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REPORTAGEM

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'Um indiano muçulmano comentou na minha foto no Insta e hoje somos casados'

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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

01/06/2022 04h00

Um dia, mais precisamente em 15 de maio de 2014, a então estudante de jornalismo Sindy Guimarães, 29, de Goiânia, estava na cozinha com a mãe lavando a louça do jantar quando recebeu uma notificação de mensagem no Instagram. Já passava das 23h, e o fato era bem incomum, por vários motivos.

Na plataforma, Sindy tinha pouco mais de 150 seguidores e não costumava interagir muito. Postava fotos dos gatos, do hamster e, raramente, alguma selfie. Mas ela tinha cortado o cabelo, que antes batia na cintura, e quis compartilhar a mudança na rede. Com as madeixas curtinhas e encaracoladas, vestindo uma camiseta amarela do Gato Félix, ela posou no ponto de ônibus, a caminho da faculdade, e legendou com a hashtag "nerd". Do outro lado do mundo, em Dubai, a 12.200 quilômetros de distância, o também estudante Hamza Mohammed, hoje com 27 anos, que acompanhava a hashtag, chegou à foto e deixou um comentário: "você é muito linda", em inglês.

Sindy respondeu a Hamza e curtiu algumas fotos de desenhos e paisagens no perfil dele - que também não era muito afeito a selfies - e os dois começaram imediatamente a conversar e só pararam sete horas depois. No Brasil, quando já era quase 8 da manhã do dia seguinte. Em Dubai, por causa do fuso horário, quando já passava das 3 da tarde.

Se o encontro virtual tivesse acontecido hoje, a chance deles se conhecerem seria de aproximadamente 1 em 20 milhões, que é o número atual de publicações no Instagram com a hashtag #nerd.

Acaso, sorte ou destino?

No casamento deles a celebração foi indiana (como nessa foto) e tradicional ocidental - arquivo pessoal - arquivo pessoal
No casamento, a celebração foi indiana (como nessa foto) e ocidental
Imagem: arquivo pessoal

"No outro dia, acordei e a gente já estava conversando de novo. Foi algo natural, parecia que a gente era amigo a vida inteira. Tantas coisas em comum, sabe? A minha mãe até brincava na época que parecia ser um encontro de almas, porque mesmo sendo de lugares tão diferentes e com culturas tão diferentes, a gente gostava das mesmas coisas", relembra Sindy.
Seis meses depois do primeiro contato virtual, ela foi ao encontro dele, em Dubai.

"Assim que saí do aeroporto, eu o vi de rabo de olho, e ele se escondeu atrás de uma pilastra! Ele tinha acabado de fazer 20 anos. Quando a gente resolveu fazer toda essa aventura, éramos bem novinhos. Ele me disse que se escondeu porque não conseguiu acreditar, quando me viu pessoalmente, que eu era ainda mais bonita do que nos vídeos, nas chamadas que a gente fazia, e ele ficou com muita vergonha, muito medo de chegar perto de mim. Ele tava com um buquê de rosas, uma sacolinha com chocolates e lanchinhos, e suco pra mim, porque falou que achou que eu ia chegar com fome e muito cansada da viagem", conta.

Depois de um abraço meio desconcertado no aeroporto, Sindy e Hamza trocaram um selinho no carro dele. Ela explica que lá as demonstrações públicas de afeto não são bem vistas.
"Depois daquilo a gente deslanchou, porque a gente sempre foi, desde a primeira conversa, melhores amigos, então esse primeiro contato não foi muito difícil", entrega.

Em Dubai, Sindy ficou na casa dos sogros. A primeira visita durou 21 dias e, nesse período, ela e Hamza já começaram a planejar o casamento.

"Nossos pais ficavam falando 'vocês são muito novos, o que estão fazendo?', mas estávamos muito focados em ficar juntos"

Sindy e Hamza são pais de Theo, de 3 anos, e Zoey, de 8 meses - arquivo pessoal - arquivo pessoal
A família toda: à frente as crianças e os pais dela. Atrás o Hamza e os pais dele
Imagem: arquivo pessoal

Logo depois da viagem a Dubai, Sindy voltou ao Brasil para apresentar o TCC e terminar a faculdade. Hamza veio junto. "Ele disse que não aguentaria mais ficar longe, e ia pra faculdade comigo todos os dias. Pegávamos três ou quatro ônibus, enfrentávamos chuva, ruas escuras... Vínhamos de níveis sociais muito diferentes. Aos 18 anos ele ganhou um Porsche, nunca teve que se preocupar com dinheiro, sempre viveu com muita mordomia. A minha mãe via isso com muito carinho, ele mudar totalmente a vida dele só pra estar ali comigo e me apoiar."

Um ano depois de se conherem pelo Instagram, Sindy e Hamza se casaram em Dubai, onde moram até hoje. Juntos há oito anos, eles são pais de Theo, de 3 anos, e Zoey, de 8 meses.
Jornalista e influenciadora, a brasileira usa as redes sociais para compartilhar conteúdo sobre maternidade real e, principalmente, para desmistificar estereótipos culturais e religiosos. Hamza é indiano e muçulmano. Sindy vem de uma família católica. "Respeitamos as diferenças um do outro, e vamos deixar as crianças escolherem", explica ela.

Ainda sobre preconceito religioso e xenofobia, Sindy diz se sentir mais acolhida nos Emirados Árabes, que Hamza quando esteve no Brasil.

"Na época da faculdade ouvi, até de professores, que deveriam ser pessoas mais informadas: 'Não vai com esse relacionamento pra frente, não, porque muçulmanos são super machistas. Ele vai pegar seu passaporte e te trancar em casa. Você vai ser obrigada a ter milhões de filhos. Lá, nos Emirados Árabes, a mulher não pode dirigir, não pode ter conta no banco, não pode trabalhar'", desabafa Sindy.

E completa: "São visões extremamente deturpadas, por conta da mídia mesmo, porque as pessoas misturam o islamismo com os grupos extremistas, os grupos terroristas, e não tem nada a ver uma coisa com a outra. Esses grupos não representam a religião, nem representam milhões de pessoas que são muçulmanos de bem.".

Em vídeos divertidos no Instagram, onde tem 30 mil seguidores, ela desconstrói, de um jeito leve, o que muitos de nós, ocidentais, imaginamos saber sobre a cultura islâmica.

Mais liberdade em Dubai que no Brasil

'O que não falta é lugar bonito em Dubai. E vista-se como quiser!' - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
'O que não falta é lugar bonito em Dubai. E posso me vestir como quiser, sim!'
Imagem: Reprodução/Instagram

"Os muçulmanos são bastante abertos, tolerantes com as diferenças, porque é assim que eles querem ser tratados. Comento muito com a minha mãe que hoje eu tenho uma liberdade que eu não tinha. Eu morava no Brasil e não tinha a liberdade de ser como sou como hoje. Fiz a maioria das tatuagens que eu tenho depois que me casei com o Hamza. Comecei a ter cabelo colorido depois que me casei com ele.

"Tenho liberdade de usar o que eu quiser, vestir o que eu quiser, ir onde quiser - e vou com meu carro. Me exponho muito na internet. Tem foto minha de biquíni, tem foto minha de vestido... E o Hamza sabe que isso é importante pra mim e me apoia. Quantas vezes a gente vê exatamente o oposto acontecendo no Brasil? Esse é um ponto que eu toco muito nos meus vídeos", pontua.