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Nina Lemos

Curso de terapeuta acusado de estupro tinha privação do sono e gritaria

O terapeuta Tadashi Kadomoto é acusado de abusar sexualmente de pacientes - Divulgação
O terapeuta Tadashi Kadomoto é acusado de abusar sexualmente de pacientes Imagem: Divulgação
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

14/10/2020 04h00

*Colaborou Bárbara dos Anjos Lima

"Você tinha que respirar cada vez mais rápido, eles colocavam uma música muito alta. Quando você percebia, estava gritando e as pessoas ao seu lado também". A experiência foi vivenciada em um sítio no interior de São Paulo pelo designer Marcelo (nome trocado a pedido do entrevistado) em um curso de "treinamento de liderança" promovido por Tadashi Kadomoto, conhecido como o "guru da meditação da quarentena".

O terapeuta foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo no início do mês por estupro de alunas e pacientes, segundo mostrou reportagem da GloboNews. Ele foi acusado também por danos psiquiátricos causados a uma paciente. Ele nega as acusações. Após a divulgação da reportagem no programa Fantástico no domingo (11), mais três mulheres procuraram o advogado Luiz Flavio D'Urso e afirmam também ter sofrido abuso sexual pelo terapeuta Tadashi Kadomoto. Ao menos seis mulheres levantam suspeitas contra o guru.

Muito antes de ganhar fama como "guru da meditação da quarentena" (ele tem mais de 1,5 milhão de seguidores no Instagram e suas lives durante a quarentena reuniam até 50 mil pessoas) Tadashi já era conhecido na classe média e alta de São Paulo por seus cursos. Entrevistamos duas pessoas que fizeram seu curso mais famoso, o "Leader Training". Segundo o site oficial, tem duração de um fim de semana e promete que o aluno se torne "líder da sua vida", buscando "equilíbrio emocional" ao "identificar seus limites".

Ambos entrevistados frequentaram os treinamentos de Tadashi, mas não são autores das acusações que levaram o Ministério Público a denunciá-lo.

Marcelo chegou ao curso com poucas informações: sabia que, durante um fim de semana, faria um curso de "treinamento de liderança" que o ajudaria a repensar a vida. "Eu estava passando por uma fase muito difícil, sem rumo. E fui levado por um amigo. Eles diziam que você não podia contar o que acontecia lá, que era um segredo. Então, fui sem saber detalhes do método e sem a menor ideia de como seriam as dinâmicas."

A médica paulista Aline* (nome também trocado) contou ao blog que frequentou o curso de Tadashi em 2015, pelo qual desembolsou R$ 2490, mais R$ 669 do hotel onde ficou hospedada, no interior de São Paulo. Aline fala que foi cética para o treinamento de fim de semana, mas seguiu a indicação do marido que tinha feito o curso antes e achado a experiência transformadora.

Privação do sono

Segundo Marcelo, logo ficou claro que não seria um final de semana comum de palestras. "Ao chegar, fomos para uma sala onde estavam umas cem pessoas. A primeira surpresa é que você chega à noite e não pode dormir. Passa a noite toda acordado, meditando. Hoje percebo que ele trabalhava com a privação do sono e a respiração para te induzir a estados alterados de consciência."

No fim de semana que passou no curso, ele conta ter dormido em pequenos intervalos de 40 minutos. Passava o dia em dinâmicas, que tinham como base a respiração.

"Alguns exercícios eram como atividades normais de escola. Mas a maioria era baseada em hiperventilação. Ele ficava com um microfone em frente ao público, guiando a meditação. Enquanto isso, assistentes murmuravam coisas no seu ouvido. Você respirava muito rápido e uma música ia acompanhando o ritmo da sua respiração. Eles colocavam também luz estroboscópica. Entrei em um estado de consciência totalmente alterado, como nunca experimentei antes na vida. Ele nos guiava para sair do transe, mas algumas pessoas não saíam." Segundo Marcelo, essas pessoas que "não voltavam" eram carregadas para "salas de tratamento."

