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Nina Lemos

Mais uma mulher morre após silicone. Até quando procedimentos serão "moda"?

master1305/Getty Images/iStockphoto
Imagem: master1305/Getty Images/iStockphoto
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

24/10/2020 04h00

O Brasil é o país onde mais se faz cirurgias plásticas no mundo. Segundo levantamento da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Internacional, em 2018 foram registradas mais de 1,5 milhão delas no país. Somos tão famosos no ramo que no exterior a cirurgia de lipoaspiração ou remodelação dos glúteos é conhecida como "brazilian Butt Lift" ("lift de bumbum estilo brasileiro", em tradução livre).

Mas, o pior de tudo, é a verdadeira tragédia: de vez em quando uma mulher morre, vítima literal da indústria da beleza. De setembro para cá, pelo menos três mulheres jovens morreram tentando realizar o sonho do bumbum perfeito no Brasil. Isso não pode ser normalizado.

Na quarta-feira, no estado do Rio de Janeiro, a nutricionista Patrícia Rodrigues Santos, de 34 anos, morreu depois de fazer uma aplicação de silicone nos glúteos. O procedimento teria sido feito por um massoterapeuta. Patrícia passou mal no dia seguinte ao procedimento e foi a um pronto-socorro, onde morreu. O terapeuta está sendo investigado.

Ontem foram divulgados detalhes da morte de outra vítima da indústria da estética: a cabeleireira Edisa Soloni, de 20 anos. A jovem morreu em setembro depois de fazer procedimentos nos glúteos, no abdômen e na papada.

A advogada da família disse que foram encontradas diversas perfurações no corpo de Camila. A clínica onde ela realizou as cirurgias também está sendo investigada.

No mesmo mês, a estudante Sheiza Ayala, de 22 anos, do Mato Grosso, morreu depois de fazer uma plástica no Paraguai, para onde viajou só para fazer o procedimento já que as clínicas do seu estado estavam fechadas por causa do Coronavírus. Há informações de que a clínica seria clandestina.

As pessoas que abrem clínicas clandestinas ou fazem procedimentos sérios sem ter formação para isso, como é o caso do massoterapeuta, estão cometendo crimes e devem ser punidos. Mas o buraco é mais embaixo. E a culpa não é só deles. E muito menos das vítimas.

Claro que não se deve fazer plástica sem checar detalhadamente as credenciais do médico e que não se deve escolher um procedimento dessa seriedade pelo preço. Mas não acho que a culpa seja das vítimas.

Se a pressão pelo corpo perfeito não fosse tão grande e se ter uma bunda maravilhosa não fosse sinal de sucesso, talvez menos cirurgias fossem feitas.

Como culpar uma mulher, ainda mais em tempos de redes sociais e das musas fitness, de querer realizar o sonho de uma lipoaspiração?

Nas redes sociais, influencers divulgam plásticas como se fossem "publis" de creme. No Youtube, vídeos com a "TAG Minha Lipo" rodam como se fossem coisas inofensivas e desejáveis, tipo um vídeo "comprinhas". Estou falando porque vi. Sim, vídeos de lipo estão na moda, com direito a fotos de meninas na maca como se isso fosse algo completamente natural. A cirurgia plástica é vendida como se fosse um sonho de consumo.

Não é natural. São cirurgias. São procedimentos seríssimos e que não podem ser banalizadas. Quantas mais vão morrer até que o assunto seja tratado com a seriedade que merece?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL