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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Claudia Leitte chamada de genocida: ataques a mulheres são desproporcionais

Claudia Leitte recebe críticas na web após show com trio elétrico e aglomeração - Reprodução/Instagram
Claudia Leitte recebe críticas na web após show com trio elétrico e aglomeração Imagem: Reprodução/Instagram
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

29/11/2021 12h30

Mais de 614 mil pessoas já morreram no Brasil em decorrência do coronavírus. Durante os piores momentos da pandemia, o presidente do país, Jair Bolsonaro, fez piada imitando pacientes com falta de ar em um hospital e, quando interrogado sobre as mortes, lá em abril de 2020, respondeu: "Quer que eu faça o quê? Não sou coveiro!". O presidente também insiste em não se vacinar.

As mortes por coronavírus não são o único problema do país. Quase 20 milhões de brasileiros estão passando fome. Reportagem publicada nesta segunda-feira (29) pela "Folha de S.Paulo" mostrou relatos de pessoas que estão comendo lixo em São Paulo. Um horror.

Nesse cenário, não faltam políticos que merecem, sim, ser chamados de genocidas. Mas quem acordou sendo xingada nas redes sociais e sendo chamada de genocida? A cantora Claudia Leitte, que fez um show para uma multidão em São Paulo no final de semana.

Se eu acho que Claudia Leitte e os organizadores do show estão certos? De forma alguma. Ainda mais em um momento em que há ameaça da chegada de nova variante no país, promover aglomeração é irresponsável, sim. Só que Claudia Leitte não é a única. Os estádios estão cheios e todos os artistas mais populares já voltaram a se apresentar para multidões.

A genocida não é Claudia Leitte, inclusive porque ela não ocupa cargo público e não é responsável pelo enfrentamento da pandemia no Brasil. Shows como o dela foram liberados em São Paulo. Se alguém quiser reclamar, devia culpar o governador do Estado, João Dória - o que foi feito por integrantes do governo Bolsonaro, como o ministro das Comunicações, Fábio Faria.

"Ontem SP estava comemorando a Ômicron Sul-Africana. Doria, você vai multar os que estavam sem máscaras? Nunca foi pela pandemia, sempre foi pela política e contra o Bolsonaro. Não vi uma linha dos que tanto criticam o presidente. Cadê a coerência dos críticos?", declarou o ministro no Twitter.

Mas, quando se trata de ataques na internet, sempre sobra mais para as mulheres. Quando vêm das fileiras dos fanáticos seguidores do presidente, costumam vir ainda mais carregados de ódio contra mulheres.

Ataque machista

Claudia, por exemplo, está sendo chamada de "vagabunda" e de "jumenta''. Sim, quando uma mulher é criticada na internet, em geral, junto com isso recebe esse tipo de ataque machista.

A cantora já deve estar acostumada a esse tipo de ataque, vindo de todos os lados. Inclusive porque ela é uma espécie de "Geni" da cultura pop brasileira. É criticada pela esquerda por ser "isentona" e por apoiadores do governo Bolsonaro por ser de esquerda e "lacradora".

Se estou falando que mulheres não podem ser criticadas? De jeito algum. O que não é justo é que as críticas sempre venham junto com ataques machistas e que, no nosso caso, os ataques tendam a ser desproporcionais.

Será ótimo se um dia mulheres forem criticadas só por suas atitudes erradas. Mas, infelizmente, esse dia ainda está longe.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL