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Nina Lemos

Parem de nos matar: ano começa com mulheres sendo mortas por companheiros

Pelo menos quatro mulheres foram mortas por namorados, maridos ou homens que queriam se relacionar com elas.  - Getty Images
Pelo menos quatro mulheres foram mortas por namorados, maridos ou homens que queriam se relacionar com elas. Imagem: Getty Images
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

05/01/2021 04h00

Não deu tempo da gente se recuperar do pavor causado pela morte da juíza Viviane Vieira do Amaral Arronenzi, que foi assassinada pelo ex-marido, Paulo José Arronenzi, na frente das filhas no Rio de Janeiro.

O ano mal começou e, no primeiro fim de semana do ano, pelo menos quatro mulheres foram mortas por namorados, maridos ou homens que queriam se relacionar com elas. O mesmo aconteceu no feriado do Natal.

Essas mulheres foram vítimas de feminicídio. Os motivos para que morressem? Briga no Ano-novo, o fato delas terem terminado um relacionamento e o parceiro não aceitar ou até o fato de terem dito não para as investidas de um homem. Ou seja, elas foram assassinadas por sentimento de posse, por machismo.

Em Goiânia, Caroline Conceição, de 26 anos, foi assassinada a tiros na frente do seu filho de seis anos. O suspeito é seu marido, o guarda civil Anderson Gomes.

Amanda Linhares também tinha 26 anos. Ela foi assassinada pelo namorado no sábado na zona sul de São Paulo. O crime aconteceu depois que ela terminou com ele durante uma briga na virada do ano. A mãe, o pai e o irmão de Amanda também foram feridos.

No Ceará, Eliane Alves de Araújo, de 47 anos, foi morta a golpes de facas no sábado. O suspeito é seu ex-companheiro.

Em Pernambuco, Rayane Costa Lima, de 20 anos, foi morta a tiros em sua casa no dia primeiro. O autor, segundo testemunhas, seria um homem que queria se relacionar com ela, mas ela negava.

Mais uma notícia horrível. No Paraná, no domingo, dia 3, foi encontrado o corpo de Ana Paula Proença, de 25 anos. O marido dela, Adriano Meister, confessou o crime, que teria acontecido depois de uma discussão causada pelo fato dela ter descoberto que o marido tinha um amante.

É doloroso ler sobre esses casos. Mas é necessário. Nós, mulheres, estamos sendo mortas por não querer namorar alguém ou por causa de uma discussão no Revéillon. Claro que nenhum motivo justifica assassinato. Mas, no Brasil, falar não para um homem está bastando para que uma mulher morra.

É inadmissível e os números são horríveis. No estado de São Paulo, por exemplo, os casos de feminicídio tiveram aumento de 42% no mês de dezembro e o prognóstico não é nada bom.

A pandemia aumentou o número de violência contra mulher no mundo todo. No Brasil, quinto colocado em feminicídios no mundo, uma mulher foi morta a cada nove minutos no país nos primeiros seis meses da pandemia.

No caso do Coronavírus, não sabemos ainda quando a epidemia vai acabar, mas pelo menos temos o consolo de que já existe vacina. No caso do assassinato de mulheres, a solução é mais complicada, já que essa epidemia é enraizada. Desde os anos 70 mulheres gritavam "quem ama não mata." Pelo jeito, vamos ter que gritar muito esse ano isso de novo. Parem de nos matar!