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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Atletas rejeitam uniforme sexy e feminismo vira pauta de Jogos Olímpicos

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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

23/07/2021 04h00

Essa semana, as jogadoras da seleção feminina de handebol de praia da Noruega fizeram uma pequena revolução. Ao disputar medalha de bronze no Campeonato Europeu, as jogadoras se recusaram a usar biquíni. Foram multadas por 1.500 euros por "trajes inadequados."

Sim, você leu certo. Elas foram multadas por NÃO USAREM biquíni, por estarem "cobertas demais". "Como assim, você ousa usar shorts e não mostrar o corpo"? É surreal. Mas é verdade. O biquíni é o uniforme obrigatório de mulheres que praticam handebol de praia. Enquanto isso, no mesmo campeonato, homens podiam usar shorts de até 10 cm.

Era o que faltava. Mulheres já são multadas por fazerem topless, são insultadas e levam bronca por estarem usando roupas "curtas demais" e agora sabemos dessa: algumas são obrigadas a usar biquíni.

Por que será? Simples, porque a parte "mulheres de biquíni correndo na praia" atrai público do sexo masculino e patrocinadores. Em outras palavras, além de jogar, esperam que as atletas sejam "objetos sexuais".

Esse mesmo sentimento de que atletas são, muitas vezes, sexualizadas quando na verdade o que importa é a capacidade delas de praticar o esporte em que são especializadas, fez com que ginastas da Alemanha adotassem pela primeira vez calças que cobrem as pernas até o tornozelo, como uma espécie de manifesto contra o excesso de sexualização das ginastas e pelo direito das mulheres se vestirem como quiserem.

Mulheres como as ginastas alemãs e as jogadoras norueguesas parecem estar prontas para a briga.

E Não faltam motivos para lutar. Exemplo: No domingo, uma atleta olímpica escutou que "seu calção estava curto demais". A campeã mundial de atletismo Paralímpico Olivia Breen usou o Twitter para denunciar que tinha ouvido de uma oficial do campeonato que participava na Inglaterra que seu calção era "curto demais".

"Ela me disse que eu deveria considerar a opção de usar outro short porque o meu calção estava revelando muito. Eu achei que fosse piada. Mas ela disse que não e insistiu para que eu comprasse shorts."

Breen comentou ainda que duvidava que um homem atleta recebesse o mesmo tipo de crítica. Ela está certa. Imaginem se homens seriam multados porque deixaram de usar sunga e usaram shorts? Alguém consegue imaginar isso. E um organizador falando para um competidor do atletismo em Tóquio que seu short estava muito curto e que ele estava "mostrando demais". Já pensou?

Tem mais. A nadadora Alice Dearing é a primeira nadadora negra a representar a Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos. Ela costuma usar uma touca que foi feita especialmente para ela, para cabelos afro. O que os organizadores da olimpíada fizeram? Proibiram o uso de tal touca porque ela "não acompanha o tamanho "normal da cabeça."

Parece que estamos falando de colégios de freira elitistas dos anos 30. Ou dos jogos de 1900. Mas tudo isso está acontecendo agora mesmo, em 2021.

Faz mais de 50 anos que as mulheres foram para as ruas e queimaram sutiãs nas passeatas de 68. Mas as meninas ainda têm que lutar por coisas tão básicas como o direito de usar a roupa que querem. E uma negra tem que lutar para ter seu cabelo grande e continuar a competir.

É inacreditável que os corpos das mulheres e suas roupas ainda sejam tão controlados. Mas algo me diz que as mulheres não vão aceitar isso por muito tempo? Pelo jeito, as atletas preparam uma pequena revolução...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL