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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro concorrendo pelo Partido da Mulher? Parece piada de mau gosto

Bolsonaro pretende se filiar ao Partido da Mulher Brasileira para reeleição em 2022 - Reprodução/Flickr Planalto
Bolsonaro pretende se filiar ao Partido da Mulher Brasileira para reeleição em 2022 Imagem: Reprodução/Flickr Planalto
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

08/03/2021 14h23

Uma notícia dessas no Dia da Mulher é algo inacreditável e um riso de deboche na nossa cara (mais um). Mas, segundo informações do jornalista Thiago Nolasco, do R7, o presidente Jair Bolsonaro pensa em se filiar ao Partido da Mulher Brasileira para se candidatar à reeleição em 2022. Não, esse texto não é uma pegadinha especial "Dia da Mulher".

Bolsonaro estaria planejando entrar no tal partido e mudar o nome do PMB para algum mais do seu agrado. Segundo a apuração, ele pensa também em ser o presidente do partido! Sim, Bolsonaro, um notório machista e inimigo da luta pelos direitos das mulheres, pensa em pegar um partido que carrega nosso nome porque isso lhe convém e usá-lo como bem quer.

Segundo o "Estado de S. Paulo", o presidente deu uma entrevista nessa segunda-feira (8) e disse: "estou namorando outro partido, tá? Onde eu seria dono dele". DONO! Se confirmado que trata-se do Partido da Mulher, qual o recado disso? Ele quer ser dono das mulheres?

O Partido da Mulher Brasileira foi criado em 2015 pela ativista Suêd Haidar, que já foi candidata a deputada federal e a prefeita do Rio de Janeiro. O partido se define como "feminino ao invés de feminista e contra a ideologia de gênero" em sua página na Wikipédia.

O PMB é uma legenda super pequena, que conta apenas com três deputados estaduais eleitos: Maria Bethrose Araújo, no Ceará, Diogo Sênior, no Amapá, e Neto Loureiro, em Roraima, e uma prefeita, Marina Pereira da Rocha, na cidade de Guapimirim (RJ).

O fato de o partido ser pequeno combinaria com as intenções de Bolsonaro e seus aliados, que pensam em pegar um partido onde possam ter controle.

Ah, mas por que Bolsonaro não cria o seu próprio partido? Bem, ele tentou. Mas fracassou ao colher as assinaturas necessárias.

Seria absurdo qualquer político homem cogitar "roubar" um partido das mulheres e mudar o nome para se candidatar. No caso de Jair Bolsonaro, claro, o absurdo é ainda maior, já que ele é considerado um dos grandes misóginos do nosso tempo.

O presidente é conhecido no mundo todo por suas frases agressivas, muitas delas contra as mulheres. Ele já disse, por exemplo, que a deputada federal Maria do Rosário (PT) era "muito feia para ser estuprada". Ele disse também que não queria que o Brasil virasse a capital do turismo gay, mas que homens que queriam fazer sexo com mulheres poderiam ficar à vontade. Falou também que tinha pena dos empresários brasileiros porque o país tinha muitos direitos trabalhistas e que entendia que eles evitassem contratar mulheres "poxa, essa mulher está com aliança no dedo, daqui a pouco engravida, seis meses de licença maternidade."

Receber essa notícia no Dia Internacional da Mulher só torna tudo mais surreal e é também um retrato do momento que vivemos. Para que a nossa causa serve? Para o presidente da República, não serve para nada. Ele cogitar se eleger por um partido que leva nosso nome é mais uma prova disso.

Não merecíamos mais esse ataque em pleno Dia da Mulher.

* A coluna tentou contato com Suêd Haidar, presidente do Partido da Mulher Brasileira e com Karina Kufa, advogada de Jair Bolsonaro. Até o fechamento deste texto, ainda não tinha obtido resposta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL