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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Get Back': Yoko Ono não destruiu os Beatles, ela foi vítima do machismo

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Imagem: Reprodução / Twitter
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

01/12/2021 04h00

Os Beatles acabaram em 1970. E, desde então, há mais de 50 anos, um mito se espalhou como uma certeza: Yoko Ono, então esposa de John Lennon, seria responsável pelo fim da banda. Sim, a simples ideia já é absurda. Como uma mulher poderia ser responsável pelo fim de uma banda da qual ela não participava? Impossível. Mas essa fake news foi criada e repetida mil vezes, como se se tratasse de uma verdade absoluta.

Nos últimos dias, finalmente, essa teoria tem sido muito contestada. A série documental "The Beatles: Get Back'', em exibição no Disney Plus, mostra horas de ensaio e produção da banda, com muitos bastidores. Yoko aparece o tempo todo. E, para surpresa geral, ela não faz nada de errado. Em vez de estar "destruindo" a banda, ela está lá, quieta, tricotando enquanto eles tocam "Let it be".

O diretor do filme, Peter Jackson, que editou 60 horas de material, confirmou: a presença de Yoko nos ensaios era amigável e, não, ela não acabou com a banda.

Ou seja, essa é uma fake news que existe há mais de 50 anos. Yoko foi colocada no papel de vilã, de manipuladora. Ela é a mulher retratada praticamente como uma bruxa má que enfeitiçou o inocente John Lennon, que na época já era um sujeito de seus 30 anos.

Mas os homens são frequentemente retratados como crianças. E, Yoko, além de tudo, era sete anos mais velha que John. A regra, todos sabem, é que homens (principalmente os famosos) namorem meninas muito mais novas. E nisso ninguém vê problema.

Yoko, além de mulher e mais velha, era asiática, fugia do padrão racista de beleza da época (as loiras altas eram consideradas as mais bonitas. E são ainda). É curioso, mas o filme mostra Linda (então esposa de Paul) por ali e, no caso, ninguém vê nada de estranho na sua presença. Ela também não leva fama de chata, caso de Yoko.

O que o documentário mostra é que o casal era inseparável e Yoko estava lá em todos os ensaios. Problema deles. E não, isso não é o que faz uma banda acabar.

Mas, desde sempre, mulheres são retratadas como seres malévolos, com poder de destruição (até o paraíso foi destruído por culpa da sedutora Eva, lembram?).

Yoko não é a única vítima da "síndrome da mulher bruxa". Pelo contrário. Existem centenas de outros exemplos famosos. Courtney Love é um deles. A cantora até hoje é vista por muitos como uma maluca drogada e interesseira que levou o inocente Kurt Cobain para as drogas e, consequentemente, causou seu suicídio e o fim do Nirvana. Courtney, assim como Yoko, nunca foi uma garota linda, mas sim uma mulher esquisita e com personalidade.

No mundo da música, tão machista, esse tipo de mulher vira megera. E, até hoje, Yoko e Courtney são odiadas por muitos fãs. Haja psicanálise para entender esse ódio, não?

Mas não é preciso ter sido casada com um rock star para ter tido seus dias de Yoko. Muitas mulheres já foram culpadas por destruir empresas, famílias, levarem homens ao alcoolismo e às drogas. Na verdade, isso acontece todos os dias. Algumas, como Yoko, passam a vida inteira sendo culpadas por coisas com as quais não têm nada a ver e sendo chamadas de megeras.

A gente deve, pelo menos, usar o exemplo de Yoko para desconfiar cada vez que ouvir uma história sobre uma mulher que foi responsável pela falência de uma empresa que não era dela, ou que "fez um homem enlouquecer" ou usar drogas.

Essas mulheres, assim como Yoko, não destruíram nada, inclusive porque não têm poder paranormal. Elas foram vítimas. Do machismo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL