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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Estou há 3 meses sem vida social na Alemanha. Por que Brasil teme lockdown?

Ruas de Berlim vazias com Alemanha em lockdown há três meses para conter covid-19 - Nina Lemos/arquivo pessoal
Ruas de Berlim vazias com Alemanha em lockdown há três meses para conter covid-19 Imagem: Nina Lemos/arquivo pessoal
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

05/03/2021 04h00

Na quarta-feira (3), o governador de São Paulo, João Doria, avisou que, devido ao aumento dos casos de coronavírus e à iminência de um colapso no sistema de saúde, o estado entrará na fase vermelha da quarentena por duas semanas a partir deste sábado. Isso significa que shoppings, bares e restaurantes e outros comércios fecharão e que só serviços essenciais ficarão abertos. Com o país enfrentando o pior momento da pandemia e batendo recorde de mortes, outros estados também estão entrando num "lockdown light".

Claro que, em um país desigual como o Brasil, o lockdown tem impactos seríssimos na sobrevivência de muita gente (e, sim, essas pessoas precisam de algum auxílio por parte do governo para não morrerem de fome). Mas com o aumento progressivo do número de mortes por covid-19 e o colapso do sistema de saúde no país, com UTIs lotadas, cientistas e médicos são categóricos: é preciso ficar em casa e evitar contato com outras pessoas.

Pois bem, ao contrário do Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro diz que continuar a fazer isolamento social é "mimimi" e "frescura", aqui na Alemanha, onde moro, estamos em lockdown há quase três meses. Passamos assim o Natal e o Ano- Novo. Tudo o que podemos fazer, desde então, é caminhar no parque, comprar um café e levar para tomar em casa ou na rua em um banco vazio. Não tem academia, loja, restaurante, nada. Na verdade, os restaurantes e cafés estão fechados desde novembro — os clubes e casas noturnas, há quase um ano.

O lockdown funcionou, os números caíram muito. Mas existe o medo da variante brasileira do coronavírus, muito mais contagiosa. Por isso, a partir da semana que vem, alguns serviços voltam a abrir, mas com cautela, segundo o plano de reabertura apresentado pela chanceler Angela Merkel nesta quinta (4).

De forma alguma estou reclamando desse lockdown que parece uma vida inteira. Muito pelo contrário: reconheço diariamente o privilégio de estar em um país que se preocupa em controlar a pandemia e onde os hospitais não colapsaram. E, claro, um país rico. Para bancar esse lockdown, a Alemanha gastou mais de cem bilhões de euros em ajuda a comerciantes, empresários e artistas.

Além de aprender e valorizar cada vez mais meu privilégio, o lockdown de três meses me fez descobrir algumas outras coisas, como, por exemplo, o fato da gente não precisar de "luxos" como jantar fora, fazer a unha, ir à academia. Dá para viver sem isso numa boa. Claro que a gente gosta de beber em um bar, de sair com as amigas, de fazer ioga pessoalmente e em grupo.

Mas, no contexto de uma pandemia mundial, em que já morreram mais de 2 milhões de pessoas, somada a uma crise econômica com milhares de desempregados, não poder sair por um tempo é algo tão pequeno diante disso tudo, que parece frescura.

Tenho amigos que estão há um ano praticamente trancados em casa no Brasil. Assim como eu, aprenderam a viver sem todas essas coisas. E descobrimos outras maneiras de nos divertir, fazer exercícios.

Se você não é tão radical, provavelmente fez isolamento e voltou a sair aos poucos, "tomando todos os cuidados". Bem, agora não dá mais para socializar — os hospitais estão lotados e o contágio só aumenta.

Os especialistas mais sérios do país recomendam um lockdown nacional. Cientistas já estão quase perdendo a voz de tanto gritarem "fica em casa!". Na quarta 3, o biólogo Atila Iamarino, um dos maiores especialistas em Coronavírus do país, estava tão desesperado que escreveu no Twitter: "planta o c* em casa".

As UTIs estão lotadas. São quase duas mil mortes por dia. Não tem alternativa. Se você não pode trabalhar de casa, fazer o quê? Não tem jeito. Nesse caso, vale usar uma máscara PFF2 e tomar todos os cuidados.

Mas e quem pode ficar em casa? Será que tudo bem ir visitar a família ou "fazer um almocinho ou jantarzinho com as amigas"? Ou chamar uma profissional para cortar o cabelo e fazer a unha? Não, não dá! E não venha dizer que isso é autocuidado. Quem se cuida mesmo, neste momento, e se preocupa com os outros, evita contatos desnecessários e fica em casa sozinho ou com quem mora com você. Fim.

"Ah, mas eu preciso ir à praia por causa da saúde mental." Bem, é difícil mesmo viver esse momento e não podemos pirar. Mas vamos parar de usar a saúde mental como desculpa? Você pode cuidar da sua saúde mental de verdade indo caminhar, fazendo esportes em casa ou ao ar livre e falando com amigos e familiares por videochamada.

Enquanto apenas 7 milhões dos 211 milhões de brasileiros foram vacinados e ainda não há vacina suficiente para a população, não tem outro jeito para salvar vidas. A gente consegue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL