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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mayra Cardi e jejum: influencer promove transtorno alimentar. Cadê a ética?

A influenciadora Mayra Cardi tem 6 milhões de seguidores no Instagram, onde dá dicas de beleza e bem-estar e promove e vende produtos ligados a esses temas. - reprodução Instagram
A influenciadora Mayra Cardi tem 6 milhões de seguidores no Instagram, onde dá dicas de beleza e bem-estar e promove e vende produtos ligados a esses temas. Imagem: reprodução Instagram
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

30/04/2021 04h00

A influenciadora Mayra Cardi tem 6 milhões de seguidores no Instagram, onde dá dicas de beleza e bem-estar e promove e vende produtos ligados a esses temas. Em sua descrição na rede social, ela se apresenta como "líder em emagrecimento natural" e "analista comportamental". Mayra Cardi, que não é formada em medicina nem em nutrição, está há dias promovendo em seu Instagram os benefícios do "jejum".

Mayra diz ter praticado jejum de sete dias essa semana e que se prepara para fazer um de 12 e outro de 40 dias! A influencer tem recebido muitas críticas razoáveis. Afinal, promover jejum em uma rede social é de uma irresponsabilidade enorme. Além de ser perigoso para a saúde, o jejum é também uma prática adotada por portadores de distúrbios alimentares como a anorexia.

Na noite de quarta-feira (28), Mayra se defendeu das críticas com um post onde afirma de forma enfática que não faz jejum para emagrecimento, mas para a saúde. Mas ela aproveitou para continuar uma defesa apaixonada do jejum. Disse, entre outras coisas, que o jejum pode ajudar no tratamento de câncer e beneficiar "todas as doenças crônicas que matam todo mundo". A influenciadora diz que tudo isso é baseado em relatos e estudos "científicos". "Não sou eu que estou dizendo", afirma.

Sim, é possível que existam médicos que acreditem que o jejum ajude na cura do câncer. Existe de tudo nesse mundo. Até cientista que diz que a terra é plana. Mas o que precisa existir também, e muitos influenciadores desconhecem isso, é a responsabilidade na hora de divulgar informações.

Se você fala em uma rede onde tem 6 milhões de seguidores que o jejum pode curar o câncer, você está propagando fake news - não, não deixa de ser fake porque alguns médicos concordam com a maluquice. Nesse caso, como em outros, vale acreditar no que diz a Organização Mundial de Saúde e associações médicas.

Além de não entenderem o peso que uma informação pode ter, influenciadores como Mayra Cardi parecem também ter dificuldade para entender a profissão que têm. No vídeo, ela diz: "Ninguém é obrigado a acreditar, não mandei ninguém fazer (jejum). Mas tenho o direito de fazer e dividir na minha rede social! Vão falar do meu jejum?"

Sim, vamos falar. Isso porque um influenciador, como o nome diz, "influencia pessoas". Quem tem seis milhões de seguidores vive de seu poder de influência. No caso de Mayra, a influência é bem específica, já que ela representa produtos de emagrecimento e beleza. Ela é, inclusive, uma das criadoras de um programa de emagrecimento chamado "Seca você".

Influenciadores precisam, sim, ser cobrados quando divulgam informações e deviam obedecer a algum manual de conduta. Sem isso, muitos deles se tornam perigosos. Divulgar esse tipo de comportamento livremente no Instagram aumenta o perigo, já que essa é a rede social mais nociva para a imagem corporal, principalmente de mulheres e adolescentes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL