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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Machismo: "elas vacinam de manhã pra fazer almoço", diz secretário no Piauí

O gestor da Saúde Gilberto Albuquerque foi criticado nas redes por falas machistas - Reprodução / Twitter
O gestor da Saúde Gilberto Albuquerque foi criticado nas redes por falas machistas Imagem: Reprodução / Twitter
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

15/06/2021 12h27

Lá em março do ano passado, teve quem dissesse que a pandemia iria mostrar coisas belas da humanidade e nos fazer melhorar. Bem, 15 meses depois, sabemos que não é o caso. Principalmente se você for mulher. Nunca estivemos tão sobrecarregadas e nunca foi tão claro que, por mais que palavras como "empoderamento" estejam na moda, que ainda somos nós que fazemos a maioria do trabalho doméstico, além de trabalhar e pagar boletos, claro.

Isso é provado em várias pesquisas. Mas agora um médico do Piauí escancarou ainda mais o machismo. No calendário de vacinação da prefeitura de Teresina, as mulheres têm horário marcado pela manhã. Os homens são vacinaram de tarde. O esquema de vacinação foi explicado pelo presidente da Fundação Municipal de Saúde da cidade, Gilberto Albuquerque. Ao falar sobre o horário, o médico disse: " mulheres vacinam cedo para voltar pra casa e fazer a comida cedo". Que tal?

Depois de receber críticas, a prefeitura da cidade emitiu nota onde fala que o médico estava só brincando (no vídeo ele não dá nenhuma risada e não, não parecia fazer piada - e, o mesmo assim, piada de péssimo gosto, hein?) e que mulheres tinham prioridade por "serem responsáveis pelo dom da vida." Sei.

Na verdade, a gente sabe que para muitos homens suas mulheres "prepararem o almoço" (e cedo, viu? Nada de atrasar a comida do marido, senão, já viu!) ainda é o óbvio, o normal e o esperado. E quando saímos da nossa bolha "empoderada" isso fica ainda mais claro. Milhares de mulheres acordam de madrugada para preparar almoço para o marido e outros familiares ANTES de pegar o transporte para o trabalho. E, muitas vezes, esse trabalho é... cozinhar para outras famílias. O Brasil tem mais de 6 milhões de empregadas domésticas.

Esse esquema "mulher faz o almoço e serve o prato do homem" era normal no passado, nos anos 70, 80. Pelo jeito, pouco mudou. Uma autoridade de saúde ter coragem de falar isso na televisão só prova isso.

Como se não bastasse, trata-se de vacinação, uma questão de saúde pública mundial. A vacina salva vidas, todo mundo sabe. E, no caso das mulheres, o recado é: "a vacinação não pode atrapalhar o mais importante, suas obrigações do lar." Então, vai lá, se vacina rapidinho, mas não atrase o almoço!

O anúncio do médico é tão absurdo que poderia ilustrar uma daquelas propagandas de revistas femininas nos anos 50 que são tão absurdas que nos fazem rir de nervoso. Naquela época, era comum ler nessas publicações que "esposas são feitas para cozinhar". A frase: "Mulheres vacinam antes para não atrasar o almoço" é tão absurda que poderia ser engraçada. Mas, na verdade, isso acontecer em 2021 é só triste e revoltante mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL