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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Corpo Neutro: movimento prega que a gente não precisa se amar o tempo todo

Lizzo posa nua e faz campanha por menos retoques: "Vamos cair na real" - Reprodução/Instagram @lizzobeeating
Lizzo posa nua e faz campanha por menos retoques: "Vamos cair na real" Imagem: Reprodução/Instagram @lizzobeeating
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

27/04/2021 04h00

"Acordei divando". "Linda sem defeitos". De um tempo para cá, mulheres de todos os tipos passaram a postar fotos no Instagram mostrando seus corpos do jeito que são e escrevendo essas frases onde celebram seus corpos e sua beleza.

Muito legal já que, por anos, e até hoje, mulheres se sentem mal por não serem magras, terem estria, celulite. E pessoas gordas sofrem discriminações seríssimas diariamente.

O movimento que fez com que tantas mulheres celebrassem os seus corpos, o "body positive", é super importante. Mas, confesso, sempre me causou um certo desconforto o fato de mulheres terem que escrever em legendas de fotos: "sou linda!". "Acordei linda!". "Amo meu corpo". Enquanto outras mulheres, eu, incluída, comentamos nas fotos: "Deusa", "maravilhosa".

Explico: para mim, um corpo é só um corpo. Essa é só uma parte de quem a gente é e não é a mais importante. Quem valoriza os corpos mais que tudo nas mulheres, acho eu, é uma sociedade machista. O ideal seria que a gente não fosse julgada nem atacada pela nossa aparência E que nossos corpos fossem vistos mais por sua função.

Por exemplo, é importante estar em forma. Não porque temos que "divar", mas porque é importante poder se mover, correr, nadar, ter qualidade de vida durante o envelhecimento.

Não sou a única a achar isso. Nos últimos meses, depois do body positive, mulheres passaram a advogar pelo body neutral (corpo neutro, em tradução literal), ou corpo normalizado.

A ideia é essa: de que um corpo deve ser tratado pela sua função, não pela sua aparência. E, claro, todos têm que ser aceitos.

Uma das principais vozes a favor da "normalização" é a cantora Lizzo, que foi, justamente, um ícone do movimento body positive. Lizzo, uma garota gorda, posa sem vergonha no Instagram com roupas sexyes e nua. Ela deixa claro que não quer ter vergonha de seu corpo ou de quem ela é. Lizzo é fantástica.

Uma frase dela faz a gente pensar: " Quero normalizar meu corpo. E não é só dizer: 'Olha, que movimento legal, ser gorda é ser positiva. Ser gorda é normal."

Semana passada, Lizzo postou uma foto nua no Instagram, mostrando seu corpo como ele é, gordo, sem maquiagem e sem nenhum retoque. E escreveu na legenda: "Eu consertaria minha barriga e alisaria minha pele, mas baby, eu queria mostrar a você como faço isso ao natural", ela explica. "Vamos cair na real."

Lizzo deixou claro que não ama tudo ali. Mas que tudo bem, também. Faz sentido. Afinal, a gente não acorda divando e não tem que se amar todos os dias.

E, vamos combinar, ainda mais em tempo de pandemia, quem acorda, se olha no espelho e se ama? Estamos mais sobrecarregadas do que nunca e trancadas em casa cuidando de dez coisas ao mesmo tempo (e com medo). Muitos dias, nos sentimos um lixo (e nem falo da aparência, mas no geral).

Se você, durante a pandemia, se achar linda e se amar todos os dias, sinceramente, acho que você pode estar com problemas... A realidade é: quase todos engordamos na pandemia. E isso devia ser considerado? Normal. Afinal, é só um corpo.