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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com covid, cineasta filma a própria internação em UTI e lança curta; veja

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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

18/03/2021 04h00

Em abril de 2020, a cineasta Beth Formaggini, 68, foi internada com coronavírus no Rio de Janeiro. Após alguns dias com muita tosse, sendo acompanhada à distância por uma infectologista, a mineira começou a ficar sem ar e procurou um hospital. Quando chegou lá, desmaiou por falta de oxigênio. Como os pulmões estavam comprometidos pela covid-19, foi internada na Unidade de Terapia Intensiva, onde permaneceu por dez dias.

Nos primeiros dias, ela conta que estava sem energia e totalmente isolada. "Como sou documentarista, mesmo quando estava muito mal, ficava observando os profissionais de saúde se paramentando; para mim, aquilo era um balé que eu filmava na minha cabeça. Era uma maneira de fugir da realidade, de achar arte na situação."

Assim que melhorou um pouco, Beth pediu seu celular para as enfermeiras. De posse dele, passou a filmar a rotina na UTI. O resultado é um curta-metragem de três minutos, "Ar", lançado na noite desta quarta (17) no festival "Curta Cinema" e que pode ser visto aqui.

"O celular é o melhor amigo da pessoa na UTI"

De sua maca, a diretora registrou o 'balé' dos profissionais da linha de frente  - Beth Formaginni/Arquivo pessoal - Beth Formaginni/Arquivo pessoal
De sua maca, a diretora registrou o 'balé' dos profissionais da linha de frente
Imagem: Beth Formaginni/Arquivo pessoal

As imagens capturadas pela cineasta mostram o dia a dia da UTI do ponto de vista de sua maca. Mais intimista impossível. As imagens são mescladas com algumas cenas de natureza do lado de fora do hospital, onde a vida segue "normal".

Beth é uma cineasta experiente, responsável por filmes como "Pastor Cláudio". Para ela, transformar esse momento de dor foi algo totalmente natural.

"Quando melhorei um pouco, pedi meu celular. Foi incrível, pude falar com a família, ver filmes. O celular é o melhor amigo da pessoa na UTI. Quando tive forças, filmei os profissionais de saúde se paramentarem para ir para perto dos pacientes; aquela cena se repetia todos os dias e parecia um balé. Depois, só tive energia para filmar a ida para a unidade semi-intensiva e a retirada daquele cordão umbilical que era o tubo por onde me alimentava. Tudo ganha um significado, tirar esse cordão umbilical foi importante para mim."

Filmar a saída do hospital, diz, foi duplamente importante. "Eu pensava muito na cura, em poder voltar para casa, a trabalhar, por isso filmei esse momento."

Beth consegue ver o momento dramático pelo qual passou com senso de humor e até beleza. "Eu fiquei muito admirada com a coragem desses profissionais que entravam em uma sala onde existia a existência de um vírus altamente contagioso, do qual, há um ano, não existiam muitas informações. Existe muita generosidade da parte deles. Eles são muito bravos. Além disso, recebi uma onda de solidariedade, por parte dos amigos e da família. Ao mesmo tempo que você fica totalmente isolado, você também recebe uma solidariedade muito bonita."