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Nina Lemos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Turma de 68: precisamos aprender com idosos que querem derrubar Bolsonaro

Integrantes da geração 68, capitaneados pelo jornalista José Trajano, 74, planejam ir para as ruas em protestos contra o presidente. -
Integrantes da geração 68, capitaneados pelo jornalista José Trajano, 74, planejam ir para as ruas em protestos contra o presidente.
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

30/03/2021 04h00

O que você quer fazer depois de tomar a vacina? Viajar? Ir a festas? Pois saiba que entre a turma da terceira idade tem quem tenha um plano mais importante e ambicioso: protestar para derrubar o presidente Jair Bolsonaro. E depois são os jovens que ganham fama de revolucionários...

Desde sexta-feira (26), integrantes da geração 68, capitaneados pelo jornalista José Trajano, 74, planejam ir para as ruas em protestos contra o presidente. O plano faz sentido. Afinal, eles estarão vacinados, teoricamente mais seguros. A ideia começou a tomar corpo no Twitter depois que a economista Laura Carvalho postou que sua mãe, que se vacinaria essa semana, pretendia organizar protestos pelo impeachment de Jair Bolsonaro com as amigas. No mesmo momento, José Trajano disse que estava pronto para fazer o mesmo, assim como idosos de todo o país.

"Minha mãe está prestes a se vacinar e já combinando com amigos da geração de 1968 de fazer uma manifestação depois da segunda dose para tirar esse governo. Eles fazem tudo!", escreveu Laura.

"Pode contar comigo! Dia 9/4 tomo a segunda dose e estarei depois de alguns dias pronto para sair às ruas e derrubar esse governo", disse Trajano.

"Já tomei a segunda dose, sou de 49 e estou pronta para ir às ruas", respondeu uma aposentada.

Segundo o colunista do UOL Ricardo Kotscho, os planos estão em suspenso depois que Trajano consultou o cientista Miguel Nicolelis, que recomendou que o grupo, mesmo vacinado, não saísse às ruas por causa do risco causado pelas novas variantes.

A recomendação médico, pelo jeito, não vai impedir que essa geração continue tentando, de alguma forma, lutar contra o governo e todas as injustiças. Isso porque eles sabem protestar melhor do que ninguém. Foram eles que, em 68, botaram o mundo de cabeça para baixo na Europa, nos Estados Unidos e também no Brasil.

Os idosos que hoje querem derrubar Bolsonaro são os mesmos que lutaram contra a ditadura militar. Uma das ideias era, inclusive, fazer o primeiro protesto contra Bolsonaro do grupo na data em que é comemorada os 53 anos da passeata dos 100 mil (manifestação contra a ditadura organizada por artistas e estudantes).

Esses idosos e os adolescentes de hoje (que, junto com Greta, criaram as "Greves pelo clima" e se organizam no mundo todo) dão um baile em nós das gerações X e Y (que têm entre 30 e poucos e 50 e poucos anos). Enquanto eles pensam em sair para a rua e protestar, a maioria de nós reclama em textões do Facebook que ninguém faz nada.

Alguns soltam gritos desesperados do estilo: "alguém precisa fazer alguma coisa!". Mas, em geral, o apelo é assim, em terceira pessoa. Muita gente da minha geração é mimada, e espera que alguém faça, organize, enquanto a gente olha a preparação pelo Instagram e decide se vai ou não. Também somos ótimos sommeliers de protesto: pessoas que falam 'essa manifestação foi válida', 'aquela, não'.

Não estou falando que TODOS somos assim, de jeito nenhum. Mas a maioria de nós, e me incluo, claro, tem muito o que aprender com a geração de 68 e com a de Greta.

Talvez a gente devesse parar de pensar tanto e simplesmente fazer. A atriz Jane Fonda, de 83 anos por exemplo, já disse quais são seus planos para quando acabar a pandemia e do que mais sente falta. :"Bem, há muito o que protestar agora, então mal posso esperar para poder protestar pessoalmente". Jane foi presa diversas vezes em 2019 protestando contra o aquecimento global, inspirada pela jovem Greta.

Se eu conheço bem minha geração, quando a pandemia acabar e a gente puder sair para protestar, a gente corre o risco de ficar em casa se lamentando que "não tem mais idade para isso" e, ao mesmo tempo, reclamando que ninguém faz nada. Ainda podemos melhorar, claro. Inclusive os idosos de 68 nos dão essa lição: nunca é tarde para mudar as coisas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL