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REPORTAGEM

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Após demissão, ela focou em 'decoração afetiva' para carreira com propósito

A empresária Gisele Chavim é dona do atelier Maria Bonita - Acervo pessoal
A empresária Gisele Chavim é dona do atelier Maria Bonita Imagem: Acervo pessoal
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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

06/07/2022 04h00

No dia em que pediu demissão, a então analista tributária Gisele Chavim foi para o parque andar de bicicleta e sentir o vento batendo no rosto. Era uma manhã de terça-feira e aquela sensação de liberdade nunca mais foi embora.

Na época, Gisele e o marido, Sidnei, que era contador, tinham 27 anos e viviam momentos pessoais parecidos: estavam infelizes em suas carreiras e desejavam seguir suas verdadeiras paixões. Gisele desejava ser costureira; Sidnei, professor de história. "Tínhamos empregos ótimos e bem remunerados, estáveis. Apoio, parceria e mãos dadas nos levou a ter segurança de seguir em busca do que fazia sentido", conta ela.

"Me casei com o amor da minha vida"

Os dois, que se conheceram bem cedo, ainda na adolescência, se tornaram parceiros de vida e enfrentaram grandes desafios juntos.

"Me casei aos 22 anos com o amor da minha vida, meu namorado do colegial. Aos 27, desejamos ter um bebê. Antes, não. Antes vivemos uma imensa lua de mel. Éramos jovens e viajamos, trabalhamos muito e estudamos", conta; Aos 27, Sidnei falou que gostaria de ter um elo com Gisele pelo resto da vida, e que esse era uma criança.

Gisele e o marido, o professor de história Sidnei Poli, se conheceram no colegial, quando tinham 15 anos  - Acervo pessoal  - Acervo pessoal
Gisele e o marido, o professor de história Sidnei Poli, se conheceram no colegial, quando tinham 15 anos
Imagem: Acervo pessoal

Começaram a tentar engravidar, ir a médicos e tomar vitaminas. Mas aí vieram os negativos, exames com resultados nada bons e a frustração. "E sabe quando falam 'não pode' e aí você já planejou toda sua vida em cima disso? Aí, em todos os meses era aquela tristeza. Acho que o mais difícil é esperar até o outro mês. E o outro. E o outro. E assim foram três anos", relembra Gisele.

Trilhando novos caminhos

A vontade de se tornarem pais coincidiu com os novos caminhos profissionais que os dois planejavam trilhar. Sidnei passou a se dedicar à carreira acadêmica. Gisele comprou uma máquina e começou a fazer cursos de costura e empreendedorismo. O pequeno ateliê foi montado, tijolo a tijolo, no andar de cima da casa em que o casal vive em Pirituba, bairro da zona oeste de São Paulo.

"Comprei a máquina de costura para fazer peças pra mim, aqui pra casa. Quando costurei a primeira, um pano de prato, eu passava por um processo muito duro de infertilidade. Vinha de algumas cirurgias no útero, e todas sem sucesso. Quando ouvia dos médicos que não engravidaria e que se engravidasse não seguraria a gestação, é como se nada que eu vivia na época fizesse sentido", relembra.

O Maria Bonita

Ao ver o primeiro pano de prato costurado, uma amiga de Gisele ficou encantada e quis comprá-lo. A peça foi vendida e, a partir dali, os pedidos não pararam mais. Nascia o Maria Bonita Atelier.

"Comecei a colocar tudo que amava. Amava máquina de escrever, então fazia bilhetinhos nela para mandar para as clientes. Gostava de casa cheirosa, então dava de brinde perfumes para casa. Com isso eu vi que 'ok, se eu nunca for mãe, então eu não vou sofrer mais'"

A dedicação ao negócio transformou Gisele. O sucesso da empresa era um alento depois de tantas tentativas de gravidez sem êxito. Até que um dia, três anos depois daquele primeiro pano de prato, a vida decidiu fazer uma surpresa.

Dois risquinhos: a chegada de Marina

"Infertilidade e o meu negócio se cruzam, não dá pra falar de um sem falar do outro", diz a empresária - Acervo pessoal  - Acervo pessoal
'A infertilidade e o meu negócio se cruzam, não dá pra falar de um sem falar do outro', diz a empresária
Imagem: Acervo pessoal

Em maio de 2016, Gisele estava estudando sobre economia criativa quando se deu conta de que não lembrava a data da última menstruação. Pegou um último teste de gravidez em casa, dos milhares que havia comprado e fez o teste assim, no fim de tarde.

"Como em três anos todos sempre deram negativo, fiz e depois bati o olho sem dar muita importância. E estavam lá os dois sonhados risquinhos. A minha vista escureceu na hora, o chão flutuava. Tudo o que eu tinha tirado da minha cabeça pulou no meu colo de novo."

A gestação de Gisele era de risco, e ela teve que ficar em repouso. Nesse período, fez uma pausa no trabalho. A pequena Marina nasceu na véspera do Natal, no dia 24 de dezembro.

Já no ano seguinte, em 2017, a empresa de decoração afetiva voltou com força total - e não parou mais. Hoje, a marca tem mais de 55 mil seguidores no Instagram e clientes no Brasil todo.

"Todas minhas paixões estão debaixo desse grande guarda-chuva que é meu negócio. Com ele, consegui maternar aqui pertinho. Não perdi nada: primeiros passos, primeira papinha, palavrinhas... Ele me deu presença. Meu esposo é professor, sempre teve horários bem legais, flexíveis, então assume tudo em casa: refeições, nossa criança, me ajuda com o meu negócio. Então eu consigo trabalhar com constância, porque não é fácil. Sem cada um assumir seus papeis, eu não conseguiria. É impossível."

Afeto e inspiração

No perfil da marca, além dos produtos, Gisele compartilha algumas histórias pessoais e busca inspirar outras mulheres.
"Às que têm o sonho de ser mãe, o que quero falar é: aproveite o processo. Se descubra, se prepare para o 'sim' e também para o 'não', e procure sentido nas coisas, porque não podemos ser infelizes para sempre", pontua.

Foi isso o que aconteceu na minha vida, sabe? Eu aceitei que nunca seria mãe e sofri o tempo que julguei necessário, mas não queria viver naquele limbo pra sempre. No meu caso, foi um negócio que nasceu, mas cada pessoa é um mundo, e só ela sabe no fundo o que a faz querer levantar todos os dias da cama.

E arremata: "Você tem todo o direito de sofrer durante o período que julgar necessário, mas use esse tempo pra ser melhor pra você, pra descobrir coisas que fazem o seu coração transbordar. Se a maternidade nunca acontecer, você não perderá a vida sofrendo. Se acontecer, quando sua criança chegar você será uma pessoa melhor, uma mãe melhor, terá uma vida melhor, um ninho acolhedor e inteiro."