"É um processo de alteração profunda da consciência em que você esquece que tem pessoas ao seu lado. Quando eu lembrava e olhava em volta, via que eu estava gritando e as pessoas também. Tinha gente se contorcendo."

As surpresas não paravam. "Uma coisa que eu acho muito importante é que ele não falava o que iria acontecer. Você começava a fazer o exercício. De repente, percebia e pensava: tô louco! E você nem tinha ido lá para isso, teoricamente era uma "aula de liderança". Isso te desestabilizava."

Aline também teve experiências extremas. "Todo o processo é focado na teoria de que a vida é baseada nos 4 pilares: alegria, tristeza, medo, e raiva. E durante o final de semana esses sentimentos são provocados o tempo todo". Aline cita a mesma privação de sono que Marcelo e como isso a levou a experiências por vezes catárticas.

Em outros momentos, no entanto, diz que viu técnicas questionáveis. "Lembro que, em um momento, nos liberaram para dormir. Mas, antes, disseram 'só que vocês têm esse texto para decorar, e precisam declamá-lo amanhã cedo'. E não era um texto fácil. Eu passei a noite inteira acordada, decorando. Na manhã seguinte, muitos não conseguiam declamar e sofriam castigos: Aline lembra que viu essas pessoas sendo levadas para um corredor escuro, onde os organizadores batiam nas paredes. "Muitos participantes tiveram crises de pânico".

"Quem é macho de verdade levanta!"

Em um dos exercícios, Aline diz que as pessoas são estimuladas a se xingarem mutuamente, baseadas no que sentem apenas ao ver o rosto da outra pessoa. "Você fala e ouve xingamentos de 'burra, vagabunda, promíscua".

O designer recorda também do sexismo presente durante o curso. "Lembro que na época fiquei muito incomodado porque ele falava, várias vezes: 'todas as mulheres que são bonitas, levantem-se!'. Depois ele falava: "todos os homens que são realmente machos, levantem-se. E as pessoas se levantavam e gritavam."

Marcelo não se levantou. Mas, mesmo assim, conta ter resolvido questões durante o fim de semana de "tratamento". "A ideia era que a gente se livrasse dos nossos maiores defeitos. No primeiro momento, identificávamos quais eram esses defeitos. Depois, fazia exercícios para nos livrarmos deles. Esses dois pontos da minha personalidade que eu mudei. Tenho mil outros defeitos, mas esses eu realmente superei", diz.

Aline também reforça que viveu "momentos bonitos e de redenção". Em uma atividade, as pessoas "colocam pra fora" traumas da infância. Segundo Aline, a ideia é "salvar a criança interior". "Nessa sessão coletiva, vi mulheres contando que haviam sido vítimas de abuso sexual na adolescência e estavam ali para superar esse trauma. E todo mundo acolhe aquela pessoa, abraça, ajuda."

A médica relata um momento, quase no final do curso, em que o próprio Tadashi se oferece, "quase como um Jesus Cristo" como foco de raiva. "Ele diz 'podem descontar essa raiva em mim' e as pessoas jogam água na cara, na cabeça e no corpo dele"
Sobre as denúncias de abuso, Aline é descrente. "Ele era um cara com destaque em uma comunidade, tido quase como um rock star, e tinha fama, sim, de mulherengo e pegador. Mas nunca soube de histórias de assédio e abuso. Não acho que ele seja como, por exemplo, um João de Deus", afirma.

Na manhã de terça-feira, o curso de liderança continuava anunciado no site do "Instituto Tadashi Kadomoto". O programa era descrito como "um treinamento com fundamentos filosóficos de origem oriental que há 20 anos vem trabalhando o aspecto emocional de ser humano".

Mas, por enquanto, o site não oferece novas datas do curso. Na segunda-feira, em uma live na qual negava as acusações, Tadashi disse que iria "se afastar de suas atividades".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL