cinco meses após a segunda.

5. A vida ter voltado ao normal demais. Sim, assim como acontece no Brasil agora, a vida estava bem normal aqui até outubro. Especialistas acham que exageramos.

Para complicar tudo, o país está entre dois governos, o que torna uma ação forte mais difícil. E ainda piorou: a variante ômicron já chegou à Alemanha.

Na televisão, no fim de semana, o presidente do país, Frank-Walter Steinmeier, fez um apelo: "Por favor, diminuam seus contatos. Vamos agir juntos nesse momento!".

Na semana passada, o Ministro da Saúde, Jens Spahn, foi ainda mais pessimista: "Todos sairão desse inverno vacinados, recuperados ou mortos", declarou, implorando para que a população se vacine.

Pelo jeito, o tempo de apenas implorar já acabou. E agora, além do lockdown, a discussão é sobre se as vacinas devem ser obrigatórias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL